segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Um caso de amor

No dia em que quase desisti de aprender a andar a cavalo, conheci a Morena, uma égua castanha com sangue de Mangalarga Marchador. Até hoje não sei explicar por que comecei a gostar dela. Morena é arisca. Meio sistemática, digamos. Não gosta muito de dengos e carinhos e no dia em que não está com a “veia boa”, não tem quem a pegue no pasto. Não gosta de andar devagar, “no passo”. Adora galopes e corridas. Iniciante no mundo dos cavalos, era pra eu ter preferido um bicho tranquilo, calminho, mansinho... Mas me apaixonei por ela. Devagar, fomos ganhando a confiança uma da outra.
Com ela aprendi algumas coisas interessantes sobre cavalos. Aprendi que por trás daquelas centenas de quilos, daquela musculatura poderosa, daquela força impressionante, se esconde um espírito doce e tímido.  O cavalo é uma presa por natureza, sempre atento a possíveis predadores, sempre meio na defensiva. Você pode falar rispidamente com seu cachorrinho, e momentos depois ele estará pulando e abanando o rabo, feliz em te ver e ansioso por te agradar. Mas se usar o tom de voz errado com um cavalo, ele vai tentar se afastar, fugir de você. Por isso é que foi tão emocionante ir me aproximando da Morena. No começo, eu conversava com ela e ela me olhava intrigada, meio de longe, decerto pensando: “O que será que ela quer comigo?”. Aos poucos foi deixando eu me aproximar. Hoje quando dou banho nela, levantando cada pata pra lavar os cascos, e ela se submete docilmente, confiante, não me aguento de alegria. Quando a chamo no pasto e ela vem de longe pra comer uma cenoura na minha mão, então...

Com ela comecei a aprender as sutilezas da interação entre gente e cavalo. Nas primeiras vezes em que montei, ficava com um pouco de medo por causa da sensação de falta de controle que dá. Afinal, é um bicho muito grande, muito forte que está ali... Como é que eu vou conseguir dominar um bicho desses? Mas fui vendo que o que existe entre o cavalo e um bom cavaleiro é uma parceria, uma constante comunicação. O cavaleiro não precisa exercer domínio, mas sim uma gentil liderança. A Morena foi me ensinando isso. Uma leve pressão com as minhas pernas e ela saia no trote. Uma inclinação do meu corpo pra frente, e vinha o galope. Um som de incentivo, e era a corrida. Um toque do calcanhar, uma inclinação das rédeas, e a direção muda. Uma palavra e um movimento de rédeas, e a velocidade diminui. Ela é toda atenção. Mas não gosta de indecisão: se eu hesito um pouco (será que desvio ou pulo esse barranco?), se não passo segurança pra ela nos comandos, ela bufa impaciente e toma as próprias decisões, que nem sempre me deixam feliz.  

Ela também tem seu jeito de se comunicar. Toda uma delicada linguagem corporal. Cabeça baixa, movimento de mastigar, significam tranquilidade. Orelhas abaixadas pra trás, encrenca à vista. E uma porção de relinchos e sopros diferentes, pra chamar ou advertir os outros cavalos, pra mostrar que está feliz com a chegada da ração...

A Morena era do Roger que, generosamente, sempre me emprestava quando eu pedia. Eu morria de vontade de comprar pra mim, mas dinheiro que é bom, não tinha. Num belo dia, chego lá nas baias e encontro o Roger mostrando a Morena pra um possível comprador: um menino de uns quatorze anos, acompanhado do pai. Fiquei meio de longe, fingindo que estava ocupada com outras coisas, mas observando e torcendo pro negócio não dar certo. O Roger selou a Morena e montou. Foi mostrando que ela sabia recuar, ladear...  galopou, ensaiou um esbarro. O menino, chapeuzinho de cowboy na cabeça, botina no pé, todo cheio de pose, olhava: “Que legal...” Aí o Roger me viu lá num canto, apeou e me chamou: “Giselle, monta aqui na Morena e dá uma volta pra eles verem.” Fui com as pernas meio bambas, pensando: “Que raiva! Ainda por cima quer que eu participe dessa venda?” Montei e dei umas voltas, primeiro no trote, depois galopando um pouco. Apeei, fiz um carinho no pescoço dela: "Muito bem, boa menina..." como sempre faço e me afastei sem olhar pra trás, pra não ficar mais triste ainda. Não sei se foi porque fiz uma cara muito feia (eu tentei!) ou se realmente o menino não gostou da Morena (ele ficou olhando de rabo de olho pro Raio que, muito branco, grandão e amigável, mastigava feno em sua baia), mas uns dias depois fiquei sabendo que eles não fecharam negócio. Mesmo assim fiquei com o coração apertado, pensando na possibilidade de alguém levar embora a minha querida.
Uns dias depois, o Leandro chegou em casa com um sorriso de orelha a orelha: “Comprei a Morena pra você!” Fiquei pasma: “Mas com que dinheiro, meu Deus do céu?” Aí ele me contou que o Roger fez um preço bem camarada. Um tempo atrás, eu tinha pedido um empréstimo pra Raquel e ela me deu o cheque dizendo: “Não é empréstimo. É presente.” Mas eu queria devolver e estava juntando. “A Raquel não ia mesmo aceitar você devolver aquele dinheiro...” Eu não sabia se comemorava ou se matava ele.
Mais tarde, eu e a Raquel escolhíamos legumes no varejão quando contei: “Sabe aquele cheque? Eu ia te devolver este mês, mas apareceu uma oportunidade, e aí eu comprei uma coisa pra mim...” E ela, distraída examinando um reluzente pimentão vermelho: “Ah, eu te falei que era presente, tenha dó! Mas o que você comprou?” “Uma égua!” O pimentão caiu de volta na bancada: “Pelo amor de Deus! Pensei que tinha comprado uma coisa legal! O que você vai fazer com uma égua???”
O que eu ia fazer? Desbravar trilhas, percorrer estradas, atravessar rios, correr, correr e correr até só ouvir o vento assobiando forte nos meus ouvidos... O que eu ia fazer? Cair no chão e levantar de novo! Deixar as preocupações pra trás, na poeira da estrada. Subir barrancos, descer ladeiras, carregar a cachorrinha Frida na sela comigo. O que eu ia fazer? Me emocionar com o nascimento da potrinha Penélope. Mas nesse dia eu ainda não sabia disso. Então não falei nada pra Raquel, que também não deu muita importância ao assunto e, de testa franzida, já estudava atentamente uma batata-aipo.
Mais de um ano já se passou. Morena já aprontou muito, já me fez chorar de susto e de raiva. Nos primeiros tempos, quando ficava na baia, ela saía louca pra andar e correr, e eu, medrosa, me apavorava. E nunca esqueço uma mordida que ela me deu nas costelas, um dia em que o Leandro estava ajustando a barrigueira dela (mas coitadinha, ela estava grávida e sensível). Mas um dia desses, em que eu estava triste, nervosa não lembro com o quê, fui levar a Morena de volta pro piquete. Tirei o cabresto e já fui me virando pra voltar. Normalmente ela já sai desembestada pra pastar. Dei uns passos na direção do colchete quando senti a respiração quente dela no meu ombro. Ela vinha me seguindo de volta. Ficou paradinha na cerca, me olhando, e aceitou um afago na cabeça, coisa rara de acontecer. Como explicar? Só deixei as lágrimas caírem.
Morena e a pequena Penélope, no dia do seu nascimento

Que bebê guloso!


Com dois meses e meio, muito dengosa, comendo ração na minha mão.

A mamãe Morena também quer uma raçãozinha!
Suave e dócil. Minha Penélope.
Morena e eu perseguindo o arco-íris. O que será que nos espera?

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Só de passagem

Tanta coisa pra contar, mas pouco tempo pra escrever... Nesses últimos dias o Leandro e eu estamos com o coração na mão e com os nervos à flor da pele por causa do plantio do capim. É adubo que ainda não chegou, é chuva que tem que chover no dia certo, é cavalo que aprendeu a passar por cima do mata-burro... Será que vai dar tudo certo? Depois conto pra vocês. Hoje passei só pra deixar essas fotos, que achei lindas (modéstia de fotógrafa à parte, rsrsrs).

Uma é da colheita que fizemos domingo passado. Frutas e verduras fresquinhas e orgânicas, da horta e do quintal. Aproveito pra deixar um agradecimento ao Roger, que ajudou na capina da horta (com as chuvas, o mato anda crescendo na velocidade da luz). Tem que ser amigo de verdade pra enfrentar um sol de rachar e uma enxadinha sem corte daquelas!

A outra é de uma visitante exótica que apareceu por aqui, tão delicada que tive que vencer meu inexplicável, porém muito real, medo de borboletas e fotografá-la.

Abraços e até a próxima!


sábado, 10 de novembro de 2012

Expedição

Se você acha que a vida na roça é calminha e tranqüila... Se pensa que aqui os momentos de lazer são passados balançando na rede, tirando um cochilo embaixo de uma árvore ou mastigando um talo de capim... Sinto te decepcionar. Sossego é uma coisa que não me deixam ter por aqui. Quando penso que vou passar um fim de semana quietinha, descansando, surge um bando de malucos com uma ideia mais cabulosa que a outra. Mas como é o meu bando de malucos, todos muito queridos, e como normalmente as ideias cabulosas são realmente muito boas, acabo desistindo do descanso.  Faz um tempinho, a ideia cabulosa foi essa: “Bem que a gente podia ir passear na cachoeira...” Combinamos um sábado. De manhã cedinho, preparamos os cavalos. Nos alforjes, garrafinhas de água, um queijo fresquinho, farofa e pão com mortadela. E pegamos a estrada. A linda paisagem fez passarem rápido as duas horas e meia de cavalgada.
Tudo maravilhoso, até chegarmos perto do rio. Já ouviu a expressão “a vaca foi pro brejo”? Então, vaca até pode ir, mas no nosso caso os cavalos não quiseram ir para o brejo de jeito nenhum. Quando o terreno começou a ficar lamacento demais (lamacento que eu digo é afundando até os joelhos) nossos bichinhos resolveram que até ali já tava bom pra eles, e que não estavam com tanta vontade assim de ver cachoeira, nem nada. Então amarramos os cabrestos numas árvores e toca a caminhar mais uma hora, pelo lamaçal. A Anna Luiza, oito anos de pura coragem, que até aí não tinha reclamado de nada, suspirou infeliz . Cada passo era uma dificuldade. “Aí, filha, agora quando voltarem as aulas você pode fazer uma redação: ‘A Aventura das férias’!” A Mara falou. E a pequena, bufando pra tirar uma bota atolada da lama: “Aventura? Só se for ‘O Pesadelo das férias’!” Luís Henrique teve dó e levou a Anna de cavalinho, nas costas, até a beira do barranco.
Aí é que começou a aventura de verdade. Olhei pra baixo e vi aquele paredão íngreme, quase vertical. Uns doze metros abaixo corria o rio, mas não dava pra ver por causa da vegetação fechada. Ouvia-se o urro da cachoeira. Um barulhão ensurdecedor. E agora? Ninguém me avisou que o lugar era impenetrável desse jeito. Como é que faz pra descer? Luiz Henrique, Luciene e Laila, que conheciam melhor a área, se embrenharam na mata, rio abaixo, pra procurar um lugar mais fácil pra descer o barranco. Marco, Mara e Anna Júlia e Ana Vitória foram em outra direção, também procurando um caminho mais fácil. De repente, me vi sozinha com o Leandro e o Franco, e eles, muito calmos e prudentes, resolveram que não iam esperar coisa nenhuma e iam descer o barranco ali mesmo, de qualquer jeito. Leandro falou: “É fácil demais, gente! É só pegar o embalo e ir firme, correndo morro abaixo. Olha só.” E saiu trotando desengonçadamente por uns três metros, quando deu o inevitável escorregão e colidiu lindamente com um coqueiro, o que não o impediu de continuar deslizando pelo barranco, agora deitado no chão, e derrubar uns cinco arbustos, antes de parar, emaranhado num monte de cipós. Eu e o Franco rolávamos de rir quando escutamos um grito, abafado pelo barulho da cachoeira. “O que é isso? Tem alguém gritando!” “Será que aconteceu alguma coisa?” Ficamos quietinhos pra tentar ouvir. O grito veio de novo. Era uma voz desesperada: “Cadê o ...eejooooo?” Ficamos intrigados. “O que foi que ele gritou? Acho que está chamando por alguém. Será que uma das meninas se perdeu?” Ouvimos de novo, dessa vez uma voz feminina: “Pegooooou?? Pegou ....eeeejo?” E uma voz de homem respondeu: “Caiu na ááááágua!”. Pronto! Entrei em desespero: “Alguém caiu no rio!” O que a gente faz?” Com muita dificuldade, fomos andando pela mata, na direção das vozes, até que encontramos o Luís Henrique, muito compenetrado, amarrando  uma corda numa árvore. Não tinha achado nenhum lugar bom pra descer, então resolveu improvisar um rapel. “Riquinho, o que aconteceu? Quem caiu no rio?” E ele: “Rá! Quem caiu foi o queijo!”  Só mais essa! O Marco desceu o barranco, segurando de árvore em árvore. Luciene queria descer também, mas se atrapalhou com as sacolas que vinha carregando. Então jogou uma sacola pro Marco pegar, mas no meio do vôo a sacola se rasgou e o queijo branquinho saiu quicando morro abaixo: pluct, pluct, pluct, até que tchibum, no rio. Fiquei imaginando a cena: um bando de mineiros vendo o seu precioso queijo rolar para a perdição. Imaginei a Luciene, desesperada, levando as mãos à cabeça e gritando em câmera lenta: “Nããããõooo!” E o Luís Henrique saindo em disparada, ao som do tema de Indiana Jones, e se jogando no rio para salvar o tesouro. E ele salvou mesmo!
Bom, depois do queijo salvo, descemos, não sem dificuldade, no rapel improvisado e nos deparamos com a beleza selvagem da cachoeira. Linda, linda, linda. A gente vive tão preso à rotina, ao trabalho, aos problemas do dia a dia, que às vezes esquece que no mundo existem essas maravilhas da natureza.




O Leandro e o Franco se animaram a nadar um pouco, mas como a água estava gelada, o resto do pessoal se contentou em curtir a paisagem e comer a farofa e o queijo resgatado. Como o caminho de volta era longo, logo nos aprontamos pra ir embora. E pra subir o barranco? Descer foi até fácil. Todo santo ajudou. Mas pra subir aquele paredão lamacento foi dureza. Um de cada vez, os aventureiros agarravam a corda. A outra ponta estava lá em cima, amarrada na árvore. No meio do barranco, Luís Henrique se postou, aboletado em uma raiz, pra dar a mão a quem escorregasse. Usando a corda como apoio, pisando nas raízes e derrapando na lama, um por um, todos foram subindo. Mas aí chegou minha vez. Não sei se já comentei, mas agilidade, equilíbrio e coordenação motora não são meus pontos fortes. Respirei fundo, segurei a corda, finquei o pé no barranco, dei dois passos pra cima (olha só, nem é tão difícil assim!) e... escorreguei com tudo e fiquei pendurada, ainda segurando a corda e grudada na parede de lama. O pessoal gritava: “Vai, Giselle! Força! Sobe pela corda!” Não sei se comentei, mas força também não é meu ponto forte. Luís Henrique saltou pra baixo e tentou me dar “pezinho”, fazer um apoio com as mãos, pra eu subir, mas nessas alturas eu já estava desesperada, escorregando com pés e joelhos e espalhando barro pra todo lado. Aí o Marco gritou lá de cima: “É, compadre, não tem outro jeito! Empurra ela pela bunda!” E eu: “Nãããooo! Eu vou conseguir!” Mas aí me deu uma crise de riso, diante da bizarrice da situação, e comecei a escorregar pra baixo. Vendo que eu ia cair mesmo, e que o Luís Henrique hesitava em dar o empurrão glúteo, a Luciene tomou a frente: “Dá licença! Deixa comigo!” Empurrou o Luís Henrique pro lado e sem dó nem piedade, pregou as duas mãos na minha relutante bunda e impingiu-me um empurrão muito bem dado. Cheguei ao topo do barranco praticamente engatinhando, meio arrastada, morrendo de rir, mas cheguei.
Dias depois o pessoal ainda ria da minha escalada patética. A Luciene contou essa história pra todo mundo, ressaltando que no final ela é que teve que me empurrar pra cima, porque o Luís Henrique não quis. E ele, com os olhinhos apertados brilhando de divertimento: “Ainda se fosse uma morena cor de cuia... Mas uma dotôra... Eu nunca fiz um papér desses...”





segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Chamando a chuva

Eu não prestava atenção nessas coisas. Nas sutis mudanças das nuvens, do vento. No cheiro do ar. Só me dava conta de que a estação das chuvas tinha chegado quando ela se anunciava espalhafatosamente, ribombando seus trovões e despejando suas bátegas. Mas tenho aprendido. O primeiro sinal foi a volta dos vagalumes. Já fazia um tempão que nenhum deles acendia sua lanterninha verde pra enfeitar a noite. Mas dia desses, no lusco-fusco da hora da Ave Maria, eis que lá pelas bandas da grota surge um tímido pisca-piscante pontinho de luz. Depois mais um. E mais outro. Aos poucos eles voltaram a povoar a escuridão do mato. “Vagalume tem tem, seu pai ta aqui, sua mãe também.” Conto para o Dudu que chamávamos os bichinhos assim, com um pote de vidro na mão, na esperança de fazer alguns prisioneiros e fabricar um lampião vivo. Mas o pequeno pede: “Não canta não, tia! Eu tenho medo de vagalume.” Então não canto. Um outro canto enche o ar. As cigarras também andavam sumidas. Mas agora acordam do seu sono, livram-se das armaduras velhas, que não servem mais, e surgem novas e reluzentes pra disputar suas barulhentas batalhas de canto. Dizem que cigarra canta até estourar. Dizem que é o canto da cigarra que "chama a chuva". Não sei. Sei que as tardes estão cheias da estridência alegre desses bichinhos.  
Sente-se o ar mais pesado, uma certa eletricidade. Nuvens prenhes cruzam preguiçosamente o céu. Mesmo assim não mudamos de ideia. O combinado era ir a cavalo pra casa do Franco. Então selamos os animais debaixo de um céu vespertino precocemente escurecido. Galopamos por pastos ressecados e estradas de terra poeirentas. A terra pede por chuva. Atravessamos o rio. A água baixou tanto que Frida e Madame nem precisam nadar pra nos acompanhar. Passam andando e dando pulinhos. Conversamos quase despreocupados, mas com um olho na montanha vermelha de nuvens zangadas que se forma atrás de nós. A umidade no ar é quase palpável. Atravessa as roupas e gruda na pele. Um rabisco de luz rasga o horizonte. Lembro da história do Luís Henrique, que teve a montaria fulminada por um raio durante uma tempestade. Sentiu o estrondo, o estalo de luz, e o cavalo desmontando entre suas pernas. Depois disso fez voto. Tempão sem cortar a barba. Casou barbudo, a Luciene conta. Aperto os calcanhares nos flancos do Silver . Vamos mais depressa um pouquinho? O vento nos envolve, pesado. A montanha de nuvens agora é negra, vinho, púrpura, riscada por relâmpagos, se eleva vertiginosamente no céu e nos cerca por trás, pela direita e pela esquerda. Escurece, e Silver tropeça na estrada de cascalho. Só falta um pouquinho pra chegar. Neto trota despreocupado em seu baio Sete-de-Ouros, contando piadas. Leandro tenta apressar a tropa, esporeia seu appaloosa.  Vemos que já chove nos campos à nossa esquerda, não muito longe. Marquinho dá um tapinha na garupa do castanho Café e o põe a galope. Na última reta tenho que ir devagarzinho. Escureceu muito, já não dá pra ver o chão. Aliviada, atravesso a porteira. Amarramos os cavalos embaixo do grande fícus do terreiro, sentindo os primeiros gordos pingos d’água que caem. Entramos na varanda e o céu desaba e se desmancha líquido sobre a terra, na primeira chuva da estação. Deus é bom.
Com as primeiras chuvas, a casinha verde se enche de novos habitantes noturnos. Delicadas aleluias e confusos besourinhos redondos revoam ao redor das lâmpadas. A pequena Sabrina, que está de visita, tenta montar um quebra-cabeça, mas é constantemente interrompida pelos bichinhos. Quando um imenso besouro preto pousa pesadamente sobre o brinquedo, ela berra: “Tia, olha! Um bicho grandão! Mata ele!” Delicadamente, capturo o pequeno rinoceronte negro e o liberto no gramado. “Sassá, eu não costumo matar os bichinhos. Eles não fazem nenhum mal pra gente.” Ela me olha intrigada. Olha para o chão, onde a cada instante caem novos insetos e, mãozinhas fincadas na cintura, pisa com toda a força em cima de um besourinho. “Pois eu costumo matar, Giselle.” E virando as palminhas das mãos pra cima, completa com ar professoral: “Porque eles me incomodam!” Fico apalermada por um instante. Como argumentar com esse serzinho de quatro anos e puro pragmatismo? Mas no instante seguinte a menina corre pra abraçar a Frida, já esquecida do quebra-cabeça e dos besouros. “Tira uma foto minha com a sua cachorrinha?” Isso eu posso fazer, Sabrina.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Seguindo o conselho de Lênin

Um passo atrás para dar dois à frente!

Quando a gente quer muito uma coisa, às vezes dá vontade de virar um trator, marcar um rumo e sair esmagando tudo que estiver na frente, pra chegar onde a gente quer. Mas o fato é que a estrada tem algumas curvas e desvios, e costuma ser mais sábio respeitar a sinalização, senão corre-se o risco de cair em alguma ribanceira, ou ficar atolado na lama.
Era domingo. Eu estava bem tranqüila lendo no meu quarto quando o Leandro chegou:
_Vou voltar a trabalhar no escritório.
Larguei o livro, meio assustada. Será que entendi direito?
_O quê? Como assim?
_Começo amanhã. Já falei com o Fabiano.
Senti um aperto frio no estômago, pensando em todos os planos que tínhamos feito.
_Mas... Por que isso agora? E o trabalho com os cavalos? Você ta pensando em desistir?
Ele me explicou que não. Não estava desistindo. Tinha pensado e repensado a nossa situação. Sem uma boa estrutura, redondel, pista, baias, ficava muito difícil trabalhar. Sem dinheiro e sem um pedaço de terra nosso, ficava difícil ter estrutura. Estávamos num beco sem saída. Com o salário do escritório, ficaria mais fácil planejar uma solução. E ele continuaria trabalhando com os cavalos no tempo livre.
Não achei a ideia muito boa. Na minha visão, era um retrocesso. Achava que tínhamos era que vender a casa logo, pra levantar o capital necessário, e tocar pra frente. Mas acabou sendo muito bom. O Leandro ia quase todos os dias pra roça, assim que saia do escritório, e voltava à noite. Acho que ele nunca ficou tão cansado na vida, nem na época em que fazia faculdade e tinha dois empregos. Mas estava bem, tranqüilo, e maquinando planos pra fazer dar certo o nosso projeto.
E no final das contas, vender a casa não era uma tarefa assim tão fácil. Já fazia um tempão que tínhamos anunciado e nada de aparecerem interessados. Mas um belo dia surgiu um! Que alegria! Vou dar-lhe o pseudônimo de Sr. Xixi, depois vocês vão entender porque. Sr. Xixi veio ver a casa. Gostou. Voltou com a esposa. Ela também gostou da localização, achou a casa bem espaçosa, ventilada, coisa e tal. Ficaram de pensar. No outro dia Xixi chamou o Leandro pra almoçar e fez uma oferta. Aleluia! O Leandro falou pra ele que ia conversar comigo e dava a resposta. Mas aí, no mesmo dia, volta o Xixi aqui em casa com um amigo. Eles olham a casa de novo, cutucam as paredes com os dedos, examinam rodapés, portais, o escambau a quatro. O tal amigo parece que é engenheiro. Falou pro Xixi que achava o preço meio alto pra uma casa já meio antiga. Pôs tudo quanto é defeito, criticou a divisão dos cômodos, achou sinais de umidade nas paredes, rachaduras no cimento do quintal, duendes malvados nos armários da cozinha, falou que a numerologia era desfavorável, que Marte não estava alinhado com Júpiter e aí não teve jeito. Nosso comprador fez xixi no barranco. Retirou a oferta. Fiquei simplesmente furiosa! Primeiro porque onde já se viu voltar atrás depois que se fez uma oferta de compra. Depois porque minha casa é linda, maravilhosa. Umidade é o nariz deles! O que tem são algumas paredes com pintura descascada porque o pintor fez um serviço mais ou menos e também porque o Hunter tem um probleminha básico de roer casca de parede. Eu e o Leandro ficamos tão bravos que arrancamos o cartaz de “vende-se” da porta, embolamos e jogamos fora.
E agora? Sem venda, sem dinheiro... O que fazer? Quase fundi o motor do cérebro, de tanto pensar. Minhas conversar com o Leandro eram cheias de elucubrações: “E se a gente em vez de vender, alugasse a casa e fosse morar de uma vez na casinha verde, do jeito que ela está?” “Mas a casinha verde não é nossa... E se a gente constrói toda a estrutura de baias lá e depois tem que mudar?” “É mesmo... E se a gente comprasse um pedaço bem pequeno de terra, mais barato? Agora com o seu salário do escritório, e economizando bastante, quem sabe dá certo?” “Mas onde achar esse pedaço?” Numa dessas conversas nos lembramos da terra do Rubinho, aquela que tinha uma casinha azul pequenininha. “E se a gente fizesse uma oferta na terra do Rubinho?” “Pode ser! Lá é bem pequeno. Mas tem água... Tem a casinha... É perto da casinha verde... Vamos lá conversar com ele?”
Fomos. O Rubinho mora com a esposa numa chácara muito bonita, com um jardim meio bagunçado, bem rústico, do jeito que eu gosto, fogãozinho a lenha no terreiro, e uma varanda grande e fresquinha. A terra que ele estava vendendo é perto dessa chácara onde eles moram. Nos sentamos na varanda, tomando café. A cachorrinha Mila veio fazer festa pra mim e pedir cafuné. Conversa vai, conversa vem, o Leandro tocou no assunto da venda da terra. Rubinho falou que o preço ainda era o mesmo. Aí o Leandro dispara: “Se eu te pagar tanto essa semana, você me dá um prazo de dois meses pra acertar o restante?” Tive três extra-sístoles, engasguei com o café e involuntariamente espremi a cabeça da Mila, que saiu ganindo. “Tanto” era mais ou menos vinte por cento do valor da terra. E isso era tudo o que tínhamos de economias. Minha vontade era falar pra ele: “Ficou doido??? De onde a gente vai tirar o resto do dinheiro? Você pretende ganhar na loteria, assaltar um banco ou vender um rim no mercado negro nesse prazo de dois meses? Pensei que a gente tivesse vindo só pra conversar!” Mas uma regra importante do nosso relacionamento (nunca chame o marido de doido ou o acuse de planejar assaltos em público) e o engasgo com o café me impediram de falar. Dei só um beliscão disfarçado, bem fininho nele, enquanto tentava sorrir com naturalidade. Mas aí, para meu desespero, o Rubinho me aceita a oferta. Um aperto de mãos e pronto: estamos oficialmente e irremediavelmente endividados.
No carro, voltando pra casa, fiquei um tempão em silêncio, ainda em estado de choque. Aí criei coragem e perguntei: “E então, qual é o plano?” E ele me respondeu com uma frase que eu ouviria muitas vezes nos dois meses seguintes: “Calma, está tudo sob controle.”
Eis um resumo do que se passou no período de contagem regressiva que se seguiu, no qual adquiri uma gastrite nervosa, um estranho tique de piscar sem parar o olho direito sempre que ouvia a palavra dinheiro, e calos nos joelhos de tanto orar por uma solução milagrosa.
Faltando um mês e vinte dias: tentamos um financiamento no banco. Leandro fala: “Calma! Tudo sob controle!”
Faltando um mês e dez dias: os juros do financiamento são muito altos. Não vai dar. Pedimos um empréstimo pro meu sogro. Começo a pensar mais seriamente na história da venda do rim. Será que a gente acha comprador na internet?
Faltando um mês: Meu sogro empresta uma parte. Maravilha! Mas ainda falta muito. “E agora amor? O tempo ta passando!” “Calma! Já te falei. Sob controle.”
Faltando vinte dias: Peço empréstimo pro meu pai. Ele me chama de “cabeça leve” de novo. Faz um discurso sobre estratégia em finanças. Faz um discurso sobre a atual política agropecuária, social e fundiária. Faz um discurso sobre... não sei. (Nessa hora eu já não tava prestando atenção. Tava pensando em esganar o Leandro.) No final, não empresta nada. Chego em casa e conto pro Leandro. Ele: “Calma. Tá tud...” Pulo no pescoço dele: “EU VOU TE MATAR!” Mas não mato.
Faltando dez dias: Peço empréstimo pra Raquel. Há esperança.

Faltando nove dias: Raquel acabou de comprar um terreno. Não tem dinheiro. A ideia do assalto a banco começa a parecer atraente.
Faltando uma semana: Tentamos financiamento em outro banco. Aparece um anjo em nossas vidas que aceita usarmos sua casa como garantia. Existe isso? Raríssimo, mas existe. É a solução milagrosa que eu estava pedindo! Deus é bom! O financiamento dá certo. Abraço e beijo o Leandro, arrependida da tentativa de esganação.
Faltando um dia: O dinheiro está na conta do Rubinho! Leandro alfineta: “Eu te falei que tava sob controle.” Mas confessa que também passou apurado.
É a glória! Temos nossa terrinha! É um pedacinho pequeno, mas tem tudo que eu queria: água corrente, área de reserva, e não é longe das casas dos nossos amigos rurais. E a parcela do financiamento coube no orçamento (apertado, mas coube) por causa da volta do Leandro pro escritório, que a princípio eu não queria. E agora? Agora toca a resolver problema: é instalação de eletricidade pra arrumar, é cerca pra fazer, é capim pra plantar, é cisterna pra furar... É muita coisa! Espero que vocês me acompanhem nessa empreitada.  E não se preocupem, porque afinal de contas, está tudo sob controle!




segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As alquimistas

Trouxemos do curral o leite recém ordenhado, quentinho e espumoso, em dois baldes grandes. Sônia estendeu um pano de prato limpo sobre o tacho. Inclinei um dos balde e o líquido branco, branquíssimo, escorreu borbulhante, coando-se pelo pano. Para cada cinco partes de leite, uma de açúcar. Sônia trouxe uma sacola grande a tiracolo, e dela vai tirando vários apetrechos: a colher de pau muito antiga, de cabo comprido, o potinho com bicarbonato de sódio, os potes grandes de vidro. Na sacola, bordada em pontos singelos, a sábia frase: “A coruja não fica de mal com o toco, porque ela não dorme no chão” ao lado de uma corujinha de retalhos de pano. Juntas, carregamos o tacho até o fogo. Mexo o leite com a colher bem reta, bem vertical, desenhando o símbolo do infinito no fundo da panela. Tem que ser assim pra não dispersar muito o calor, ela explica. Ciência de doceira experiente, mas com jeito de simpatia antiga de avó. O vapor sobe do leite quente e enrubesce nossos rostos. A fervura demora a acontecer, então conversamos, contamos causos, damos risadas, sem nos importarmos com o calor. Sônia, ao lado do fogo, apoiada num longo bastão de bambu, não tira os olhos do tacho. Uma entorse no joelho trouxe a necessidade da bengala, que ela usa com elegância de grande dama e que a deixa com ares de sacerdotisa. Subitamente, o leite ferve e a espuma sobe ferozmente, ameaçando transbordar. Sônia acha graça do meu susto. Agora a colher tem que subir e descer, horizontal, afundando no líquido furioso e diminuindo sua temperatura, controlando a tempestade. O leite ferve, ferve e ferve mais. E de repente muda de cor. Troca de cheiro. Transforma-se em substância pastosa e brilhante. Testamos o ponto colocando um pouquinho num copo de água fria. Somos cientistas experimentando um novo elemento. Somos alquimistas a ponto de provar a pedra filosofal. Depois de encher os potes de vidro com a milagrosa matéria, meus braços estão cansados, as pernas doloridas e o rosto suado, mas nada disso importa porque agora vem a melhor parte: raspar o tacho!
Acho inadmissível pensar em morar na roça e não saber nem sequer fazer um doce. Minha querida vizinha, que é doceira renomada na região, aceitou alegremente a missão de me ensinar. Por enquanto aprendi só o doce de leite e as maravilhosas amoras em calda (por cima de uma bola de sorvete de creme, são uma indecência, de tão boas). Teremos mais aulas, se Deus quiser e, além das receitas, espero que Sônia também me transmita um pouco da sua serenidade, da sua aura alegre e pacífica. Assim, mesmo com as encrencas e obstáculos que temos enfrentado, uma coisa é certa: dias mais doces virão.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Orgulho, preconceito e couve-manteiga

_ Mas por que, Gi? Você é ótima profissional, tão competente... Por que você não quer abrir consultório?
Quem pergunta, indignada, é minha querida amiga Pri, que fui visitar em sua casa nova em Igarapava. Pri e eu fizemos faculdade juntas, passamos juntas pelo inferno do internato, fizemos residência de GO juntas (só um pouquinho pior que o inferno do internato), rindo uma da outra, ajudando, apoiando e defendendo uma à outra. Éramos inseparáveis. Mas depois de terminada a residência, nossos caminhos foram ficando distintos.
Pri foi pra uma cidade menor. Casou. Teve um filhinho lindo. Abriu um consultório que está sempre cheio. Além do consultório, trabalha em mais uns três empregos. Fez uma super reforma na casa nova que comprou, com direito a piscina, banheira de hidromassagem, área de lazer com churrasqueira e um closet que me deixou de queixo caído. É tão querida pelas pacientes que, quando parou de atender na Santa Casa, teve até manifestação, com faixa pendurada na fachada do prédio e tudo, pedindo pra ela voltar.
Eu até comecei um caminho parecido. Casei. Fui pra uma cidade pequena. Abri consultório e arrumei mais três empregos. Trabalhava de dez a quatorze horas por dia. Tinha agenda cheia no consultório. Era muito elogiada pelas pacientes. Tudo ia bem. Mas então por que eu não estava feliz e satisfeita? Por que vivia estressada e triste? Depois de um ano, surgiu uma proposta de trabalho na Universidade de Uberaba. O salário era pouco menos da metade do que eu ganhava. Pensei, conversei muito com o Leandro e decidi. Fechei o consultório, pedi demissão do emprego na prefeitura e voltei. Depois comecei a trabalhar também em unidades básicas de saúde, atendendo pelo SUS, mas não voltei a abrir consultório. Por quê? Porque amo minhas pacientes do SUS. Adorava as mulheres simples de Delta. Bóias-frias, faxineiras, garis, motoristas, donas de casa, que colocavam suas melhores roupas pra ir à consulta. Adorava ganhar pão de queijo e frango caipira como agradecimento, das pacientes de Sacramento. Também porque o consultório aqui em Uberaba seria um investimento a longo prazo. Os gastos seriam imensos pra montar, e só depois de alguns anos é que começa o retorno, que também não é muito. (Sabe quanto o plano de saúde paga ao médico por uma consulta? Se não, procure saber). Outro porém: quem tem consultório de obstetrícia tem que estar preparado pra atender telefonemas tarde da noite e correr pro hospital a qualquer momento, de madrugada ou nos fins de semana, mesmo que se tenha que largar o marido sozinho num restaurante, no meio de um jantar (como eu já fiz algumas vezes. Coitado do Leandro!). Ou seja: a vida pessoal fica em segundo plano. Tentei explicar isso pra Pri, e rebati a pergunta dela com outra:
_Por que ter consultório, Pri? Por que você acha isso importante?
_Ora, porque é muito gratificante! Pensa bem: a paciente vai lá e paga uma consulta porque ela quer consultar você. Ela poderia ter escolhido outro profissional, mas ela te escolhe, porque confia em você. Eu tenho muito orgulho de ver minha agenda cheia, mesmo com outros médicos bons na cidade.
 Sempre me ensinaram a ser humilde, a fugir da vaidade. Acho horroroso a pessoa se achar o máximo e menosprezar os outros. Mas ter orgulho de alguma coisa boa, do que a gente faz bem-feito, é muito saudável e até necessário. A Pri é uma profissional excelente mesmo, e tem mais é que se orgulhar disso. A agenda cheia é uma espécie de termômetro do quanto ela é querida e requisitada.
Fiquei pensando nesse negócio de orgulho... Acho que se a gente listar as coisas de que tem mais orgulho, dá pra ter uma ideia de quem a gente é de verdade. No meu caso, percebi que as coisas de que mais me orgulho não têm a ver com minha vida profissional. Olha só:
Tenho orgulho do meu trabalho maluco de pintora de paredes, em parceria com a maluca da Marizote. Por causa dessa maluquice, a Mel e o Miguelito têm os quartos de criança mais fofos que eu conheço.
Tenho orgulho de ter tido a pouca vergonha de voltar pras aulas de piano, depois de velha. Me sinto o máximo andando por aí com um monte de partituras debaixo do braço, e nem me importo de levar umas broncas do professor de vez em quando. É muito engraçado, porque o meu professor tem pouco mais que a metade da minha idade, e as espinhas e o aparelho nos dentes o fazem parecer ainda mais novo, mas é exigente como ele só: “Que andamento é esse, sua doida? Bethoven deve estar se revirando no túmulo!” E: “Esse mi é bemol! Pelo amor de Deus!” E slapt, um tapa na minha mão. E muito bravo: “Faça o favor de cortar essas unhas! Elas estão escorregando nas teclas. Você acha que tem jeito de andar de skate de salto alto?” Mas a que mais me assustou foi: “Presta atenção na cifra e pára de olhar nota por nota! Mas é uma filha da pauta, mesmo!”
Tenho orgulho de ter diminuído drasticamente a produção de lixo aqui de casa, levando tudo que é  lixo seco pra reciclagem, mesmo que meu carro às vezes fique entulhado de caixas e sacolas, e fazendo adubo orgânico com os restos da cozinha. Tenho mais orgulho ainda de ter contagiado um pouco de gente com o meu radicalismo ambiental: é muito legal ver a minha sogra separando o lixo direitinho e perguntando: “Isso aqui é descartável?” (Ela confunde descartável e reciclável!) Ou então ver alguém gritando no meio da cavalgada: “Você jogou latinha no chão? Espera aí que vou contar pra Giselle.” E o acusado se desculpar correndo: “Não! Pode deixar que eu já vou catar!” Ou, durante um churrasco na beira do rio, a Regina pedir: “Gente, não joga papel no chão, não! A Giselle é seletiva! Olha aqui a sacola de lixo e a de recicláveis que ela organizou!” O que será que é ser seletiva? Não importa! O importante é não emporcalhar a natureza.
Tenho orgulho de saber que Kandinsky não é nome de perfume, Caravaggio não é modelo de carro, Botticelli não é marca de sapato, Ticiano não é o estilista do momento, Vermeer não é um aplicativo de iphone , Donatello não é só uma tartaruga ninja e Degas não é nome de boteco. 

Tenho orgulho do meu mini-clube do livro: o pessoal do ambulatório, de tanto me ver com livro pra lá e pra cá, começou a me pedir livro emprestado. Adoro ouvir a Natália, da recepção, reclamando: "Doutora, estou sem livro essa semana! Lembra de trazer um pra mim amanhã?" E o Keli, vigilante, que nessa brincadeira já leu desde novela policial até o clássico O sol é para todos, perguntar qual vai ser o próximo, porque ele já está terminando as Crônicas de Nárnia.
Tenho orgulho do meu casamento feliz. Orgulho de estar superando um monte de medos e preconceitos pra embarcar numa mudança de vida.
Mas se tem uma coisa que tem me dado muito orgulho mesmo, essa coisa são as couves. As couves, os brócolis, as acelgas. E as rúculas. Não podemos esquecer as rúculas! Calma, vou explicar. Já contei que quando vim à casinha verde pela primeira vez, encontrei um cercado meio tosco de lascas de aroeira centenárias, encimado por uma tela de arame toda torta sob o peso de um selvagem e ressecado pé de chuchu. Dentro do cercado, uma selva. Um monte de mato simplesmente impenetrável. Sério, se eu encontrasse lá dentro uma onça pintada ou o elo perdido, eu não ia achar estranho. Esse cercado era a horta.
Medi o perímetro do cercado, pra poder comprar uma tela nova. O tio João era o arquiteto-engenheiro-mestre-de-obras de plantão. Falei pra ele: “Tio, são doze metros de comprimento e cinco de largura.” Ele coçou a cabeça e falou, com o cigarro equilibrado no canto da boca: “Então... você pode comprar uns cinquenta metros.” “Mas... olha só: são doze mais cinco. Dezessete. Vezes dois: trinta e quatro. Não é isso?” Tio João coçou o queixo. O cigarro apagado milagrosamente equilibrado na boca: “Não, fia. Olha, compra quarenta e cinco.” Não lembro se eu tava de TPM nesse dia, mas pode ser que sim. “Tio João, pensa comigo: doze metros, mais cinco, mais doze, mais cinco: trinta e quatro!” Ele franze a testa. Coça o nariz. Pega um graveto, fica de cócoras e começa a rabiscar uma continha no chão. Jogo as mãos e a trena pro alto, em sinal de derrota. Acabei concordando em comprar quarenta metros de tela.
Todo mundo ajudou. O Rubinho capinou. Ele e o Luis Henrique formaram os canteiros. O Leandro, eu, a Marisa, e até as pequenas Ana Júlia e Ana Luíza plantamos as mudas. Marquinho, Neto e Jean ajudaram a esticar a tela nova. Luciene e Laila ajudam a regar todos os dias. Temos alecrim, coentro, manjericão italiano, salsinha e cebolinha, pimentas variadas, mostarda, almeirão, cenouras, tomate cereja, jiló e uma moita gigante de hortelã que o Leandro quer porque quer podar e eu não deixo porque acho linda e cheirosa demais. Pra adubar, usamos só esterco e compostagem. Nada de venenos ou agrotóxicos. Há alguns dias apareceu uma praga de pulgões nas couves e as lindas folhas de repente ficaram roídas e enroladas. O Leandro quase sucumbiu à tentação de usar um “defensivo”. Era isso ou arrancar as couves antes que a praga se espalhasse. Saí louca pesquisando uma alternativa na internet. E eis que surge a salvação: uma mistura de álcool, cascas de alho e cebola, água e sabão. E muita paciência pra esfregar folha por folha. Valeu a pena. As couves sobreviveram e estão lindíssimas. É ou não é de estourar de tanto orgulho?
Pintando o quarto de fundo do mar do Miguel

A horta depois da primeira capinada

Essa tela embolada parecia impossível de tirar


Começando o plantio


O resultado

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A guinada

Assim que a casinha verde ficou em condições de uso, depois da reforma by Uncle John, que incluía um encanamento com tantas emendas que mais parecia uma colcha de retalhos e portões que faziam questão de não ter nenhum ângulo reto, começamos a mobiliá-la. Fomos levando um sofá velho que estava lá nas baias, uma geladeira velha que uma das tias doou, um fogãozinho industrial de duas bocas que era da minha mãe... O Leandro instalou umas prateleiras. Dei uma limpeza num velho carretel gigante, destes de cabos elétricos, e ele virou uma mesa. Como não tinha muito espaço, instalamos uns suportes pra guardar selas no nosso quarto mesmo. Ficou bem prático, porque podíamos passar as selas pela janela, pra selar os cavalos ali mesmo, mas o quarto ficou com um cheirinho de suor de cavalo que vou te contar!
A ideia era que fosse um lugar de lazer. Um lugar pra gente relaxar nos fins de semana. Mas foi mais ou menos nessa época que o Leandro parou de trabalhar com a loja e começou a fazer os cursos de doma. Ele tinha comprado uma égua Quarto de Milha alazã, muito linda, mas muito brava. Lá nas baias, por duas vezes ela arrebentou a cerca no peito e fugiu. Demos a ela o nome de Malagueta, sob os protestos do Luiz Henrique, que explicou ser muito errado a gente dar nome com conotação de ferocidade aos animais, porque aí “o caboclo quando vai montar, já vai meio ressabiado, e o bicho percebe e fica mais atentado ainda.” Mas o Leandro tinha gostado muito do nome e ficou Malagueta mesmo. Ele começou então a trabalhar com a doma da Malagueta, primeiro lá nas baias do Fabiano, e depois na casinha verde. Passava o dia todo lá, e além do que já sabia dos cursos, foi aprendendo mais com o Luiz Henrique, que é domador antigo, lá da região. Luiz Henrique sempre estava com um cavalo pra domar, pra acertar rédeas, e o Leandro ia ajudando. Assim, foi aprendendo a aliar a sabedoria antiga, os truques e manhas que os anos de experiência trazem, às técnicas e sutilezas da doma racional, ou doma gentil, como agora se fala. Acabou que também ensinou muita coisa pro Luiz Henrique.
O tempo foi passando e a Malagueta foi ficando tão mansinha, tão amiga, que parecia uma cachorrinha. De tão mansa, chegava a irritar. Vinha esfregando a cabeça nos braços, no rosto da gente, pedindo cafuné. Atendia pelo nome quando o Leandro ia chamá-la no pasto, e vinha trotando ao lado dele, sem precisar de cabresto. Foi ficando também muito boa de rédeas, “leve de boca”, como o pessoal de lá diz. Em pouco tempo apareceu uma proposta de compra e foi com muita tristeza que vi a doce Malagueta ir embora.
Mas o pessoal começou a comentar sobre o trabalho do Leandro e logo um amigo trouxe uma nova missão pra ele: o Terremoto (mais um nome pra entristecer o Luiz Henrique!). O Terremoto era um marchador lindo, que nosso amigo Alfredo comprou, mas que logo percebeu que ia dar trabalho. O bicho já tinha mandado uns peões pro chão e era tão nervoso que só de chegar perto ele começava a bufar e escarvar a terra, como se fosse um touro bravo (daí o nome!). Com muita paciência, o Leandro foi trabalhando com o Terremoto, ganhando a confiança dele... Hoje esse cavalo continua um bicho “esquentado”, que exige certa atenção, mas o Alfredo vai pra cavalgadas, todo orgulhoso, com ele. E apresenta o Leandro pros amigos dizendo: “Esse é que é o psicólogo dos cavalos, que eu te falei.”
Foi aí que o Leandro começou a pensar no trabalho com os cavalos como profissão.  Mas, pra trabalhar, precisava de uma estrutura melhor: redondel, pista, baias... E como fazer tudo isso em um lugar que não era nosso? E ainda por cima tão longe da nossa casa? Era um dilema que não conseguíamos resolver. Mas o pior de tudo é que tínhamos acabado de investir todas as economias e mais um monte de dinheiro emprestado na loja, que nesse momento ainda não dava retorno algum, e que, depois da saída do Leandro, virou a orquestra de um homem só nas mãos do Marquinho, que não quis desistir do negócio de jeito nenhum (nas palavras dele, o projeto da loja era um filho pra ele) e passou a ser gerente, vendedor, planejador, empacotador, entregador, tudo ao mesmo tempo.
De qualquer forma, a casinha verde já tinha se tornado o local de trabalho do Leandro e, como ele passava muito tempo lá, eu acabava indo também, sempre que podia.  Nos fins de semana sempre estávamos lá mesmo, mas comecei a ir também durante a semana e dormíamos lá muitas vezes. De manhã, eu acordava um pouco mais cedo e pegava a estrada pra vir trabalhar. Ir dormir ouvindo apenas os grilos, os sapos na represa e o vento nos eucaliptos, acordar com o canto dos galos, jantar arroz com ovo recém colhido do ninho, alface e rúcula fresquinhas da horta, de repente virou uma deliciosa rotina. Eu me pegava triste sempre que tinha que voltar pra cidade. Pegar a estrada pra ir pra roça começou a ter um sabor de voltar pra casa. Minha família já começava a ficar meio ressabiada com isso, porque eu falava muito, e com muito entusiasmo, das coisas da roça, do novo trabalho do Leandro, e fui ficando com fama de maluquinha. Meio que brincando, minhas primas pediam pra ver minha mão, pra ver se eu estava com calos de tanto capinar, se tinha terra embaixo das unhas. Minha mãe falava que eu ia acabar ficando igual a uma velha conhecida dela, que mudou pra roça e só andava suja, e era até uma mulher estudada, coitadinha...
Mais ou menos nessa época, o Franco, primo do Leandro, personal trainer e um carinha muito descolado, baladeiro e popular, mas que ao mesmo tempo desde menino sempre gostou do campo, namorava a Regina, que é nutricionista (estudada, como diz minha mãe), mas que viveu a infância na roça. Os dois conversaram, pensaram e tomaram uma decisão, aos olhos de muitos, insana: resolveram se mudar para o sítio do pai do Franco. E estavam muito felizes e satisfeitos. Tiveram um monte de dificuldades no início: esquece de comprar pão, pra ver! E até hoje eles passam uns apertos: ir trabalhar de moto, por estrada de terra, em dia de chuva é de matar. Mas tudo é compensado pelo sossego, pelas alegrias dessa vida diferente.  
Bom, aí eu e o Leandro começamos a pensar, a conversar, a pesar prós e contras, e decidimos. Resolvemos dar uma guinada na vida e ir morar na roça. Não foi uma “jogada de tudo pro alto” de alguém cansado demais, estressado ou que simplesmente não tem outra opção. Não foi uma “chutada de balde”, não. Até porque eu estava bem profissionalmente, com dois empregos bons. E o Leandro também não teria muita dificuldade pra trabalhar com outra coisa, se quisesse. Simplesmente pesamos tudo e vimos que seríamos mais felizes e mais realizados assim. Também não era uma loucura tipo: “largar tudo, sem olhar pra trás”. Traçamos todo um plano de ação, até porque precisávamos de dinheiro pra comprar um pedaço de terra, construir a estrutura de moradia e trabalho. Então a melhor solução seria mesmo vender nossa casa.
No dia em que contei pros meus pais essa decisão, esperava mesmo uma certa resistência, mas a reação do meu pai foi um pouco pior do que eu esperava. Ele ficou bravíssimo e falou que eu e o Leandro éramos dois “cabeças leves”, seja lá o que isso for. E que onde já se viu vender uma casa boa pra comprar terra? Que nunca na vida dele ele viu alguém ganhar dinheiro com trabalho rural. “Mas pai, não estamos pensando exatamente em ganhar dinheiro...” Aí é que ele ficou mais nervoso: “Ah, meu Deus! Então vocês estão pensando em quê?” Em ser feliz? Em aproveitar a vida? Como, meu Deus, como explicar isso pra ele sem ele pensar em me internar no Sanatório Espírita? Se isso fosse há alguns anos, eu teria me desmantelado toda e saído da casa dele aos prantos, me sentindo um nada. Mas tem um tempo que aprendi a parar de tentar agradá-lo a qualquer preço. Quando a Marisa prestou vestibular de Medicina e ficou em 41º lugar, sendo que havia 40 vagas, e nós fizemos a maior algazarra dando os parabéns pra ela, meu pai falou: “Não sei por que vocês estão dando os parabéns, se ela não passou.” E ela: “Mas pai, sou a primeira da lista de espera. É claro que eu vou ser chamada.” Ele respondeu: “É, pode ser. Mas você não passou.” Ou seja: não tem jeito. Assim, sorri meu melhor sorriso resignado, mas resisti ao velho impulso de pedir desculpas por ser quem sou e não quem se espera que eu seja. Fui embora um pouco triste, mas muito leve. No dia seguinte a placa de “vende-se” estava na porta da minha casa.  

Meu quarto na casinha verde: a vista da janela compensa o cheirinho das selas!


domingo, 9 de setembro de 2012

É só comédia

Eu tento. Eu juro que tento escrever coisas sérias nesse blog. Não tenho culpa se as palhaçadas teimam em continuar acontecendo. Visualizem a seguinte sequência e vejam se eu não era obrigada a relatar essa comédia:
Franco e Regina voltam pra casa depois de uma visita à casinha verde. Regina em seu inseparável Raio de Luz. Franco em um Quarto de Milha chamado Lorde, que ele está amansando. Belinha saltitando atrás. Param pra abrir um colchete, pouco antes de chegar ao vau do rio Uberaba. Franco apeia, porque o colchete está amarrado com arame e porque o cavalo ainda não sabe encostar. Aberto o colchete, Regina, Raio e Belinha passam e ficam esperando do outro lado. Franco tenta refazer a amarra, segurando o arame com uma mão e o cabresto do Lorde com a outra. Depois de alguns instantes, Regina ouve o trote do Lorde se aproximando e toca pra frente no Raio. Ao chegar à beira do rio, uns duzentos metros à frente, Raio para pra beber água. Lorde para do lado. Regina, distraída olhando a paisagem, começa a conversar sobre as tarefas que eles ainda têm que realizar no sítio: “Então, Franco, lembra que assim que a gente chegar tem que buscar silo pros cavalos, antes de escurecer. Você me ajuda a tratar dos gatos? Ah, e tem que ver se os filhotes da Pretinha estão bem... Franco? Você ta me ouvindo?” Na ausência de resposta, ela resolve olhar pro lado e se depara com o Lorde bem satisfeito, bebendo água, sem cavaleiro nenhum na sela. “FRANCO!!!! Franco, cadê vocêêê???” Assustado com os berros dela, o Raio atravessa o rio em disparada. Lorde e Belinha vão atrás, aos pulos, espirrando água pra todo lado. Chegando à outra margem, ela consegue a custo controlar o cavalo e olha pra trás bem a tempo de ver o Franco descendo o barranco, a pé, furioso e coberto de lama, por entre as moitas de bambu. “Maria Regina! O que você ta fazendo aí do outro lado?” Ele grita, sem dar tempo pra ela começar a rir ou se lembrar de descontar as vezes em que pediu pra ele ajudar a pegar o Raio e ele recusou dizendo que quem perde o cavalo é que tem que ir atrás. “Passa já pra cá com esses cavalos, Maria Regina!” Esclarecendo: enquanto Franco tentava amarrar o colchete e segurar o cabresto ao mesmo tempo, Lorde resolveu que não queria esperar mais e deu um tranco no cabresto. Franco foi então lançado ao chão lindamente coberto de lama e esterco molhado. Foi arrastado por alguns metros, até resolver largar o cabresto. Levantou-se meio tonto e viu Regina, Raio, Lorde, a turma toda, já longe, galopando pelo caminho. Gritou, chamou, xingou de santo e rapadura, e por fim resolveu seguir a pé, atrás. Ao ver aquele ser enlameado e enraivecido, Regina voltou pelo rio pra buscá-lo, levando junto o Lorde. Só não abriu mão das risadas, que duraram quase todo o caminho de volta.
Mas vocês acham que acabou a palhaçada? Não! Ainda tem o caso das abelhas assassinas. No dia sete de setembro aconteceu a famosa cavalgada de Santa Rosa, da qual não pude participar devido a um problema de costela quebrada do Leandro, sobre o qual ainda não consigo contar muita coisa, porque minha raiva ainda não passou totalmente. Enfim, cá estava eu, cuidando de minha linda horta, plantando mudinhas de alface e acelga, com a ajuda da Marizote, quando ouço gritos, tropel de cavalos e risadas e penso: “É o povo chegando da cavalgada.” Antes que eu tivesse tempo de tirar as luvas e o chapelão de palha, pra ir receber o pessoal, ouço o Leandro gritando, estourando de rir: “Amor! Amor, vem cá dar uma olhada no Neto!” Levanto e vejo, por cima da cerca da horta, o Neto. Quer dizer, o corpo, as roupas eram do Neto, mas a cara... O olho direito estava fechado e do tamanho de uma laranja, sem exagero, de tão inchado. A boca... parecia que ele tinha injetado meio litro de silicone no lábio inferior! Estava todo torto, todo inchado! Nunca vi nada parecido. “Meu Deus! O que foi isso?” perguntei. E ele, articulando com dificuldade as palavras: “Abeia...” Aí chega o Franco, morrendo de rir, apeia do cavalo e abraça o Neto: “Você também ta japanese, meu filho?” Olho e vejo que a cara do Franco também está parecendo um quadro de Botero.  O olho direito é só um risquinho . Mais uma vez esclarecendo: no meio da cavalgada, a turma passa pertinho de uma colméia de abelhas Europa, na margem do rio. As abelhas vêem passar um, dois, dez cavaleiros, e vão ficando alvoroçadas. Passam vinte, trinta, o barulho aumenta, alguém grita, um cavalo relincha e as abelhinhas cada vez mais estressadas com aquela perturbação de sua paz. Em certo momento, lá pelo centésimo cavaleiro, elas resolvem que já é muito desaforo e partem para o ataque, formando uma nuvem zumbidora que circula ao redor das cabeças dos cavalos e cavaleiros que ainda estão por ali. Teve gente que saiu correndo, gente que pulou direto de cima da sela pra dentro do rio, sem se importar com o fato de que a profundidade ali é de no máximo um metro de água, e ficou boiando de bunda pra cima. Teve gente, cujo nome não posso citar, que levou tanto susto com as picadas que saiu galopando e peidando sonora e incessantemente, o que colaborou para o pânico generalizado, apesar do argumento de que os gases expelidos eram para espantar as abelhas. Bom, Neto e Franco já estavam lá na frente, a salvo do ataque, quando viram que suas respectivas amadas Fabiana e Regina ainda não tinham atravessado o rio e vinham bem devagarzinho, montadas na quase patologicamente calma Flor-de-lis e na extremamente grávida Kiara (dessa vez o Raio ficou descansando). Imediatamente os dois heróicos cavaleiros voltaram à toda para salvar as donzelas indefesas e entraram na nuvem de abelhas. O engraçado (Neto e Franco não acharam muita graça, é verdade) é que as meninas não foram atacadas. Regina levou só uma picada e Fabiana, nenhuma! Já os dois heróis... O pior é que, no meio do mato, sem um antialérgico nem um analgésico pra tomar, o único remédio à mão pra aliviar a dor das picadas era uma garrafa de pinga “Lenda do Chapadão” que o Franco tinha levado. Resultado: a dor passou, da pinga restou só a lenda, e os dois chegaram aqui um tanto quanto alterados. Segue o que consegui transcrever do diálogo filosófico que os dois travaram, largados na varanda:
Neto: Cara, minha garganta ta esquisita...
Franco: Não se preocupa não... Se precisar pode deixar que eu abro sua traquéia. Se tem uma coisa que eu sei fazer é traqueostomia. (Aqui Franco tira da bainha de couro sua reluzente faca de trinta centímetros de lâmina.)
Neto: FABIANA! Vamos embora?
Franco: Essa faca ta suja. (Limpa a lâmina na calça.) Pronto. Agora ta no jeito pra cirurgia.
Neto: Fabiana... Me leva embora, pelo amor de Deus.
Franco: Véi! Eu to japanese!
Neto: Eu não to bem não. Tô com uma sede esquisita que não passa.
Franco: Mas isso é da pinga, meu fio, é a ressaca. Não tem nada a ver com as abelhas não. Eu tô japanese, moço! Metade pêto, metade japanese! Há, há, há!
Neto: Cara, quem vai dirigir pra levar a gente embora?
Franco: Eu, uai!
Neto: Nesse estado? E se pára numa blitz?
Franco: Se o guarda me parar, cara, eu falo pra ele, eu explico: Seu guarda, eu estudei oito anos da minha vida no Colégio Tiradentes! CT... CN... CTPM! Colégio Tiradentes da Polícia Militar, véi! Eu sei dos meus direitos, dos meus defeitos, dos meus deveres... Moço, tô japanese! Olha aqui meu olhinho, não abre não! Há, há, há!
Neto: Cara, eu preciso comer alguma coisa, nem que seja feno... Fabiana, arruma uma janta pra mim? Eu tô assim por sua causa. Eu fui te salvar... E você lá de boa, no meio das abelhas...
Franco: Neto! ‘Cê ta japanese, meu fio! Nós dois japanese! Mas o meu olho já ta desinchando. É que eu bebi mais pinga. ‘Cê tem que beber mais um pouco, pro álcool diluir o veneno.
Neto: ....... (Dormiu com a testa apoiada na mesa).
Detalhe: o diálogo era constantemente interrompido pelo Leandro: “Gente, pára de me fazer rir! Não agüento mais! Minha costela ta me matando!”
 Não se preocupem. No final das contas o Franco não foi embora dirigindo. Até porque ele estava a cavalo. Mas de qualquer forma ele e a Regina dormiram na casinha verde e foram embora de manhã. Fabiana levou o Neto pra casa. Eu não dormi direito, porque o Lorde e a Kiara ficaram passeando embaixo da minha janela e fazendo barulho a noite inteira. Às cinco da manhã, a Frida começou a ganir pra eu abrir a porta pra ela ir fazer xixi lá fora. E assim termina esse emocionante feriado. Cansada de tanta palhaçada, encerro aqui este post, com a certeza de que, se o riso for realmente terapêutico, estaremos todos saudáveis pelos próximos dez anos. Inté!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Um pouco sobre Frida Kahlo, El Zorrero, a incrível poddle e o Raio-que-o-parta

Logo que começou a mexer com cavalos e construiu as baias, o Fabiano comprou o Raio, um castrado branco, grande e imponente, mas ruim de sela como poucos. Uma vez o seu João pegou o Raio emprestado e quando apeou, veio manquitolando e puxando o bicho pelo cabresto: “O trote deste ‘animali’ chega adoecer a gente...” Raio é manso e amigável como um cachorro labrador, e tem a energia de um labrador também. Não sabe andar devagar, no passo. Gosta de corridas e galopes, e é preciso ter uma mão firme nas rédeas pra conseguir mudar a opinião dele quanto ao trajeto a ser seguido.  
Nas primeiras vezes em que o Franco e a Regina foram visitar as baias, ela já se apaixonou pelo Raio. Nascida na roça e acostumada com cavalos de variadas índoles, ela não teve dificuldade de montá-lo. Na verdade, acho que o Raio é que não teve dificuldade, porque Regina não faz questão nenhuma de comandar a montaria. O que o Raio queria fazer, ela deixava, e achava graça: “Olha, gente, ele fica andando em círculos! Que cavalo doido!” “Regina, pára com isso e vem pra cá que a cavalgada já vai sair!” “Mas não sou eu, é o Raio que não quer ir...” E no meio da cavalgada, se de repente se ouvisse um tropel, podia saber que era o Raio que resolveu sair desembestado no meio do povo. O Leandro tentou explicar pra ela que, quando se está junto com muitos cavaleiros, é preciso ter mais prudência. Ela concordou. Um instante depois, ouve-se de novo o tropel e o Raio passa disparado, se desviando por um triz de uma égua velha, tirando fino de um pônei, e a Regina em cima rindo e gritando: “Prudência, Raio! Prudência!”  
Pouco tempo e muitas catiras depois, Regina ganhou o Raio de presente do Franco. Acho que esse cavalo nunca teve vida tão boa. Toma banho toda semana, com direito a xampu e condicionador. Ganhou uma sela nova, ligas de trabalho e até um upgrade no nome: agora é Raio de Luz. Aqui a gente o chamava de Raio-que-o-parta, mesmo, coitado, por causa do trote duro e da mania de derrubar o cavaleiro de vez em quando.  
Quando Regina e Franco vêm nos visitar, Franco às vezes vem montando a linda Kiara, uma dócil mangalarga marchador; às vezes a enérgica quarto de milha Predileta; e outras vezes um outro cavalo que esteja amansando. Mas Regina não abre mão do seu querido Raio. Defeito nele ela não vê nenhum. Eu não posso falar nada, porque sou do mesmo jeito com a Morena. Não ligo de ela ser esquentada e nervosinha. Perdôo as mordidas e as espanadas com o rabo (quando perde a paciência comigo ela tenta me espantar como se eu fosse um mosquito!) e não reclamo nem da crina espetada, que condicionador nenhum dá jeito.  
Mas tem outro companheiro da Regina que eu sempre admirei. A Belinha. O pessoal da roça geralmente tem cães de trabalho: os caçadores natos foxhounds, ou blue heelers e border collies que ajudam na lida com o gado e são companheiros nas cavalgadas. Mas quis o destino que a Regina encontrasse na rua uma mestiça de poodle abandonada. Belinha é um bichinho alegre e brincalhão, mas muito obediente. Sua paixão e gratidão à nova dona são tão fortes que devem ter alterado seu código genético. Nunca ouvi falar de um poodle que corre por mais de três horas seguidas ao lado de um cavalo e atravessa rios a nado pra acompanhar o dono. Começamos a chamar a Belinha de border poodle ou brown heeler: a pobrezinha um dia já foi branca, ou champagne, como prefere a Regina, mas hoje vive marrom de terra e lama e sempre coberta de carrapichos. Mas como limpeza não é sinônimo de felicidade, Belinha é uma cachorra realizada. Foi observando a lealdade e a alegria desse bichinho que me veio a vontade e a decisão de ter um cachorro na roça.
A idéia inicial foi do Leandro. Eu fiquei meio com o pé atrás, no começo, porque já temos o Hunter e a May, e arrumar mais um cachorro... Mas a May teve esse problema do câncer de pele e está proibida de se expor ao sol. E o Hunter quando anda três quarteirões começa com uma falta de ar de dar medo... ronca como se fosse um porcão gordo. O Leandro insistiu, pesquisou as características das raças, e resolveu que queria um border collie. Quando, recentemente, o Franco comprou um filhote de border de pelagem totalmente atípica, todo branco, só com as orelhas pretas e uma máscara preta em volta dos olhos, e o batizou, obviamente, de El Zorrero, minha resistência foi ao chão e concordei em irmos atrás de um filhote pra nós. Fiquei tão decepcionada quando soube que todos os irmãozinhos da ninhada do Zorrero já estavam vendidos, que arquivei a idéia do cachorro e decidi esperar mais uns meses pra pensar nisso de novo. Aí uma semana depois o Leandro me liga enquanto eu estou trabalhando no ambulatório: “Amor, tem uma ninhada de borders à venda.” “Meu bem, vamos deixar isso pra depois? Agora a gente ta tentando economizar, não ta?” “É, mas os pais desses cachorrinhos são de muito boa linhagem, depois talvez a gente não ache uma ninhada assim.” “Mas, amor... eu preferia esperar. Não queria gastar dinheiro com cachorro agora...  a gente conversa quando eu chegar em casa, pode ser?” Aí ele usou o golpe fatal: “Tá bom, não precisa decidir agora, então. Mas vamos lá comigo só pra você ver os filhotes?” “Só pra ver?” “Só pra ver.” E eu caí como uma pata: “Então tá.”
Descemos as escadas que levavam ao quintal gramado e de repente me vi cercada por oito bolotas de pura energia coberta de pêlo fofo e lustroso, que pulavam, lambiam e mordiam a barra da minha calça sem parar. Olhei pro Leandro desamparada, e ele, com aquele irritante olharzinho brilhante de triunfo, cruzou os braços e perguntou: “E então, qual você vai escolher?”
Mas até escolher o malvado já tinha escolhido. E sabia antecipadamente que eu ia escolher o mesmo, por motivos diferentes dos dele. Ele queria uma fêmea preta e branca ou tricolor, com pelagem bem típica e pêlo longo. Eu vi a menorzinha da ninhada, a última a nascer, cheia de energia, mas um pouco mais tímida que os irmãos, e com os olhos mais doces do mundo. Peguei a bebezinha no colo e ela aninhou a cabeça no meu pescoço. “Ái, meu Deus... Será que estamos fazendo a coisa certa? Será que ela vai se adaptar com a gente, com os nossos cachorros?” A dona dos cãezinhos, uma loira alta, de jeans e botas de montaria, sorriu, segura: “Claro que sim. Vocês vão ser muito felizes com ela. Só precisam pensar num nome...” “Frida.” Falei, enquanto ganhava uma lambida no nariz, pensando na mexicana tão frágil e tão forte, que pintava uma realidade trágica e colorida, parecida com sonho. “Frida Kahlo. Sempre achei esse nome tão sonoro...”  
Frida me conquistou no momento em que pus os olhos nela, mas parece que a cada dia me apaixono mais por essa coisinha fofa. Não sei se ela vai fazer juz à fama da inteligência da raça. Tenho sérias dúvidas quando vejo ela brigar com o próprio reflexo no espelho, dar cabeçadas no boxe de vidro do banheiro e chorar tentando passar pela cerca de tela, quando só teria que dar a volta pra achar o portão aberto. Algumas coisas ela já aprendeu. Quando o Leandro acorda cedinho pra ir tirar leite, ela o segue satisfeita até o curral. Mas é só se sentir ameaçada por alguma vaca mais brava que volta pra me chamar e me acorda pulando na cama com as patinhas sujas de barro. Não há mais possibilidade de eu dormir até mais tarde! Frida também já aprendeu a nos seguir nos passeios a cavalo e sabe que se ficar cansada é só chegar do lado da Morena e dar uns ganidinhos, pra ganhar meu colo e descansar um pouco na cabeça do arreio. Já sabe que não pode entrar na horta sob nenhum argumento e me espera sentadinha no portão, enquanto eu cuido dos canteiros. 

Meu pai conta de um amigo dele que sonhava em ter um caminhão pra viajar pelas estradas, e poder parar nas beiras dos rios e nadar. Então ele comprou um calção de banho porque aí ficava fácil: só faltava comprar o caminhão. Eu estou mais ou menos assim. A cachorra de apartação eu já tenho. Só falta comprar o gado pra ela apartar! Mas isso é apenas um pequeno detalhe! Por enquanto ela pode ir treinando com o meu vasto rebanho de seis bezerros e a vaca Matuta. Êita nóis!


terça-feira, 28 de agosto de 2012

It's not about the money

John Steinbeck, chamado o mais americano de todos os escritores, criou um sábio e apaixonante personagem chinês chamado Lee, que acho que foi meio que inspirado em Jesus Cristo. Dessa releitura da história de Caim e Abel, que é o romance A leste do Éden, pesquei esse fragmento (ou fui pescada por ele!) que é um pensamento de Lee, e que ficou martelando na minha cabeça essa semana:

"Pensou em Sam Hamilton. Havia batido em tantas portas. Possuía tantos projetos e planos e nenhum lhe dera qualquer dinheiro. Mas, naturalmente, ele possuía tanto, era tão rico. Não era possível dar a ele mais do que já tinha. Riquezas parecem favorecer os pobres de espírito, os pobres de interesse e alegria. Na verdade, os ricos são um pobre bando de filhos-da-mãe. Ficou pensando se isso seria verdade. Eles agiam como se o fossem certas vezes."

Às vezes sou assaltada por uma terrível falta de paciência para esperar a realização dos meus sonhos e projetos. E fico pensando que se pelo menos tivéssemos mais dinheiro... tudo seria bem mais fácil. Nossos sonhos, meus e do Leandro, não são nem tão caros nem tão complicados assim, mas de todo jeito têm um custo. Junta-se a essa falta de paciência uma revolta com o fato de que eu e ele trabalhamos muito, em atividades de alta responsabilidade, estressantes, e com remuneração que considero injusta. E pra completar, ainda vejo gente burra e incompetente e, pior de tudo, gente ruim, maldosa mesmo, recebendo ótimas oportunidades e se dando bem profissionalmente.

Mas aí penso no quanto a gente já é feliz. Se nessa fase de planejamento e incertezas já temos tantas alegrias, imagine nos tempos que virão. E, riqueza por riqueza, prefiro a riqueza da nossa união, da nossa cumplicidade, de ter um marido inteligente, que sabe entender meus olhares e decifrar meus mistérios, que é divertido, palhaço quando preciso rir, sério quando preciso de um ombro pra chorar, generoso de verdade, que ama trabalhar, que ama se divertir, que sonha, que paga o preço e assume a responsabilidade dos seus projetos, que tem uma honestidade férrea, que honra suas amizades, que honra nosso casamento. É verdade... somos tão ricos... de espírito, de interesse e alegria. E com as dificuldades temos crescido e aprendido. Os planos são mais cuidadosos, mais meticulosos, quando não se tem muito dinheiro. E a alegria da conquista será maior.

E quanto aos ricos de dinheiro apenas, esse pobre, pobre bando de filhos-da-mãe, que se consolem com o seu dinheiro e o aproveitem bem. We don't need your money!