segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Em busca da Terra Prometida

     Dá uma sensação estranha chegar em casa e ver aquela placa de "VENDE-SE" grudada na porta da frente. Uma sensação de que a casa já não é minha. E se aqui não é minha casa, então onde é minha casa? É triste esse sentimento de não ter lugar. E não é só não ter lugar, é não saber quando vou ter, onde vai ser, como vai ser o meu lugar.
     Sempre gostei de segurança. Sempre tive medo de mudanças, apesar de gostar delas. Não gosto de ficar flutuando em possibilidades. Prefiro ter os pés firmes numa certeza. Por oito anos a casa não foi nossa. Morávamos nela, mas não era nossa. Terminamos de pagar as prestações, com muito esforço, mas não era nossa. E isso me incomodava profundamente. Ficava desanimada até de colocar uma cortina, um quadro na parede. Ano passado consegui finalmente convencer o Leandro a passar a casa pro nosso nome. Foi uma tourada. Uma dificuldade até conseguir toda a documentação e o pior, uma despesa enorme com cartório, banco, etc... Mas enfim éramos os donos! Tá certo que adquirimos mais uma dívida, do financiamento, mas isso é um outro problema. O importante é que tínhamos nosso patrimônio. E agora, poucos meses depois, tascamos uma placa na porta e lá vamos nós de novo... em busca da terra prometida!

     O plano é: achar um pedaço de terra pequeno, de dois a quatro alqueires, de prefência plano, terra boa para pasto, com água disponível. Se tiver casa construída é melhor. Não pode ser muito longe da cidade, porque vou ter que vir trabalhar todos os dias, por enquanto. Também não pode ser perto demais, por causa da segurança. Queremos um lugar perto de Santa Rosa, porque lá está parte do nosso núcleo familiar. Essas são as necessidades verdadeiras, mas eu acrescentei duas outras pequenas exigências: quero um lugar com área de reserva florestal e com água corrente. Difícil? Nem me fale! Sem falar no pequeno detalhe de que não temos o dinheiro pra comprar essa tal terra! Temos que achar um proprietário que não só queira vender, mas que também aceite trocar a terra pela nossa casa...

     Bom, então começamos a procura. A primeira terra que fomos olhar foi um pedaço que pertence ao Rubinho, cunhado do Luis Henrique. É um lugar muito bonitinho, com terra muito boa, água à vontade (o rio Uberaba passa por lá, numa boa extensão) e tem uma casinha azul pequenininha, muito bucólica. Ficamos passeando, só eu e o Leandro, por aquele campo verdinho, ouvindo o vento e o barulhinho do rio. E eu pensando: “Será que é aqui? Será que vai ser aqui a minha casa?” O único problema que vi é uma estrada que corta a terra no meio. Mas fiquei super empolgada com o lugar e o Leandro também. Aí fomos procurar o Rubinho e ficamos sabendo que o preço era um pouco maior do que estávamos pensando. Foi o primeiro balde de água fria. Eu já estava até me imaginando morando na casinha azul. Já tinha feito planos pro lugar onde eu ia construir o galpão que seria o meu ateliê... Ficamos decepcionados... mas, bola pra frente, a procura continua.

     Alguns dias depois o Leandro falou com um corretor que aqui chamarei de Cido (diminutivo de Aborrecido), para preservar sua identidade, já que não tecerei muitos elogios sobre sua pessoa. Cido nos levou pra ver a chácara do Sr. Jair. O caminho foi penoso, porque apesar de não ser muito longe, fomos espremidos no fusca: Leandro, Cido, Franco, Marquinho e eu, e Cido discursou ininterruptamente sobre política, os males da sociedade moderna e seus inúmeros problemas de saúde. Mas valeu a pena. A chácara é num lugar muito bom, perto de Santa Rosa, com terra muito boa, nascente de água, árvores frutíferas produtivas aos montes: mangueiras, goiabeiras, limoeiros e até uma parreira carregada de uvas. Tem pastos formados, curral, uma casa (bem simplesinha,  precisando de reforma), capineira, cercas boas. Gostamos muito, apesar de termos ficado com o raciocínio meio prejudicado pelo falatório do Cido. Mas seu Jair quer uma quantia um pouco alta, e não quer a casa no negócio. E eu não me apaixonei pelo lugar, mesmo com todos os pontos positivos, ficou uma sensação de que ainda íamos ver coisas melhores. Voltamos tristinhos, espremidos no Fusca novamente, e o Cido lá, firme no discurso. Sobre a terra e o negócio, que é bom, ele não disse uma palavra sequer, mas desceu a lenha no prefeito e nos vereadores, discorreu longamente sobre seus tempos de juventude, e ia começando uma ladainha sobre os motivos pelos quais o Brasil não vai pra frente, quando eu vi um enorme carrapato passeando feliz pelo pescoço dele. Esse carrapatões de cavalo, que o povo da roça chama de “ridulero”, são um inferno. A picada deles provoca uma coceira horrorosa, que continua por muitos dias. Fiz então menção de tirar o terrível artrópode do pescoço do nosso corretor, livrando-o dessa agonia, mas o Franco viu o que eu ia fazer e segurou meu braço. “Faz isso não...” ele disse “Deixa aí. Tomara que vá pra um lugar bem quente do corpo humano.” Antes que eu pudesse argumentar, o carrapato deslizou feliz pra dentro da gola da camisa do Cido, em busca do tal lugar quente. No resto do caminho, o Leandro, que estava dirigindo, ficava me olhando interrogadoramente pelo retrovisor, sem entender porque de repente eu e o Franco trocamos a cara de boi indo pro matadouro pela de criança que roubou brigadeiro em aniversário, antes da hora dos parabéns.

     Poucos dias depois, fomos ver a chácara do Seu Mário, um conhecido do meu sogro. Felizmente, dessa vez fomos por conta própria, sem corretor. É um lugarzinho pequeno, com um quintal que é um caos completo: um ajuntamento sem nenhum critério de pés de mandioca, de hortaliças, de pêssego, arbustos de flores, montes de esterco secando, capim... Um típico quintal de roça, bem produtivo! A casa é ótima, com laje e chão de cerâmica. A cozinha é maior que a minha, que já acho gigantesca. A esposa do Seu Mário, já idosa, pediu desculpas pela bagunça da casa, dizendo que não está dando conta de manter tudo arrumado, por causa dos problemas da idade. Isso porque o lugar estava limpíssimo, não tinha nada fora de lugar e nem uma poeirinha no chão. “Mas vindo morá aqui uma muié nova, asseada, aí dá conta de ponhá tudo limpinho.” Ela disse, me avaliando com o olhar, com certeza pensando: Essa grandona aí deve ser boa pra encerar um chão. Socorro! Nunca consegui manter casa organizada, nem quando eu morava no apartamentinho que minha mãe chamava de Kinder Ovo... Mas isso não quer dizer que eu não seja “asseada”, né? Era só o que me faltava! Mas de qualquer forma não simpatizei muito com essa chácara. Achei pequena, mas não foi só isso. Senti que não era ali o lugar certo. Intuição feminina, sexto sentido, ou frescura pura mesmo, não sei. Sei que não quero comprar esse lugar e pronto. Até porque, morando lá, sempre que eu visse a casa mal arrumada ia imaginar aquela senhorinha me olhando com cara de reprovação: “Tsc, tsc... se fosse uma muié asseada...”

     Na semana seguinte, surge uma outra opção. Uma terrinha longe de Santa Rosa, mas não custa dar uma olhada, né? Lá fomos nós. Nos embrenhamos por uma estradinha de terra, em meio a um canavial sem fim. Depois de muitos solavancos, a estrada saiu do deserto verde da cana e entrou num cenário de conto de fadas. Colinas verdejantes se estendiam até um horizonte de florestas. O pasto não era aquela imensidão de grama apenas, mas sim todo pontilhado de lindas árvores. O chão, um lajeado úmido, cheio de minas d’água. Lá no fundo, uma casinha pequena, ainda sem reboco, mas já cheia de charme. Comecei a ouvir barulho de água corrente e fui seguindo o som até encontrar, a uns vinte metros dos fundos da casa, o riozinho mais lindo do mundo. Árvores se debruçavam sobre as águas claras, inclinando-se quase na horizontal. Já me imaginei ali, sentada num daqueles troncos antigos, cobertos de musgos e líquens, lendo um livro ou simplesmente curtindo aquela delícia de lugar. “É aqui!” falei pro Leandro, “Eu quero morar nesse lugar de qualquer jeito! A gente tem que comprar. A gente vai comprar, não vai?” Ele, sempre ponderado: “Calma amor, temos que pensar direitinho, e fala baixo porque o cara falou que aqui tem umas abelhas.” Antes de ele terminar a frase senti alguma coisa se enroscando no meu cabelo. “Amor, acho que tem uma abelha na minha cabeça...” Ele olhou pra mim e falou: “Tem umas abelhas na sua blusa, também.” Olhei e vi que não eram “umas abelhas”, mas sim dezenas de abelhas andando pela minha roupa, pousando nos meus braços, enquanto outras tantas chegavam, se enrolavam no meu cabelo e tentavam entrar nas minhas orelhas. Vendo que faltava bem pouco pra eu passar da preocupação medrosa ao pânico insano, o Leandro tentou me acalmar: “Fica quieta, não esmaga elas, senão vai atrair outras. Não precisa medo, porque elas não picam.” Imediatamente senti uma picada nas costas. E outra no pescoço. E outra... E mais outra... Quem disse que essas porcarias não picam? Tá certo que é uma picada que não dói muito. Nem se compara com uma picada de abelha-europa, mas é uma picada sim, dói sim, e aí não deu outra: pânico insano. Saí correndo, abanando os braços e gritando desesperada, o que com certeza atraiu toda a colméia. E como as abelhas não tem muito senso de justiça, atacaram também o pobre do Leandro, que teve que sair correndo atrás de mim. Meia hora depois, já na segurança do carro, enquanto tirava as últimas zumbidoras do meu cabelo, suspirei: “É, temos que pensar direitinho antes de fazer uma oferta, né? Pode ser que a gente ache um lugar mais perto de Santa Rosa...” Mais perto de Santa Rosa e mais longe dos insetos assassinos!

     Bom, a verdade é que toda essa andança (como diz minha mãe) já estava me cansando e então quando o Leandro veio com mais uma opção de chácara pra gente olhar, nem me animei. Ele foi primeiro com o Cido, e voltou falando maravilhas do lugar, mas disse que o preço era bem mais alto do que o que estava nos nossos planos. Falei “Então não tem nem porque eu ir lá. É caro demais, não vamos comprar e pronto”. Mas ele insistiu. Queria que eu fosse, pelo menos pra ver as instalações e fazer planos pra quando tivermos nosso canto, mesmo não sendo lá. Então fui com ele. O lugar é simplesmente um sonho. Muito, mas muito diferente dos lugares que a gente tinha visto antes. A casa não é muito grande, mas tem varanda ampla com fogão a lenha. Num chapéu de palha pendurado ao lado da porta, um casal de canarinhos fez seu ninho. Tudo é simples, sem frescuras: rústico, mas de muito bom gosto e de boa qualidade. Tudo bem planejado, desde os piquetes bem formados, com boas cercas, as baias (quatro baias grandes, com instalação de luz e água), o embarcadouro e o curral (praticamente a estrutura completa que o Leandro precisa pra trabalhar com os cavalos), até a horta com passarelas de cimento entre os canteiros, e a área de lazer com quiosque e piscina. É muito mais do que eu esperava encontrar. Fiquei deslumbrada, e pisando naquela terra, sentindo os pingos de uma chuvinha leve de verão no meu rosto, entendi que preciso parar de me conformar com coisas mais ou menos. Sempre fui ensinada a não sonhar muito alto, a não querer o que é muito bom, a me resignar com o trabalho duro, sem reclamar e sem pedir recompensas. Lembro da Raquel, quando pequena, perguntar pro meu pai: “Você é feliz?” E ele:”Não”. Ela perguntou de novo: ”E você não acha que tem jeito de ser feliz?” A resposta: “Nessa vida, não.” Pois eu penso que sim! Eu sei que sim. Não quero vida de mordomias, de moleza. Quero uma vida de muito trabalho, de grandes esforços, mas também de grandes alegrias. Debaixo daquela chuva, entendi que meu Deus é grande. Se Ele quiser, pode me dar aquele lindo lugar. Fui embora com o coração em paz, aninhado nos braços de Deus. Sei que pode demorar, mas vamos chegar à nossa terra prometida. Terra que mana leite e mel. De preferência, sem abelhas!