segunda-feira, 26 de março de 2012

De volta ao caminho das pedras: o Haras Fabiano

Nos últimos posts fiquei filosofando demais e me perdi um pouco do “caminho das pedras”, como diria o Luiz Claudio. Então hoje vou retomar o caminho e tentar contar um pouco mais dessa jornada rumo à roça.
Eu já contei sobre as baias que o Fabiano fez e que viraram nossa mania. Eu achava o lugar tão legal que não me dava conta de que as pessoas urbanas e normais poderiam não gostar de lá. O Neto, de gozação, chamava essas baias de “Haras Fabiano”, e o apelido pegou rapidinho. Mas de haras não tinha nada. Era uma construção pequena, retangular. Quatro baias enfileiradas, de alvenaria pintada de verde, com portinhas de madeira. Como já contei, uma das baias do meio virou cozinha. Tinha também um quartinho onde guardávamos as tralhas de selaria, rações e material de limpeza. Numa das extremidades da construção ficava um piquete, com cerca branquinha, de madeira. Tudo simples, mas muito bem feito e bonitinho. Alguns cavalos ficavam nas baias, outros no piquete, e outros soltos no pasto. Sempre tinha também uma galinha com pintinhos ciscando ou um simpático porquinho fuçando por ali.
Um dia chamei a Raquel pra conhecer o nosso “haras”. Expliquei direitinho como chegar: “É só pegar a rodovia, ir direto até uma entrada de estrada de terra onde tem uma caçamba. Aí você vira à direita. Quando você avistar uma árvore com dois ninhos de passarinho, vira à esquerda.” Ela quase me bateu: “Mas que referências ridículas são essas? E se a caçamba não estiver lá? E árvore com dois ninhos de passarinho? Pelo amor de Deus!” Tive que combinar de ir junto com ela. Quando entramos nas terras do seu João, onde ficavam as baias, a Raquel já foi ficando preocupada, porque não conseguia desviar seu lindo carro importado dos montões de cocô de vaca que estavam por toda parte. Mais à frente, quando começou a ter que desviar das próprias vacas, que se deitavam tranqüilas no meio da estrada, aí ela entrou em desespero. Chegando às baias, desci do carro, afastei os arames da cerca e me espremi pelo meio deles pra entrar, como sempre fazíamos. A Raquel ficou me olhando meio boquiaberta e perguntou: “Você tá brincando, né? A gente tem que passar pela cerca? Não tem um portão, uma porteira, que seja?” Não tinha. E nunca pensamos que haveria necessidade disso. Achávamos a coisa mais normal do mundo passar pela cerca. Muito relutante, a Raquel passou também e fui apresentar os cavalos pra ela. “Esse é o Raio. Essa é a Estrelinha. A Florença. Essa linda aqui é a Morena.” Ela ficou olhando os cavalos, fez um carinho na Florença, andou pra lá e pra cá um pouco e falou: “Então é só isso aqui? Acho que já vou embora.” Como assim? Pra mim não tinha programação melhor do que ir pra lá. Mesmo se não fosse pra andar a cavalo. Ficava por ali brincando com os cachorros do seu João, desenhando, ou só olhando o pôr do sol. Até ajudar a limpar as baias eu achava divertido.
Nessa época o Leandro estava numa crise existencial danada. Ele tinha pedido demissão de um bom emprego no escritório pra montar uma empresa junto com o Marquinho. A ideia da empresa era ótima e eles estavam super empolgados. Trabalhavam o dia inteiro. Era uma correria pra entregar mercadoria, embalar encomenda, telefonar pra fornecedor, fotografar os produtos pro site, uma labuta danada. Mas como em todo início de negócio, as dificuldades eram muitas, os investimentos muito grandes e o retorno muito pouco. As contas pra pagar não paravam de chegar e só podíamos contar com o meu salário pra todas as despesas. Eu estava trabalhando cinqüenta horas por semana e estava sempre estressada. Pela centésima vez tive que adiar meu sonho de reformar a casa. Nossa vida parecia meio caótica, sem rumo certo, e o Leandro se sentia responsável por isso. Ele tentava me passar segurança, mas eu percebia que ele não estava bem. Os meses passavam, a loja ainda não dava lucro nenhum, e a empolgação do início foi virando preocupação. O Leandro foi ficando abatido, estava sempre com um olhar distante, sorumbático. Eu não sabia como ajudar, então tentava nem tocar muito no assunto da loja, ou da vida profissional dele. Cada vez mais eu também estava ficando preocupada e desanimada.
 Mas quando íamos lá pras baias a gente se animava e se esquecia dos problemas. Era bom demais lidar com os cavalos. No começo, não entendíamos muito dessa lida, mas isso logo mudou. O Fabiano contratou um moço pra tratar dos bichos durante a semana, mas o restante do serviço eram mesmo os freqüentadores do “haras” que faziam, num esquema “cada um por si”: quem quiser andar, que arrume seu cavalo. Aí não teve outro remédio, acabamos aprendemos a arrear e desarrear os bichos, coisa que parece fácil, mas vai fazer pra ver! Fui aprendendo a diferenciar uma sela de um arreio, um freio de um bridão, um cabresto de uma cabeçada, um baixeiro de um pelego. Descobri o que é gamarra, o que é peitoral, o que é chincha, baldrana, alforje, e outros infindos acessórios que eu nem imaginava que existissem. Era todo um mundo novo, pra mim. Aprendi a dar banho nos animais, a passar a raspadeira no pelo e a pentear e aparar as crinas. Tudo isso era muito divertido, mas dava um trabalhão que nem te conto. Você que tem um gatinho em casa, nunca mais reclame que é chato ter que limpar a caixinha de areia dele. Pra limpar as “caixinhas de areia” dos nossos bichinhos, enchíamos um carrinho de mão! Parece que o bicho faz o próprio peso em merda, todos os dias! Não tem explicação... E aí de quem reclamar, perto de mim, que gasta muita ração com seu cachorrinho. Pros nossos pequeninos, que não se contentavam com o pasto, o Leandro levava sacos e mais sacos de capim moído, todas as manhãs. O pior é que, andando de Fusca, não era muito fácil levar todo aquele capim. Era saco de capim amontoado no chão, no banco de trás, em cima do motor... E quando eu ia junto, era saco de capim no meu pé, no meu colo, uma anarquia. Se você um dia viu um Fusca azul passando disparado pela estrada de Santa Rosa, com um rastro de capim atrás e capim voando pelas janelas, pode saber: era nóis!
 Aos poucos foi se formando uma turma de freqüentadores mais assíduos do “Haras Fabiano”. Tinha gente que ia de vez em quando. Mas tinha aquele grupinho fixo, que estava sempre por lá: o Fabiano, o Roger, o Leandro e eu, o Franco e a Regina, o Neto... O Neto logo ganhou o apelido de Jassa, porque revelou um talento insuspeitado pra fazer penteados nas crinas e nas caudas dos cavalos. Dava gosto ver o menino trabalhando. Ele ficava com uma expressão tão séria e concentrada que quem visse só a cara dele podia pensar que era um cirurgião fazendo um transplante cardíaco. Faltava só a máscara e o gorrinho! Parecia que ele tinha uns cinqüenta dedos em cada mão, de tanta agilidade trançando as crinas. A Fabiana, esposa dele, quando viu aquilo ficou admirada: “Mas onde foi que você aprendeu isso???  Será que você consegue fazer uma trança dessas, de cinco pontas, no meu cabelo?” E ele: “Aí, ta vendo porque que eu nunca tinha revelado meu talento? Agora não tenho mais sossego...” Como ainda não tínhamos comprado aqueles elásticos próprios pra amarrar as trancinhas dos cavalos, vivíamos procurando barbantes, pedaços de fita ou cordão pra prender os penteados. Até minhas gominhas de prender cabelo de vez em quando iam parar em alguma trança da Morena ou do Raio.
O Roger já criava e amansava cavalos há algum tempo, no sítio do sogro dele. O Franco desde criança já vivia em roça, em cima de cavalo, mexendo com gado, e nessa época tinha acabado de fazer um curso de doma racional. O Leandro também já sabia alguma coisa do assunto, sabia andar a cavalo desde pequeno, mas foi aprendendo mais com os meninos e se interessou muito por esse negócio de doma racional. Ficou apaixonado pelo tema e começou a estudar feito louco, ler livros, ver vídeos, e assim que surgiu a oportunidade, fez o curso de doma e rédeas. Eu nunca tinha visto o meu marido tão cansado, tão sujo e esfarrapado, tão queimado de sol, como nessa época do curso. Mas também acho que nunca tinha visto ele tão feliz. Voltou a ter aquele brilho nos olhos, que há algum tempo tinha se apagado.  O que era só um passatempo despretensioso estava virando uma paixão e ele começava a perceber que tinha um talento verdadeiro. Acho que não existe nada melhor pra auto-estima do que descobrir que a gente é realmente bom em alguma coisa. Depois que terminou o curso, ele começou a trabalhar com os cavalos lá das baias, treinando rédeas, e os resultados foram ótimos. Até a Florença, que tinha um problema de desobediência crônica e alguns episódios de descontrole completo, foi ficando tranqüila e sensível aos comandos.
O Leandro estava tão empolgado com o trabalho com os cavalos e ao mesmo tempo tão desanimado com a loja, que de repente tomou uma decisão meio louca. Resolveu ir trabalhar nas baias. Combinou com o Fabiano de ir todos os dias pra limpar o lugar, tratar dos bichos e treiná-los. Por um lado fiquei feliz, porque tinha acabado aquela época só de tristeza, mas ao mesmo tempo tinha um pouco de medo daquilo ser só um tipo de fuga, uma forma de não ter que lidar com os problemas da loja. Será que não dava pra ser só um hobby? Tinha que largar tudo pra mexer só com cavalo? Mas com o Leandro é assim. Quando ele encasqueta com uma coisa não tem jeito. De técnico em contabilidade ele tinha virado empresário, e agora estava virando... um peão! E ele entrou de cabeça mesmo nessa nova fase de vida. Só andava de botina, chapéu de palha e um canivete no cinto. Uma vez foi comigo a uma festa de Natal da Unimed (foi sem chapéu, graças a Deus), e foi apresentado ao meu chefe, o gerente de saúde . O chefe, todo gentil e educado: “Que prazer conhecer o esposo da Dra. Giselle! Você também é médico? Não? Trabalha com o quê?” E o Leandro, já achando graça: “Ah, eu mexo com roça...” O chefe arregalou os olhos, e demorou a responder, sem saber se levava aquilo a sério: “Mas... como assim? De verdade?” “É, eu trabalho com cavalo.” O meu gerente enrugou a testa, ainda tentando processar aquela informação: “Então você é fazendeiro?” “Não, sou roceiro mesmo!” Dali a pouco os dois estavam no maior papo sobre cavalos, vida no campo, o chefe lembrando da infância dele na fazenda do avô... E eu que estava com medo do meu marido ficar deslocado na festa... Eu é que acabei ficando de fora da conversa. Fiquei ali só escutando e torcendo pro Leandro não tirar o canivete da cintura pra cortar um canapé.
Mas muito melhores que as festas da empresa eram as festas que a gente fazia lá nas baias. Um dia resolvemos assar uma costela no fogo de chão. Estava fazendo muito frio e a ideia de reunir a turma em volta de uma fogueirinha não era ruim. O Roger levou a esposa, os sogros, as cunhadas. O Neto e a Fabiana também foram. A família do Leandro estava toda lá. Casa cheia, muita música (som do carro ligado, porque aparelho de som não tinha!) e comida boa. Me deu na telha de levar um telescópio que a Marisa tem, pra olhar as estrelas.  Tarde da noite, quando o pessoal já estava indo embora, eu e o Leandro, o Neto e a Fabiana, fomos montar o bendito telescópio e quem disse que a gente conseguia? Não sei se o negócio era difícil mesmo ou se foi uma cerveja a mais que a gente tomou, mas tinha hora que parecia que tinha peça a mais, outra hora faltava peça, e não conseguíamos parar de rir. Depois de uma hora de tentativas, montamos a máquina, mas aí descobrimos que ninguém sabia ajustar o foco. Sentei no chão, morrendo de rir, e de repente vejo caído ali perto um pequeno elástico, parecendo aqueles de amarrar dinheiro, mas muito, muito pequeno mesmo. “Olha aqui, Neto! Que legal que eu achei! Uma borrachinha perfeita pra você usar nas tranças dos cavalos!” “Nossa, é mesmo! Mas de onde surgiu isso?” “Sei lá. Será que é algum componente do telescópio? Mas olha, tem outra ali!” De repente estávamos os quatro engatinhando pelo chão e achando um monte daquelas borrachinhas esquisitas. O Neto todo empolgado: “Vamos ver se a gente acha bastante, pra fazer umas tranças bem legais.” Aí me deu um clique. Acendeu uma lampadinha na minha cabeça e eu saí pulando, jogando longe as borrachinhas e limpando a mão na calça: “Lembrei de onde são esses elásticos!” Todo mundo paralisado, me olhando com cara de medo. “São do aparelho fixo do Roger! Ele tava arrancando essas borrachinhas dos dentes hoje, mais cedo, porque falou que não consegue comer com elas!” Todo mundo jogando longe as borrachinhas e correndo pra lavar as mãos, o que não foi possível porque nesse dia a bomba de encher a caixa d’água não estava funcionando. No outro dia o neto do Seu João veio perguntar o que é que tinha acontecido de madrugada nas baias, porque lá da casa dele ele estava escutando umas risadas.
Surpresas que a vida traz. O que parecia acessório de cabelo era na verdade acessório ortodôntico, e usado. O que era pra ser uma noite de observação astronômica virou essa palhaçada. Casei com um contador e de repente ele vira peão da roça (um peão lindo, diga-se de passagem). Mas assim é que é bom. Se tudo fosse certinho e previsível eu não teria essas histórias malucas pra contar. Tchau pra vocês, depois conto mais! 
Neto mostrando que não só de penteados vive o Jassa, mas também de catar cocô de cavalo.


Nossa comitiva super animada: Humberto, Seu João, Roger, eu, Leandro, Franco e Regina.


segunda-feira, 12 de março de 2012

O bicho que sangra e não morre

Na frente da janela do meu quarto tem um gramado. Depois do gramado tem uma cerca. Depois da cerca tem uma árvore. Nessa árvore mora um casal de canarinhos da terra. Eles são bichinhos muito interessantes de se observar. Estão sempre juntinhos. O macho, todo cheio de pose, vive de peito estufado, orgulhoso de sua impecável roupa de gala amarelo-dourada. A fêmea veste cores mais modestas - um amarelo-palha meio desbotado, mas nem por isso é menos altiva. Os dois trabalham o tempo todo, pegado raminhos pra levar pro ninho, procurando insetos pra comer, observando os arredores pra ver se não tem nenhum predador por perto. Olhando pra eles, pode-se pensar que não existe bicho mais indefeso, mais inofensivo que esses pequenos passarinhos cantadores. Que nada! Os danados são uns briguentos terríveis.  O canto, longe de ser uma arte inocente, é uma forma de demarcar o território. Se outro canário resolver invadir a área, não tem conversa, eles saem no braço mesmo (ou melhor, saem no bico!).
Esse canarinho específico, que mora lá na minha árvore, tem passado muito tempo envolvido com essas lutas por território. Não que apareçam outros passarinhos pra brigar com ele. É que quase sempre tem um carro estacionado embaixo da árvore, nosso ou de alguma visita, pra aproveitar a sombra. O insano do canário vê o retrovisor e fica louco achando que o próprio reflexo é um invasor. Ele é capaz de brigar com o espelho por horas seguidas. Na verdade, acho que se dependesse dele, não ia perder muito tempo com aquele sósia insistente, que não canta, mas também não vai embora. Mas a fêmea não deixa ele desistir de jeito nenhum. Pousada em cima do espelho, ela fica o tempo todo “pondo pilha” no marido. Na língua deles lá, ela deve falar: “Vai, seu molenga, vai deixar ele ganhar? Você não é homem, não? Expulsa ele logo daqui! Não tá vendo que ele tá mexendo comigo? Você tem que me defender!” Ou talvez seja uma conversa diferente: “Vai meu bem! Força! Eu sei que você consegue! Não desiste, não! Você é muito mais forte do que ele!” De um jeito ou de outro, seja incentivando ou infernizando, é a fêmea quem faz com que ele vá em frente. Foi pensando em todos os seres masculinos, que assim como esse infeliz passarinho, têm a alegria e a agonia de ter ao seu lado uma companheira, que resolvi escrever esse post.
Eles (os homens) dizem que é difícil nos entender. Falam que conviver conosco às vezes pode ser até prejudicial à sua saúde mental. Mas ao mesmo tempo são atraídos irresistivelmente pelas mulheres. Eu não os culpo por esses sentimentos contraditórios. Até porque não existe ser mais contraditório no mundo do que uma mulher. Mas pra eles se consolarem, vou contar um segredo: ser mulher é muito mais difícil do que conviver com uma. A gente enlouquece a si mesma até mais do que enlouquece os outros. Não é fácil a nossa vida, gente!

Pra não generalizar, coisa que sempre dá problema, vou falar de mim. Vivo dividida entre a vontade de ser uma profissional independente e bem sucedida e o sonho de ser mãe e passar o dia todo ajudando a fazer tarefinha de escola e fazendo comidinhas saudáveis pra família. Sei fazer uma cesariana, mas tem horas que tudo o que eu queria era saber passar a porcaria do delineador no olho, sem borrar. Entendo de fisiologia e patologia e tenho um título de especialista, mas por mais que tente, não consigo entender as regras aparentemente simples desse jogo infernal chamado truco. O Neto que o diga. Da última vez em que tentou me ajudar a jogar, depois de passar as instruções pela milésima vez, com toda a paciência, ele falou: “Joga a carta maior.” E eu fui lá e joguei um rei ao invés do 3. Aí ele não agüentou, deu um tapão na mesa e gritou: “Aaaaaaah não, demônio!!!!!!!!” Acho que ele fez um esforço sobre-humano pra se conter e não me dar um empurrão e me jogar longe com cadeira e tudo.
Uns dias antes do meu casamento, minha sogra, dona Isabel, veio me perguntar quem é que ia arrumar a mala do Leandro. Fiquei revoltada. Como assim, ele não sabia arrumar a própria mala? Será que ela estava achando que eu ia ser uma esposa dessas que vive por conta do marido? Não senhora! Eu ia trabalhar, estudar, fazer residência. Ele que tratasse de aprender a se virar. Não arrumei a mala. Mas hoje me sinto super culpada porque minha jornada de trabalho não me deixa fazer almoço pra ele todos os dias...

Já sou complicada nos dias normais, mas consigo ficar ainda mais terrível na TPM. Não, não é frescura. Não, também não é psicológico. O negócio é bravo mesmo. Toda vez que chega mais ou menos o vigésimo dia do ciclo, minhas emoções começam a ficar à flor da pele. O primeiro sintoma é me pegar chorando assistindo comercial de margarina. Dias depois começo a achar que não existe emprego pior que o meu, que a vida não faz mesmo sentido e que o Leandro é muito insensível e não gosta mais de mim. Lá pelo vigésimo quinto dia começo a gritar até com os cachorros, e no vigésimo sétimo podem acontecer episódios como o do pão mofado, que traumatizou a dona Isabel. Mas juro que não foi culpa minha... Foi assim: chegamos de uma cavalgada, cansados e morrendo de fome. Na mesa da cozinha tinha um prato com pães, um pote de manteiga e um queijo. Nos sentamos e fomos conversando e começando a comer, enquanto a dona Isabel fazia café. Quando eu já estava quase terminando o meu pãozinho, vi horrorizada que o último pedaço estava cheio de um mofo verde. “Gente, não é possível, essa porcaria de pão tá todo mofado! Que nojo!” Ai a dona Isabel, muito calma: “Ah, é mesmo... esses pães estão mofados. Não era pra comer esses ai não...” Nessas alturas eu já estava espumando de raiva e falei (o Franco, quando conta essa história pros outros, fala que eu gritei, mas tenho quase certeza que não...): “Mas se não era pra comer, então o que que eles estão fazendo aqui na mesa???” E joguei longe o fatídico pedaço mofado. A pobre da dona Isabel ficou muito assustada e nem conseguiu responder. O Franco e a Regina, que estavam na cozinha também, arregalaram uns olhos do tamanho de laranjas pra mim, e durante o resto do dia só conversaram comigo o estritamente necessário. Dois dias depois eu já tinha voltado ao meu estado normal (a médica ao invés da monstra!) e pedi desculpas.
Apesar de todas essas maluquices e complicações, nós mulheres conseguimos administrar nossas dezenas de tarefas, centenas de vontades e milhares de talentos. Sofremos. Umas mais, outras menos. Mas atravessamos um dia inteiro de trabalho, estresse, estudo, família pra cuidar, conta pra pagar, trânsito, academia, manicure, cozinha e saímos inteiras e belas do outro lado. Eu ia acrescentar horta pra capinar e cavalo pra dar banho nessa lista de tarefas, mas essas são obrigações de poucas privilegiadas, como eu.
Então, homens, nada mais justo do que recebermos seu reconhecimento e respeito. Mas não reclamaremos se recebermos também flores, carinhos e paparicos. E nada de dar aquele irritante olharzinho de superioridade quando pedirmos ajuda pra abrir um vidro de azeitona, pra matar uma barata, ou pra entender as mirabolantes instruções do GPS. Fiquem felizes por ainda serem necessários. E lembrem-se de que nós, por nossa vez, somos imprescindíveis!
O pior é que tem uns exemplares femininos que às vezes me irritam mais do que qualquer marmanjo. Por exemplo, a minha amiga Dê que, no meio de uma discussão entre meninos e meninas sobre a importância da mulher na sociedade, me sai com essa: “Vocês precisam muito da gente, tá? Se não fossem as mulheres, quem é que ia cozinhar, lavar, passar a roupa de vocês?” Aaaaaaaargh! Eu queria pular no pescoço dela e enforcar! Como não podia, dei só um beliscão. Mas aí já era tarde, porque os meninos já estavam rolando no chão, de rir, e concordando: “É mesmo, é mesmo! Vocês são muito necessárias!” Que ódio...
Pra terminar, vou compartilhar umas palavras de sabedoria do meu amigo Marcelo, que foi meu colega na residência. Ele é um sujeito meio rústico, meio da roça, barbudo, de voz grossa e cara meio fechada, mas gente boa toda a vida. Uma vez me perguntou não lembro o quê e fez uma cara de desconfiado depois de ouvir a resposta. Então eu insisti: “É isso mesmo que eu falei. Você não tá confiando em mim?” E ele, com aquele jeitão do interior: “Hum.... E ‘cê acha que eu vou confiar num bicho que sangra sete dias todo mês e não morre?”
Somos mesmo assim. Esses seres misteriosos, poderosos. Sangramos e não morremos. Nos depilamos com cera e não reclamamos da dor. Matamos um leão por dia e não descascamos o esmalte nem descemos do salto. Queria poder dizer que também comemos e não engordamos, mas aí já seria exigir demais da natureza... Não somos perfeitas. Mas, sem falsa modéstia, somos o máximo.

PS : Esse post era pra ter saído no dia 8, dia internacional da mulher, só que pra variar fui pra roça e fiquei sem internet. Mas mesmo com atraso, quero dedicá-lo a algumas mulheres especiais, lindas e inspiradoras:
À Laila, a melhor e mais destemida amazona que eu conheço, que acorda às quatro horas da manhã todos os dias pra ajudar a tirar leite, mas sempre está com as unhas e a maquiagem impecáveis!
À Maria José (como é que pode tanta energia caber numa pessoa pequenininha dessa?) que enfrentou e venceu um câncer de mama, trabalha umas 26 horas por dia, ainda arruma tempo pra fazer musculação, natação, e pra ser o centro de gravidade em torno do qual orbita, feliz, a família.
À Vanessa, minha irmãzinha amada, que adota e toma as dores de qualquer ser necessitado em quem ponha os olhos. Coração mais doce não há, mas vira uma onça brava rapidinho, se alguém mexer com quem ela ama.
E à Maria. Mulher de Deus, guerreira, esposa, mãe, amiga e missionária. Exemplo de mulher, exemplo de vida.

sábado, 3 de março de 2012

O chão é o limite

Era noite de lua cheia. Ouvia-se o som dos grilos e o canto dos curiangos, e uma brisa leve vinha nos refrescar. Tudo perfeito pra uma cavalgada noturna! A turma se reuniu nas baias, preparamos os cavalos e pegamos a estrada. Ou melhor, não pegamos a estrada, pegamos um atalho; um caminho arborizado que passa pelo fundo da propriedade, por entre grotas e cursos d’água. Tudo lindo, exceto pelo pequeno detalhe de que, por causa das árvores, a luz da lua não nos alcançava e o caminho ficou bem escuro. Já não enxergo muito bem com claridade normal, que dirá naquela escuridão. Detesto ser a reclamona, ou a medrosa, mas tive que falar: “Gente, não to conseguindo ver nada! Não é melhor ir pela estrada?” O Leandro respondeu: “Não, por aqui é melhor, e só tem esse pedaço mais escuro. Logo a gente sai na estrada. Pode vir atrás da gente. Passa por onde eu passar.” Tá bom, então... Só conseguia ver uma mancha branca na minha frente, que era a camisa do Leandro, e fui guiando de leve a Morena nessa direção, confiando na visão noturna dela pra desviar das árvores. De repente sinto um obstáculo. Tinha um galho no meio do caminho, no meio do caminho tinha um galho. Tentei me livrar dele, me desenroscar, mas não deu. A Morena, muito má, continuou andando, e quando eu me lembrei de puxar as rédeas, já era tarde. Senti os pés saindo dos estribos escorreguei pra trás e pensei: agora não tem mais jeito, vou cair mesmo. O mais engraçado é que parece que foi em câmera lenta. Fiquei esperando o chão chegar por longas frações de segundo. No fim me estatelei de costas, e a palhaça da Morena parou e virou a cabeça pra trás, me olhando, decerto pensando: “Mas o que você tá fazendo aí? A gente não ia passear?” O Leandro e o Roger voltaram pra me ajudar. “Tá tudo bem, não machucou?” o Roger perguntava, enquanto o Leandro me ajudava a montar de novo.  “Tudo bem, não foi nada.” “Então já posso rir.” E desatou a rir mesmo. Ficou rindo uma meia hora sem parar...
Foi o meu primeiro tombo, e se tenho só uma cicatriz pequena no pulso (me cortei com o galho) pra me lembrar dele, é por causa do bom temperamento da Morena. Se ela fosse medrosa, se tivesse se assustado com a queda, poderia ter me pisado ou até me arrastado. Mas a verdade é que por melhor que o animal seja, e por mais cuidado que se tome, ninguém está imune a beijar o chão. Dizem que existem dois tipos de cavaleiros: os que já caíram e os que ainda vão cair. Espero estar só no primeiro grupo!
O bom é que, quando não são acidentes graves (Deus nos livre desses), as quedas geralmente viram histórias divertidas. Mais divertidas pra quem assistiu do que pra quem caiu, é claro. Por muitos meses eu não podia montar sem que alguém me recomendasse às gargalhadas que não passasse perto de árvores...  Então, pra descontar, vou contar algumas quedas de outros cavaleiros.
É engraçado como a forma com que o cadente (o ser que cai) reage à queda, diz muito sobre sua personalidade. Veja o caso do meu primo Alex, que desde pequeno era marrentinho e nunca dava o braço a torcer. Com dez anos de idade já negociava com gado e montava em cavalo bravo. Uma vez resolveu montar numa jumentinha chamada “Destrangolada”. Pelo nome vocês já podem imaginar como era o bicho. A danada deu três pulos e o Alex se esborrachou no chão. Quando se viu livre do peão, a jumenta saiu correndo tão desesperada que escorregou e caiu também. Alex se levantou num pulo, limpando a poeira da roupa e já falando pra nós: “’Cês viram o tombo que eu dei nela?”
Tem também o Franco Túlio, que é o tranquilo da turma e um otimista incurável. Não esquenta com nada. Um dia foi numa cavalgada montado no Raio. Não sei se já contei isso, mas o Raio é um cavalo “pra frente”. Gosta demais de correr e é meio competitivo, detesta ficar pra trás. Franco e Raio ficam um pouco mais pra trás, enquanto o Leandro está na dianteira da comitiva. De repente o Leandro vê um cavalo branco passar disparado por ele. É o Raio. Sem o Franco. Mas... gente, então cadê o Franco? Ele olha pra trás e vê uma mancha na estrada, no meio da poeira. É o Franco esborrachado. Corre lá pra acudir, e vai ficando preocupado, porque o menino não se mexe. Leandro apeia e vai gritando: “Rapaz, o que aconteceu? Você ta bem?” Franco, que está com a cara enfiada na areia, só vira a cabeça de lado e põe a língua pra fora: cheia de terra. Enquanto o acidentado se levanta cambaleante, cuspindo um pouco da terra, chega a Regina, namorada dele. Ela vê que ele está todo esfolado, com um corte maior na testa, de onde escorre um fio de sangue, e se desespera: “Meu Deus! Franco, o que é isso? Olha esse sangue!” E ele, muito calmo, muito ponderado, leva a mão à testa, estuda a mão suja de sangue. “Regina... O corpo humano... O corpo humano tem sangue, Regina...”
O Leandro tem uma coleção de belos tombos, dos mais variados tipos. Tem aquele em que a Florença pisou num buraco de tatu e capotou com ele. Tem um em que a sela da Morena não estava muito firme e virou. O coitado ficou de ponta cabeça, embaixo da barriga da égua. Outro com o Raio, que enroscou o pé num arame de cerca, se assustou e pulou. Até hoje o Raio tem um problema com arames, por causa disso. Tem um muito bom com a Malagueta, uma égua que ele comprou muito brava, arrebentava cerca no peito, mas que depois da doma ficou um doce. Um belo dia, fomos buscar a Malagueta no pasto e como estávamos longe da casa, o Leandro resolveu que ia voltar montado nela em pêlo, sem cabresto. A égua estava tão confiante, tão tranqüila, que deixou-se montar e foi trotando feliz com ele. Quando fomos chegando, vimos o Luís Henrique lá perto da porteira. O Leandro estava todo empolgado com os resultados do seu trabalho de doma racional e queria mostrar pro Luís Henrique o progresso da Malagueta. “Nossa, ele não vai acreditar quando me vir montado em pêlo, nela. Agora só não posso cair.” Foi só ele falar e apareceu na curva da estrada, atrás de nós, o caminhãozinho do leiteiro. O infeliz ao invés de diminuir a velocidade veio acelerando e buzinando, e a Malagueta pocotó-pocotó, saiu correndo, é lógico. Leandro se segurou no pescoço dela, mas ela não gostou, deu um pinote e aí... chão. Luís Henrique olhou exatamente nessa hora, e está rindo até hoje.
Alguns tombos dele foram realmente inevitáveis, como o do buraco de tatu, mas na maioria dos casos teve alguma coisa que se poderia ter feito diferente: a sela que tem sempre que estar bem apertada, por exemplo, ou o leiteiro que deveria levar uma surra. O Leandro é extremamente racional e, sempre que algo dá errado, fica tentando analisar as causas e consequências. Ele aprende com os erros, e talvez por isso venha caindo menos, ultimamente! Mas uma coisa boa que percebo nele é que uma queda (ou duas, ou três...) não o intimidam. Acho que com o tempo ele tem ficado mais prudente, mas prudência é bem diferente de medo. Nas cavalgadas, como na vida, é preciso não se deixar paralisar pelo medo. É preciso se levantar de novo depois de cada queda. E também é preciso não se levar muito a sério, saber rir dos próprios tombos. Acho que sem essa capacidade de rir de si mesmo é muito difícil se recuperar dos tombos que levamos na vida, especialmente daqueles realmente dolorosos.
A ideia desse post me veio no dia da festa de aniversário do Luiz Henrique. Fizemos um churrasco na casa dele e a varanda estava cheia de gente. Todo mundo comendo, bebendo uma cervejinha, conversando. Só alegria. O Zé Alberto, amigo que mora lá por perto, como sempre era um dos mais animados. Conversava com todo mundo, contava histórias, ria alto. De repente começou a implicar, de brincadeira, com o Dudu, meu sobrinho de cinco anos. Dançava em volta do menino e fazia cócegas nele. O Dudu se remexia, rindo, tentando se livrar. Corria pra um lado, o Zé ia atrás e cutucava. Se esquivava, entrava embaixo da mesa, lá ia o Zé fazer cócegas nele de novo. Uma hora Dudu cansou, fez cara de bravo e falou: “Pára com isso, senão eu quebro seu outro braço.” Zé Alberto caiu na gargalhada, abraçando e beijando o Dudu: “Ah, moleque, você me mata de rir!” E saiu pra contar pro pessoal que não viu a cena: “Gente, olha como esse menino é custoso! Escuta essa...” Fiquei observando o Zé e pensando na história dele, que é o maior exemplo de superação que eu conheço. Ele trabalhava numa grande empresa de fertilizantes, e um dia sofreu um acidente de trabalho com uma máquina. Nosso ex-presidente faz todo um drama em torno do fato de ter perdido um dedo quando era operário. O Zé nunca fez drama a respeito de seu acidente, e ele não perdeu só um dedo. Naquele dia fatídico, ele teve o braço direito arrancado do corpo de forma tão violenta que perdeu parte da clavícula e da escápula, além de pedaços de várias costelas. Na época dessa tragédia eu trabalhava no Hospital Escola e conversei com os acadêmicos que estavam de plantão no dia em que o Zé foi levado pra lá. Sem saber que eu o conhecia, eles me contaram, de olhos arregalados, como tinham atendido um acidentado que chegou trazido pelo Resgate. Assim que o paciente foi colocado na maca da sala de emergência, os socorristas que o trouxeram depositaram no chão um balde ensangüentado. Nesse balde estava o braço inteiro do Zé, com os pedaços de ossos e músculos do seu tórax. Os acadêmicos contaram que o estrago na caixa torácica foi tamanho que dava pra ver o pulmão pela cratera que se formou. Depois de mais de um mês em uma UTI e de enfrentar uma difícil e lenta recuperação, hoje o Zé Alberto é mais ativo do que muita gente “inteira” que conheço. É difícil de acreditar, mas até capinar ele capina, só com o braço esquerdo. Mais do que sua recuperação física, que já considero um milagre, me impressiona a capacidade mental e espiritual de adaptação e de superação que ele tem. E mais do que isso, me encanta a forma leve que ele tem de encarar a nova vida e de se reinventar nessa nova condição. Com certeza não é fácil e com certeza ele teve (talvez ainda tenha) seus momentos de tristeza, de questionamentos e de desânimo. Mas esses momentos devem ser exceções, porque não me lembro de tê-lo visto triste ou reclamando, nem uma vez. Conversando com ele, só me lembro de sua deficiência quando ele mesmo a menciona, sempre fazendo graça. Como nesse dia da festa: começou a chover na hora de ir embora e ele, rindo, comentou que a vantagem dele era que podia sair na chuva que só molhava um braço.
Todos estamos sujeitos aos tombos da vida. Sujeitos às dores e às cicatrizes. Não se escolhe cair. Mas podemos escolher de que forma encarar os tombos. Pode-se simplesmente desistir e se deixar ficar ali estatelado no chão.  Ou, tão ruim quanto isso, pode-se escolher nem mesmo tentar. Com medo de cair, muitos perdem as alegrias do passeio e se tornam meros expectadores. Que Deus nos livre dos tombos. Mas se eles vierem, que nos ajude a levantar, montar de novo no cavalo e seguir viagem. Sempre em frente, meus amigos! Fé em Deus e pé no estribo!