segunda-feira, 12 de março de 2012

O bicho que sangra e não morre

Na frente da janela do meu quarto tem um gramado. Depois do gramado tem uma cerca. Depois da cerca tem uma árvore. Nessa árvore mora um casal de canarinhos da terra. Eles são bichinhos muito interessantes de se observar. Estão sempre juntinhos. O macho, todo cheio de pose, vive de peito estufado, orgulhoso de sua impecável roupa de gala amarelo-dourada. A fêmea veste cores mais modestas - um amarelo-palha meio desbotado, mas nem por isso é menos altiva. Os dois trabalham o tempo todo, pegado raminhos pra levar pro ninho, procurando insetos pra comer, observando os arredores pra ver se não tem nenhum predador por perto. Olhando pra eles, pode-se pensar que não existe bicho mais indefeso, mais inofensivo que esses pequenos passarinhos cantadores. Que nada! Os danados são uns briguentos terríveis.  O canto, longe de ser uma arte inocente, é uma forma de demarcar o território. Se outro canário resolver invadir a área, não tem conversa, eles saem no braço mesmo (ou melhor, saem no bico!).
Esse canarinho específico, que mora lá na minha árvore, tem passado muito tempo envolvido com essas lutas por território. Não que apareçam outros passarinhos pra brigar com ele. É que quase sempre tem um carro estacionado embaixo da árvore, nosso ou de alguma visita, pra aproveitar a sombra. O insano do canário vê o retrovisor e fica louco achando que o próprio reflexo é um invasor. Ele é capaz de brigar com o espelho por horas seguidas. Na verdade, acho que se dependesse dele, não ia perder muito tempo com aquele sósia insistente, que não canta, mas também não vai embora. Mas a fêmea não deixa ele desistir de jeito nenhum. Pousada em cima do espelho, ela fica o tempo todo “pondo pilha” no marido. Na língua deles lá, ela deve falar: “Vai, seu molenga, vai deixar ele ganhar? Você não é homem, não? Expulsa ele logo daqui! Não tá vendo que ele tá mexendo comigo? Você tem que me defender!” Ou talvez seja uma conversa diferente: “Vai meu bem! Força! Eu sei que você consegue! Não desiste, não! Você é muito mais forte do que ele!” De um jeito ou de outro, seja incentivando ou infernizando, é a fêmea quem faz com que ele vá em frente. Foi pensando em todos os seres masculinos, que assim como esse infeliz passarinho, têm a alegria e a agonia de ter ao seu lado uma companheira, que resolvi escrever esse post.
Eles (os homens) dizem que é difícil nos entender. Falam que conviver conosco às vezes pode ser até prejudicial à sua saúde mental. Mas ao mesmo tempo são atraídos irresistivelmente pelas mulheres. Eu não os culpo por esses sentimentos contraditórios. Até porque não existe ser mais contraditório no mundo do que uma mulher. Mas pra eles se consolarem, vou contar um segredo: ser mulher é muito mais difícil do que conviver com uma. A gente enlouquece a si mesma até mais do que enlouquece os outros. Não é fácil a nossa vida, gente!

Pra não generalizar, coisa que sempre dá problema, vou falar de mim. Vivo dividida entre a vontade de ser uma profissional independente e bem sucedida e o sonho de ser mãe e passar o dia todo ajudando a fazer tarefinha de escola e fazendo comidinhas saudáveis pra família. Sei fazer uma cesariana, mas tem horas que tudo o que eu queria era saber passar a porcaria do delineador no olho, sem borrar. Entendo de fisiologia e patologia e tenho um título de especialista, mas por mais que tente, não consigo entender as regras aparentemente simples desse jogo infernal chamado truco. O Neto que o diga. Da última vez em que tentou me ajudar a jogar, depois de passar as instruções pela milésima vez, com toda a paciência, ele falou: “Joga a carta maior.” E eu fui lá e joguei um rei ao invés do 3. Aí ele não agüentou, deu um tapão na mesa e gritou: “Aaaaaaah não, demônio!!!!!!!!” Acho que ele fez um esforço sobre-humano pra se conter e não me dar um empurrão e me jogar longe com cadeira e tudo.
Uns dias antes do meu casamento, minha sogra, dona Isabel, veio me perguntar quem é que ia arrumar a mala do Leandro. Fiquei revoltada. Como assim, ele não sabia arrumar a própria mala? Será que ela estava achando que eu ia ser uma esposa dessas que vive por conta do marido? Não senhora! Eu ia trabalhar, estudar, fazer residência. Ele que tratasse de aprender a se virar. Não arrumei a mala. Mas hoje me sinto super culpada porque minha jornada de trabalho não me deixa fazer almoço pra ele todos os dias...

Já sou complicada nos dias normais, mas consigo ficar ainda mais terrível na TPM. Não, não é frescura. Não, também não é psicológico. O negócio é bravo mesmo. Toda vez que chega mais ou menos o vigésimo dia do ciclo, minhas emoções começam a ficar à flor da pele. O primeiro sintoma é me pegar chorando assistindo comercial de margarina. Dias depois começo a achar que não existe emprego pior que o meu, que a vida não faz mesmo sentido e que o Leandro é muito insensível e não gosta mais de mim. Lá pelo vigésimo quinto dia começo a gritar até com os cachorros, e no vigésimo sétimo podem acontecer episódios como o do pão mofado, que traumatizou a dona Isabel. Mas juro que não foi culpa minha... Foi assim: chegamos de uma cavalgada, cansados e morrendo de fome. Na mesa da cozinha tinha um prato com pães, um pote de manteiga e um queijo. Nos sentamos e fomos conversando e começando a comer, enquanto a dona Isabel fazia café. Quando eu já estava quase terminando o meu pãozinho, vi horrorizada que o último pedaço estava cheio de um mofo verde. “Gente, não é possível, essa porcaria de pão tá todo mofado! Que nojo!” Ai a dona Isabel, muito calma: “Ah, é mesmo... esses pães estão mofados. Não era pra comer esses ai não...” Nessas alturas eu já estava espumando de raiva e falei (o Franco, quando conta essa história pros outros, fala que eu gritei, mas tenho quase certeza que não...): “Mas se não era pra comer, então o que que eles estão fazendo aqui na mesa???” E joguei longe o fatídico pedaço mofado. A pobre da dona Isabel ficou muito assustada e nem conseguiu responder. O Franco e a Regina, que estavam na cozinha também, arregalaram uns olhos do tamanho de laranjas pra mim, e durante o resto do dia só conversaram comigo o estritamente necessário. Dois dias depois eu já tinha voltado ao meu estado normal (a médica ao invés da monstra!) e pedi desculpas.
Apesar de todas essas maluquices e complicações, nós mulheres conseguimos administrar nossas dezenas de tarefas, centenas de vontades e milhares de talentos. Sofremos. Umas mais, outras menos. Mas atravessamos um dia inteiro de trabalho, estresse, estudo, família pra cuidar, conta pra pagar, trânsito, academia, manicure, cozinha e saímos inteiras e belas do outro lado. Eu ia acrescentar horta pra capinar e cavalo pra dar banho nessa lista de tarefas, mas essas são obrigações de poucas privilegiadas, como eu.
Então, homens, nada mais justo do que recebermos seu reconhecimento e respeito. Mas não reclamaremos se recebermos também flores, carinhos e paparicos. E nada de dar aquele irritante olharzinho de superioridade quando pedirmos ajuda pra abrir um vidro de azeitona, pra matar uma barata, ou pra entender as mirabolantes instruções do GPS. Fiquem felizes por ainda serem necessários. E lembrem-se de que nós, por nossa vez, somos imprescindíveis!
O pior é que tem uns exemplares femininos que às vezes me irritam mais do que qualquer marmanjo. Por exemplo, a minha amiga Dê que, no meio de uma discussão entre meninos e meninas sobre a importância da mulher na sociedade, me sai com essa: “Vocês precisam muito da gente, tá? Se não fossem as mulheres, quem é que ia cozinhar, lavar, passar a roupa de vocês?” Aaaaaaaargh! Eu queria pular no pescoço dela e enforcar! Como não podia, dei só um beliscão. Mas aí já era tarde, porque os meninos já estavam rolando no chão, de rir, e concordando: “É mesmo, é mesmo! Vocês são muito necessárias!” Que ódio...
Pra terminar, vou compartilhar umas palavras de sabedoria do meu amigo Marcelo, que foi meu colega na residência. Ele é um sujeito meio rústico, meio da roça, barbudo, de voz grossa e cara meio fechada, mas gente boa toda a vida. Uma vez me perguntou não lembro o quê e fez uma cara de desconfiado depois de ouvir a resposta. Então eu insisti: “É isso mesmo que eu falei. Você não tá confiando em mim?” E ele, com aquele jeitão do interior: “Hum.... E ‘cê acha que eu vou confiar num bicho que sangra sete dias todo mês e não morre?”
Somos mesmo assim. Esses seres misteriosos, poderosos. Sangramos e não morremos. Nos depilamos com cera e não reclamamos da dor. Matamos um leão por dia e não descascamos o esmalte nem descemos do salto. Queria poder dizer que também comemos e não engordamos, mas aí já seria exigir demais da natureza... Não somos perfeitas. Mas, sem falsa modéstia, somos o máximo.

PS : Esse post era pra ter saído no dia 8, dia internacional da mulher, só que pra variar fui pra roça e fiquei sem internet. Mas mesmo com atraso, quero dedicá-lo a algumas mulheres especiais, lindas e inspiradoras:
À Laila, a melhor e mais destemida amazona que eu conheço, que acorda às quatro horas da manhã todos os dias pra ajudar a tirar leite, mas sempre está com as unhas e a maquiagem impecáveis!
À Maria José (como é que pode tanta energia caber numa pessoa pequenininha dessa?) que enfrentou e venceu um câncer de mama, trabalha umas 26 horas por dia, ainda arruma tempo pra fazer musculação, natação, e pra ser o centro de gravidade em torno do qual orbita, feliz, a família.
À Vanessa, minha irmãzinha amada, que adota e toma as dores de qualquer ser necessitado em quem ponha os olhos. Coração mais doce não há, mas vira uma onça brava rapidinho, se alguém mexer com quem ela ama.
E à Maria. Mulher de Deus, guerreira, esposa, mãe, amiga e missionária. Exemplo de mulher, exemplo de vida.

5 comentários:

  1. Lindo texto, linda foto da Maria, essa é exemplo mesmo!

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    1. Obrigada, Lili! A Maria é demais mesmo. Saudade dela...

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  2. Muito bom o post... Gostei d+...

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  3. Giselle, inspiradíssimo, seu texto. Pura realidade, que convivemos no dia a dia de nossas esposas. Feliz do Leandro (O Belga rsrsrsrsrs) que pode dividir com você este misterioso comportamento de um ser abençoado chamado MULHER.

    Também MUITO ATRASADO, feliz dia das mulheres. O que seria de nós homens, sem este comportamento mescla de singelo e furioso.


    Grande abraço. Espero te conhecer pessoalmente um dia. Sei que vai ser tão agradável quanto ter conhecido o Leandro.

    Vanderlei Teixeira (Mineirim)

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    1. Obrigada,Mineirim! Adorei sua descrição do comportamento feminino: "mescla de singelo e furioso". É bem por aí. Venha nos visitar em Uberaba. Eu e o Leandro vamos ficar muito felizes em te receber. Venha tomar um café com pão de queijo! Abraço!

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