quinta-feira, 26 de abril de 2012

Pop Zen

Pronto. Já estou normal de novo. Normal, normal mesmo, não, que isso eu nunca fui. O meu normal meio atrapalhado de sempre.
Passei uns bons dias imersa num poço de autocomiseração, por causa do carro, choramingando: “Por que eu, meu Deus? Com  tanto carro no mundo pra escangalhar, por que logo o meu carrinho, tão indefeso, sem seguro?” Não podia ver um Palio prata na rua que já me dava vontade de chorar. Pra acabar de me deprimir, alguém postou uma frasesinha assim no meu Facebook: "Quando Deus tira algo de você, ele não está punindo-o, mas apenas abrindo suas mãos para receber algo melhor." Me deu uma raiva... Quem disse que pra ganhar uma coisa boa a gente tem que perder outra? Mas aí aos poucos comecei a perceber que aquela tristeza minha estava meio exagerada. Comecei a me perguntar o motivo desse apego todo com o carro. Logo eu que defendo tanto a simplicidade, o desapego, estava sofrendo por causa de um objeto, de um bem material... Será que o apego era com o conforto, com as facilidades que ele trazia? Será que era porque tivemos que trabalhar muito pra conseguir o carro e eu pensava nele como uma conquista, uma espécie de troféu do nosso esforço? Ou era só por causa da perda financeira mesmo? Acho que era um pouco de tudo isso. Mas percebi que nenhuma dessas justificativas é desculpa pra ficar me lamentando. Descobri que o Leandro e eu conseguimos conciliar nossas atividades de forma a não precisar de outro carro. O Fuscão dá conta do recado sozinho. Andar um pouco a pé de vez em quando também não mata ninguém. E outra: fizemos as contas e vimos que um carro é um verdadeiro ralo de escoar dinheiro. A gente gasta com IPVA, seguro (eu não gastei... e olhe o que deu), revisões, manutenção, combustível, sem contar com a desvalorização, que vai roendo o valor do bem a cada dia. Conversa vai, conversa vem, acabamos tomando mais uma decisão maluca: depois que o Palio estiver consertado, vamos vendê-lo e ficar só com o Fuscolino. O dinheiro da venda, é claro, será investido em estrutura na roça: o poço, instalação elétrica, e cercas. Que maravilha! E não é que a frasesinha do Facebook estava certa? Se não fosse o acidente, nós nunca iríamos ter a iniciativa e a coragem de vender o carro. Íamos ficar grudados nele, gastando com ele, por muito tempo ainda. E sem dinheiro pra fazer um monte de coisas que precisamos. Às vezes Deus tem que dar uma chacoalhada na gente, pra gente aprender alguma coisa. Acho que aprendi. Aprendi que conforto é diferente de necessidade real. Que muita coisa que a gente acha que precisa, na verdade não precisa, só deseja. Que a gente se compara demais com os outros. Porque o outro tem, a gente acha que tem que ter também. E essa fúria de querer, de ter as coisas, às vezes é um grande atraso de vida. Outra coisa que percebi foi que em momentos problemáticos da vida da gente é que a gente vê o valor da amizade. Foi bom demais ver que podemos contar com o apoio de pessoas queridas. Teve até gente se oferecendo pra mandar caminhão lá em Sorocaba, pra buscar o carro, de graça. Quero aproveitar pra agradecer à turma toda, mas especialmente ao Neto e à Fabiana e ao Roger, que abriram mão de um bom passeio pra passar o dia com a gente, e ao Fabiano, que se ofereceu pra ir buscar o Leandro em Sorocaba (seis horas de estrada...).
Hoje estou escrevendo um pouco menos, que é pra deixar tempo pra vocês assistirem esse vídeo aí embaixo. É muito bom, e tem muito a ver com esse negócio que falei da fúria de querer ter as coisas. Não é fácil mudar, abrir mão das pequenas mordomias que temos no dia a dia. Mas se não tomarmos cuidado, acabamos vivendo como escravos dos objetos, do conforto, do consumo. Aí, quando acontece uma perda qualquer, ficamos meio sem chão, porque dependíamos daquele objeto, daquele bem pra nos sentir seguros e felizes. E a verdade é que não possuímos de verdade nada nesse mundo, e nada podemos reter pra sempre. Nossa, deixa eu parar por aqui, antes que isso vire um blog de Filosofia... Deus me livre! Ah, pra quem não entendeu o título do post, é o nome dessa música que coloquei aí embaixo também. Beijos, e até a próxima!

sábado, 14 de abril de 2012

Sem inspiração

Esse post era pra se chamar “era uma vez uma casinha verde”. Já estava mais ou menos pronto, na minha cabeça, e era pra ser bem descontraído e divertido. Só estava esperando a Inspiração chegar. Aí, ontem: “toc, toc, toc...”. Fui abrir a porta toda feliz, achando que era a Inspiração batendo, toda linda e fresca, envolta em seda e cetim, colorida e leve feito uma borboleta. Mas abri e não era ela. Fiz uma careta de decepção: “Ah, é você?” Era aquela outra. Veio vestida com um macacão de brim, meio sujo e desbotado, e calçada com uns tênis velhos. Os cabelos despenteados de sempre, e aquela cara meio amassada de quem acabou de acordar. Ai, que raiva que tenho da falta de glamour dessa aí! Mesmo sabendo que não tinha escapatória, ainda tentei: “Olha, sem querer ser mal-educada... você sabe que eu até gosto bastante de você, na maior parte dos dias, mas hoje eu estou tão cansada, trabalhei tanto e ainda por cima estava esperando outra pess...” Mas, como sempre, ela se fez de surda aos meus argumentos. A Realidade deu um sorrisinho amarelo, meio que se desculpando, e foi entrando sem ser convidada mesmo. Entrou e se espalhou. E tá aqui até agora me enchendo a paciência.
Então, fazer o quê, né? O post é sobre ela mesma. Essa intrometida, inflexível, insensível da Realidade. Vou contar pra vocês a brincadeirinha de mau gosto que ela fez comigo ontem. Foi assim:
O Leandro viajou há três dias pra Sorocaba. Foi fazer um curso de casqueamento e ferrageamento na Universidade do Cavalo. São mais ou menos cinco horas de viagem daqui até lá. Como o fusquinha não é a melhor escolha pra viagens longas e estradas movimentadas, ficou aqui comigo e o Leandro foi com o Palio. Beleza. Gosto demais do El Fuscón. No domingo à noite fui com ele pra igreja. O único problema foi que o limpador de pára-brisa não estava funcionando. Mas só choveu um pouquinho, então não tive muita dificuldade.
Na segunda-feira, lá fui eu trabalhar, com o Fuscolino. Embiquei para entrar no estacionamento da Unimed e acenei pro guarda, pra ele abrir a cancela. Mas ele tá acostumado a me ver chegar no Palio. Não reconheceu o Super Fusca, e não abriu. Apertei a buzina, mas quem disse que a danada funcionava? Ela é assim mesmo. Às vezes faz voto de silêncio, e não fala nem sob tortura. Nessas alturas já estava se formando uma fila de carros atrás de mim, porque a rua é estreita, então ninguém passava enquanto eu não entrasse no estacionamento. Fui ficando desesperada e já estava até esmurrando a porcaria da buzina quando vi passar uma colega. Gritei pra ela: “Chama o guarda pra abrir aqui pra mim, por favor!” E ela: “É só buzinar que ele vem!” E continuou seu caminho. Aí perdi o que me restava de elegância, pus a cabeça pra fora da janela e berrei: “NÃO TEM BUZINAAAAAA!” Pronto. O guarda ouviu e veio correndo abrir. Quando viu que era eu, fez uma cara meio assustada. Não sei se por causa do Fusca ou do meu berro. Mas tudo bem, o importante é que consegui entrar. Ou quase. A entrada do estacionamento é uma rampa estreita, em curva. A parede dessa rampa é riscada de diversas cores. São os riscos da pintura dos carros que raspam por ela afora ao entrar. Nunca tive dificuldade em passar por ali com o Palio e sua maravilhosa direção hidráulica. Mas com o Fuscão... Coitado, fazer curvas fechadas não é a especialidade dele. Sofri pra fazer o danado passar sem esfregá-lo na parede. Com muito custo estacionei. Mas aí lembrei que a rampa de saída é dez vezes mais difícil que a de entrada. Trabalhei a manhã toda com um medo horrível de que chegasse a hora de ir embora e pensando: “Como é que eu vou fazer pra tirar o Fusquete de lá? E se eu riscar a pintura dele? O Leandro me mata...” Me deu até dor de barriga de tanto nervoso. Chegou a hora de ir embora e lá fui eu, suando frio, pro estacionamento. Fazer rampa e curva ao mesmo tempo naquela rampinha estreita não foi fácil. Mas consegui! Vitória! Passei o resto do dia feliz, me sentindo um ás do volante. Aí não teve mais quem me segurasse. Fui pro ambulatório, pra aula de piano, enfrentei o trânsito do centro da cidade em horário de pico, tudo com o meu heróico Fusca azul. Passei os três dias bem feliz, dirigindo pra lá e pra cá.
 E aí ontem eu estava dentro do Fusquinha, na garagem aqui de casa, me preparando pra sair, bem tranqüila, quando toca meu telefone. Era o Fabiano. “Giselle, tenho que te contar uma coisa. O Leandro sofreu um acidente de carro lá em Sorocaba.” O quê? Será que entendi mesmo? Demorei longos segundos pra processar a informação e a única coisa que consegui falar foi: “É mentira. Você tá brincando, né?” “Não, pior que é sério. Ele bateu com o carro.” A voz dele foi ficando abafada do outro lado da linha. Eu só conseguia ouvir as batidas do meu coração, ressoando nos meus tímpanos. O ar ficou denso e pesado, e de repente ficou difícil respirar. O Fabiano continuou: “Ele tá bem, falou que só se machucou um pouco. Falei que ia lá pra buscar ele, mas tô tentando ligar de novo e o celular dele ta desligado.” Aí comecei a pensar mil coisas ao mesmo tempo. Como assim, se machucou só um pouco? O que é “só um pouco”? Quebrar um braço? Uma costela? Por que ele ligou pro Fabiano primeiro, e não pra mim? Por que o celular desligado? E já comecei a achar que ele tinha tido uma hemorragia interna ou um hematoma intracraniano e estava inconsciente, num hospital. Tentei controlar o pânico: “Vamos pra Sorocaba, Fabiano. Eu vou com você.” “Mas primeiro a gente tem que falar com ele. A cidade lá é grande. Eu não sei onde ele está.” Era verdade. Então comecei a ligar insistentemente pro celular do Leandro, que estava fora de área. Demorou mais ou menos uma hora e umas noventa e oito tentativas até ele atender. Quando ouvi a voz dele todo o meu autocontrole desabou e comecei a chorar. Acho que foi o alívio de perceber que ele estava bem mesmo. Ele me contou como foi o acidente, mas nem consegui prestar atenção nos detalhes. Falei que o Fabiano queria ir pra lá, mas ele insistiu pra não ir ninguém. Ia voltar pra Uberaba de carona com dois amigos.
Parece que demorou uma eternidade até ele chegar. Mas graças a Deus, chegou. Que alívio, que benção poder abraçá-lo, depois de tanta preocupação, de tanto medo. Fora um corte no supercílio, ele não se machucou. Deus é bom. Além de ter protegido o Leandro no acidente, ainda providenciou duas pessoas generosas pra trazer ele em casa, daquela distância. É nessas horas que vemos que ainda tem gente boa de verdade nesse mundo. O Leandro quis me mostrar as fotos que tinha tirado do nosso carro, mas não tive coragem de olhar.
Hoje de manhã resolvi dar uma olhada nessas fotos. O outro carro envolvido era um Monza, que atingiu de frente a lateral do nosso carro. A frente do Monza ficou simplesmente destruída. O nosso também ficou muito estragado. Um horror. Se o impacto fosse um pouquinho mais pra trás, no nosso carro, teria atingido diretamente o lugar do motorista e o meu marido poderia ter se machucado seriamente. Não quero nem imaginar.
Mais tarde, eu estava trabalhando quando o Leandro me ligou e me contou que o orçamento do conserto do outro carro envolvido no acidente chegou. Bem mais caro do que eu esperava. De repente me senti atingida por toda essa situação. Eu vinha tentando ser otimista, mas nessa hora comecei a pensar em como fui burra de não ter renovado o seguro do carro, e em quantas semanas, quantos meses de trabalho isso vai nos custar. Comecei a pensar nos nossos planos pra roça, coisas de primeira necessidade, que vamos ter que adiar. Me veio uma vontade incontrolável de chorar e tive que disfarçar e entrar no banheiro. Fiquei lá olhando no espelho, vendo meu rosto abatido e pensando em como estou cansada de ser forte, de ser serena. Cansada de tentar ver o lado bom de tudo que acontece. Cansada de sorrir diante das adversidades. De repente me sinto pequena, frágil e injustiçada. Só queria chorar. Chorar e quebrar alguma coisa. Sabe? Jogar na parede todos os objetos que eu encontrasse pela frente? Mas a Realidade não se comove e não se modifica com lágrimas. E se eu quebrar alguma coisa vou acabar tendo que pagar e não estou podendo. Então respirei fundo, lavei o rosto e voltei pra minha mesa, pra continuar trabalhando.
Desculpem, mas hoje o post não tem moral da história. Não tem final engraçadinho. Estou sem forças pra isso. Todas as minhas energias estão concentradas em enfrentar essa visitante que não convidei. Vai dar tudo certo, eu sei. Meu Deus querido não vai deixar que eu me desmantele por causa de um probleminha qualquer. Talvez amanhã, ou depois, eu já esteja achando graça disso tudo. Aí quem sabe vem a Inspiração, que era quem eu queria afinal de contas, e eu reescrevo tudo. Mas por enquanto, é o que temos para oferecer. Tchau.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Adeus, Peter Pan



Fui andando pela estradinha de terra e cascalho, que liga a casa do Luiz Henrique e da Luciene à casinha verde. Passei ao lado da represa, onde uma mãe pata nadava satisfeita, seguida por seus dois barulhentos patinhos. Passei pela grota onde corre um fio de água transparente e borbulhante, quase escondido pela sombra fresca de muitas árvores. Saí dessa sombra para o calor e a claridade azul do céu sem nuvens da manhã, e avistei a casinha verde, com sua cerquinha. O Holofote lá estava, selado, preso a um mourão da cerca pelo cabresto.


Quando ele chegou aqui era só um potro magricelo. Quem não entendesse de cavalos, olhando pra ele só via a rusticidade de um bicho que ficou meses solto no pasto, sem trato. Mas a nobreza do Mangalarga Marchador, a elegância das linhas, o porte gracioso, estavam ali, indiscutíveis, pra quem soubesse ver. Ele cresceu, ganhou corpo, e hoje as qualidades antes sutis enchem os olhos mesmo dos menos observadores. Com vinte e dois meses de idade, Holofote hoje se parece muito mais com o garanhão altivo que será do que com o potrinho delicado que vimos chegar de tão longe. Há duas semanas o Leandro e o Luiz Henrique vêm trabalhando com ele nos exercícios com cabresto, e ontem Holofote foi encilhado pela primeira vez. Com a sela, parece que ficou ainda mais bonito; o vermelho da manta e do cabresto contrastando lindamente com a pelagem tordilha. Ali parado, preso à cerca, com um olhar sereno e o vento despenteando sua crina, era uma cena sublime.


Mas, se vejo beleza, então porque sinto esse aperto, essa melancolia no coração? É que eu estava acostumada a ver o Holofote sempre livre, correndo pelo pasto com seus companheiros mais jovens. Será que existe criatura de alma mais livre do que um potro que nunca foi montado? O mundo era inteiro dele. Vê-lo solto, passando com seu passo marchado, todo agilidade, força e vigor, era de emocionar. Mas, agora... agora acabou a infância. Agora ele vai se acostumar a ter uma sela no dorso e um bridão na boca. Aos poucos vai aprender a obedecer aos comandos das rédeas, ao invés de seguir apenas seus impulsos e vontades. Quão triste é isso? Isso de deixar de ser selvagem? De deixar de ser criança?


Crescer é um pouco triste mesmo. É muito bom e muito necessário. Mas dói. Dói deixar pra trás a liberdade descompromissada de fazer o que se quer, quando se quer. Talvez por isso a gente não cresça com naturalidade. A gente reluta. Quer ser pra sempre selvagem. Não vai ficando civilizado assim, sem mais nem menos. Resistimos, às vezes com sofrimento, às vezes até com violência, e vamos deixando pedacinhos de nós mesmos pra trás, nessa batalha. Quem nunca foi adolescente que tente dizer o contrário. No fim do processo, surge um ser diferente, lapidado. Melhor? É... acho que melhor.


A verdade é que, mesmo sendo difícil, esse processo de doma é inevitável. O potro xucro é lindo e feliz. Mas só isso. Não tem serventia. E na roça tudo e todos têm que ser úteis para algo. O cavalo domado é útil. E pode muito bem continuar lindo e muito feliz. Depende do domador ensinar a ele que essa parceria com o homem não é assim tão complicada e pode até ser bem divertida. Só que ensinar não é fácil. Cansa e às vezes irrita. É por isso que admiro demais a paciência do Leandro pra trabalhar com os bichos. Repetindo um exercício muitas vezes, até o cavalo entender. Elogiando os acertos, corrigindo os erros com gentileza, mas também com firmeza. Conduzir um ser indomado pelo caminho do aprendizado, sem criar nele medos e ressentimentos, é um desafio enorme, seja esse ser cavalo ou gente.


Pra vocês entenderem como a coisa é complicada, vou dar alguns exemplos no campo da “doma de gente”. Acho que a minha casa é um ótimo exemplo de desafio de doma. Imagine-se no lugar da minha mãe: uma mulher que trabalhava fora em período integral e, quando chegava em casa, encontrava uma renca de criaturinhas completamente “xucras” e indóceis. Minha mãe é uma neta de italianos, muito expansiva e um pouco dramática, de alegrias fenomenais, mas também de iras homéricas. Nunca economiza nas risadas e muito menos nos palavrões. Delicadezas não são com ela. Ou seja, eu e minhas irmãs não tivemos uma “doma racional”. Era meio na bruta mesmo. Uma vez, numa de suas explosões de fúria (que, sejamos justos, geralmente tinham bons motivos, porque a turminha não era fácil), ela gritou com a Raquel: “Sua burra! Retardada! Idiota!” Não lembro o que a Raquel tinha feito de errado pra merecer os adjetivos, mas desde pequena ela não era de se intimidar fácil e emendou: “Mãe, você sabia que o pastor lá da igreja falou que quando você chama uma pessoa de burra, retardada e idiota, é como se você estivesse matando a pessoa?” E a minha mãe, ainda aos berros: “E ele não te falou que quando você fica burra, retardada e idiota você está matando a sua mãe?”


O maior medo que tínhamos era o de fazer ou falar alguma coisa perto da minha mãe que desencadeasse a sua famosa ladainha. A ladainha era terrível. Pior que os beliscões fininhos que ela sabia dar. Por exemplo: conto pra ela que perdi na escola um brinco que minha avó tinha me dado. Antes de eu terminar a frase, começa a ladainha, sempre num suave tom de voz que podia ser facilmente ouvido por todos os habitantes do quarteirão: “Meu Deus do céu! O que é que acontece com essas meninas? Eu falo pra elas toooodo dia! É SEGUUUUNDA, é TEEEERÇA, é QUAAAARTA, QUIIINTA, é SEEEEXTA, SÁBADO, DOMINGO! Todo dia eu falo pra elas tomarem cuidado com as coisas delas, mas não adianta! Não adianta falar toda SEGUUUUNDA, TEEEERÇA, QUAAARTA, QUIIIINTA, SEEEEXTA, SÁBADO e DOMINGO a mesma coisa, que elas não aprendem!” Ou então: ela chega do trabalho e vê que nosso quarto ainda não foi arrumado e continua com seu aspecto habitual de ilustração da teoria do caos. Lá vem, pode preparar os ouvidos: “Eu já falei mais de miiiiiiil vezes pra vocês arrumarem essa porcaria de quarto! Será possível? Eu tenho que falar toda SEGUUUUNDA, toda TEEEEERÇA...” e por aí seguia, interminavelmente.


Um dia desses, minha mãe encontrou uma amiga que não via há muito tempo. A amiga deu-lhe os parabéns: “Mas que maravilha, Mariana! Suas filhas todas se formaram bem, duas passaram em concursos públicos, duas médicas! Que beleza. Você deve ter se esmerado muito na educação delas...” Minha mãe contou essa conversa pra nós, toda orgulhosa, à mesa do almoço de domingo. E aí o Guilherme, meu cunhado: “Mas dona Mariana, a senhora contou pra ela o segredo desse sucesso?” “Que segredo?” “Que a senhora falava na cabeça dessas meninas toda SEGUUUUNDA, TEEEEERÇA, QUAAAARTA, QUIIIIIINTA, SEEEEEXTA, SÁBADO E DOMINGO, pra elas estudarem?” Risada geral!


Já o meu pai era um “domador” de menos conversa e mais ação. Uma vez a Raquel, quando tinha uns oito anos, foi colocar leite num pires, pro nosso gatinho de estimação e esqueceu o litro de leite no chão. Resultado: o gato bebeu do pires e depois passou a lamber o saquinho de leite. Quando meu pai chegou e viu a cena, um litro de leite quase cheio, desperdiçado porque o gato estava lambendo, chamou: “Raquel, vem cá.” Ela foi. E aí ele simplesmente virou o litro de leite na cabeça dela, sem explicações. A menina saiu correndo e chorando, e o meu pai correndo atrás e derramando o resto do leite, até acabar, na cabeça da infeliz.


Mas apesar desse sistema meio bruto (ou talvez até um pouco por causa dele) acabamos nos tornando pessoas crescidas, guerreiras e felizes. Uma sequelazinha ou outra ficou, com certeza. Certiiiinha, certiiiiinha mesmo, nenhuma de nós quatro é. Mas o que importa é que entre mortas e feridas salvaram-se todas.


Para domar um ser selvagem, também é muito importante saber usar a estratégia ao invés da força bruta. A dona Isabel sabe bem disso. Certa feita, o Fabiano, pré-adolescente na época, fez alguma coisa que merecia um castigo. Minha sogra, do alto do seu um metro e meio, deu-lhe uma bronca e resolveu que era o caso de usar de Psicologia. Psicologia era o apelido de um tamanco de madeira que ela tinha. Quando o Fabiano viu a mãe tirando o tamanco, percebeu que a coisa era séria e saiu correndo. Dona Isabel encurralou o fugitivo na cozinha, mas ele começou a correr em volta da mesa. Depois de umas cinco voltas na mesa, minha sogra viu que, com suas perninhas curtas, não ia alcançar nunca o menino. O que fazer? Estratégia, meus amigos! Ela mirou e... Vapt! Arremessou o tamanco, pregando a mão do Fabiano na parede com tanta técnica que, reza a lenda, o dedo que foi atingido é meio amassado até hoje. Acho que ela foi a inspiração daquela história das Havaianas de pau... Mas também criou uma família linda, unida e amorosa.




Voltando aos cavalos, o que me entristeceu quando vi o Holofote amarrado lá na cerca foi pensar que uma parte dele vai se perder. A parte selvagem. Aqueles pulos ferozes que ele deu, na primeira vez em que sentiu o arreio no lombo, e que puseram todo mundo pra correr do curral, nós não vamos ver mais. Não vamos vê-lo mais se levantar nas patas traseiras, brandindo as dianteiras no ar, em furioso desafio. Mas essa parte bravia era o que nos mantinha a distância dele. Era bela, mas era uma barreira. Era medo. Iniciado por mãos zelosas (sem Havaianas de pau!) ele vai continuar com seu temperamento exuberante, mas vai se tornar também amistoso. Deixa de ser perigoso, mas mantém o calor e o entusiasmo. Seria maravilhoso se todos conseguíssemos seguir esse caminho: crescer sem nos desvirtuarmos. Ganhar conhecimento e experiência sem perder de todo a inocência. Não carregar mágoas e medos, mas somente as alegrias do aprendizado. Encontrar o equilíbrio entre civilidade e um pouquinho de rebeldia, que nunca fez mal a ninguém. É um caminho acidentado, que não acaba nunca, mas pretendo trilhar por ele a cada dia, do jeito que minha mãe me ensinou: toda SEGUUUUNDA, e TEEEERÇA, e QUAAAARTA, QUIIINTA, e SEEEEXTA, SÁBADO, DOMINGO!