quinta-feira, 21 de junho de 2012

Nasce a casinha verde

Comecei a ler aquela série “Crônicas de Gelo e Fogo” e não consegui mais parar. Mas depois de literalmente milhares de páginas e de o desalmado do autor ter dado uma de serial killer e assassinado, sem piedade, vários dos meus personagens favoritos, finalmente terminei o quarto volume. Agora, sem a galera de Westeros pra me distrair, posso voltar a escrever um pouco. Então vou aproveitar esses momentos de sossego, enquanto o Leandro tira um cochilo (roncando sonoramente, diga-se de passagem) e a May me faz companhia (ela sentou aqui do lado do sofá, apoiou a cabeça na almofada e está me olhando com uns olhos enormes emuito atentos, esperando um carinho) e vou contar mais uns causos pra vocês.
Vocês se lembram do Haras Fabiano? Era o nosso paraíso na terra, mas tinha algumas limitações. A falta de um banheiro era um dos problemas básicos, mas com o passar do tempo fomos percebendo outros. Como era um pedaço alugado, dependíamos muito do pessoal que morava lá. Até pra ligar a bomba que enchia a caixa d’água, era preciso entrar na casa deles, e a gente ficava meio sem liberdade. Também não tinha espaço suficiente pra gente descansar. Fazer um almoço era difícil. Dormir lá, não tinha jeito.
Então, um belo dia, o Leandro chegou com uma notícia. O Luís Henrique, primo do meu sogro, que mora num sítio perto de Santa Rosa, tinha se mudado pra uma casa maior, dentro da mesma propriedade, e deixado a casinha menor sem uso. Ele então disponibilizou essa casinha pro meu sogro, pra ele reformar e usar pra passar os fins de semana, fazer uns churrascos, beber uma cervejinha, que é coisa muito apreciada pelo sogrão. O Leandro veio me contar isso numa empolgação de quem tinha ganhado na loteria. Mas ao mesmo tempo me prevenindo: “O lugar lá ta meio abandonado... A gente vai lá ver, mas você não pode se desanimar com o jeito que está agora. Tem que imaginar como vai ficar depois de arrumado.” Essa conversa já foi me dando um medinho. Sou uma pessoa muito visual. Se o ambiente é feio, já me entristece e me deprime. Tenho um pouco de dificuldade de abstrair, de fechar os olhos ao real e enxergar o futuro. Bom, mas se ele estava tão empolgado, muito ruim não poderia ser. Eu já tinha ido uma ou duas vezes a esse sítio do Luís Henrique, há muito tempo. Tinha umas lembranças a respeito de um pé de amora que dava umas amoras muito grandes, muito escuras e suculentas. Lembro de comer mãos cheias dessas amoras deliciosas, até enjoar. Lembro também de uma criação de coelhos que ele tinha lá, e de uma vez ter experimentado um coelho cozido, com um tempero maravilhoso. (Falo que sou uma pessoa visual, mas parece que minha memória é gustativa... Só me lembrava das comidas...)
A família toda estava animada com a possibilidade de um refúgio no campo, e só se falava nisso. Mas a dona Isabel, minha sogra, muito prudente, lembrou dos problemas e perigos que poderiam surgir: “Em lugar assim é perigoso ter cobra... Eu tenho muito medo.” E nos lembrou de uma vez, na chácara antiga, em que o Marquinho achou uma cascavelzinha na horta e, com os movimentos mais rápidos que o raciocínio, imediatamente agarrou o bicho, segurando bem próximo da cabeça, pra ela não conseguir picar. Muito satisfeito com a captura, ele veio pedir ajuda pra colocar a cascavel dentro de um vidro ou garrafa, mas quem disse que conseguíamos? A porcaria da peçonhenta não parava de se mexer e o Marquinho descobriu que não podia soltar o bicho, senão ia ganhar uma mordida antes de conseguir afastar a mão. Depois de um tempo, ele já estava desesperado: “Gente, minha mão ta ficando dormente! O que que eu faço?” “Solta ela, Marquinho!” Mas quem disse que ele tinha coragem! Foi uma peleja até ele resolver jogar a pobre cobra longe. Bom, mas aí falei pra dona Isabel que seria bom se a gente pudesse ter soro antiofídico disponível, pro caso de algum acidente com cobra venenosa. Ela perguntou o que era esse tal soro, e expliquei que era uma injeção, que a gente pode aplicar no caso de alguém ter sido picado por cobra, pra combater o efeito do veneno. Dona Isabel franziu a testa, abriu a boca, mostrando seus dentinhos separados, que lhe dão um ar de menina levada, e perguntou desconcertada: “Mas, como? Aplica na cobra? E se a gente não achar a cobra que picou, como que faz?” Minha sogra normalmente é muito engraçada, mas nesse dia ela se superou! Cheguei a ficar com dor na barriga de tanto rir!
Cobras à parte, combinamos de ir conhecer a tal casinha. O Leandro e eu percorremos vários quilômetros de estrada de terra no nosso valente Palio, passando por mata-burros e precárias pontezinhas de madeira que custei a acreditar que suportariam o peso de um carro. Depois de o pobre Palio já estar coberto com uma generosa camada de poeira, chegamos a uma casinha pequena e meio destelhada, no meio do mato. Mas no meio do mato mesmo. Como já fazia uns meses que estava desabitada, a casa estava praticamente sendo invadida pelo mato. As paredes estavam muito sujas e descascadas e quando entramos na casa, nos deparamos com um caos de objetos velhos que foram deixados pra trás, na mudança: cadernos e livros desfolhados, uma mesa velha, vasilhas furadas... Pronto, já foi me dando a tristeza e uma vontade de sair correndo dali. O Leandro deve ter visto a minha cara de “não to gostando” e me levou pra ver o quintal. Atrás da casinha tinha uma varandinha, e atrás dela um cercado que um dia foi uma horta, mas agora se encontrava totalmente tomado pelo mato. Um pé de chuchu tinha crescido sobre esse cercado e suas folhas e gavinhas secas se emaranharam também num pobre limoeiro e numa frondosa mangueira. Todas aquelas folhas secas me deram uma impressão de abandono, de desolação... Mas o Leandro ficou falando animadamente sobre todas as verduras e legumes que iríamos plantar ali, depois de limpar tudo. Ao lado da horta, vi um velho galinheiro, meio desabando. E o Leandro empolgadíssimo explicando como ia ser a criação de galinhas. Nos embrenhamos mais no quintal, que na verdade era uma pequena mata, onde algumas bananeiras, mangueiras e um pé de cajá-manga disputavam espaço com espinheiros e pés de carrapicho. O pé de amora das minhas lembranças lá estava, mas não cheio de frutas e sim muito murcho, sufocado por um pé de maracujá que cresceu sobre ele. E lá ia o meu marido discorrendo com toda alegria sobre todos os pés de fruta que poderíamos ter ali. No fundo do quintal, ouvi um barulhinho de água e descobri um corregozinho tímido, correndo nas profundezas de uma grota. Perto da água, encontrei uma sensação de paz e umas libélulas azuis tão delicadas que pareciam jóias voadoras. Devagar, então, minha mente começou a desenhar as coisas como poderiam vir a ser. Segurei a mão do Leandro e, enquanto caminhávamos de volta pro carro, vi uma joaninha pousar no braço dele. Logo, outra joaninha passeava pelo meu nariz. Espantei a danadinha, mas já havia outra na minha perna. Dezenas, dezenas de joaninhas voavam por ali, ao nosso redor. E algumas nos acompanharam até dentro do carro. “Será um bom sinal?” pensei. Sempre achei joaninha o bichinho mais simpático do mundo. De qualquer forma, me deixei enlevar pela alegria e pelos planos do meu marido e voltamos pra cidade combinando todas as mudanças que seriam feitas na casinha.
 Logo depois o seu Lázaro pediu para o tio João, irmão da dona Isabel, começar a reforma da casinha. O tio João tem seus cinqüenta anos. É um homenzinho grisalho, pequeno, mas forte, queimado de sol, muito amigável e com uma fala arrastada, meio cantada (às vezes a gente custa a entender o que ele fala!). Ele faz esses serviços de pedreiro, pintor, eletricista, encanador, trazer pessoa amada de volta e descobrir senha de facebook (to brincando!). Mas ele é meio faz-tudo mesmo. Muito conversador, meio enrolado, meio demorado, mas faz! Íamos todos pra lá nos fins de semana, que era quando tio João arrumava um tempinho, e ficávamos dando palpite, uns ajudando, uns fingindo que ajudavam, jogando conversa fora... Na porta da casinha, amontoamos uns tijolos e improvisamos um fogareiro. Em cima, num tacho com toicinho, que o Luís Henrique trazia, fritávamos uma carninha de porco. Bebíamos cerveja meio morna, que geladeira não tinha, e chupávamos mexericas, sentados no chão ou em latas de tinta, enquanto tio João, em cima do telhado, terminava de tirar as telhas velhas e quebradas. O serviço ia beeeeem devagarzinho e toda semana, quando eu chegava lá, tinha a impressão de que as coisas estavam do mesmo jeito... Mas aos poucos foi surgindo um telhado novo de zinco, um reboco novo nas paredes, um cimentado novo na varanda. Eu e o Leandro também trabalhamos duro, capinando a velha horta, arrancando as partes mortas do velho pé de chuchu que tanto me entristeciam, rastelando o chão do quintal e arrancando os carrapichos. Recolhemos muito, mas muito lixo mesmo. Infelizmente tivemos que sacrificar o maracujazeiro (eu não podia deixar ele matar o pé de amora...). Quando chegou a hora de pintar a casinha, instaurou-se uma discussão a respeito da cor. Cada um tinha uma opinião diferente e ninguém cedia. Um queria casinha branca, outro queria azul, outro, cor de terra... Mas no final quem venceu foi o Dudu, então com quatro anos. A casa dele na cidade é verde. E sempre que ele está cansado e quer ir pra casa, começa a falar com vozinha manhosa: “Me leva pra minha casinha veeeeeerde?” Perguntamos pra ele que cor ele preferia e pronto. Nossa casinha de roça passou a ser a casinha verde.
 É uma casinha emprestada, pequenininha, simplesinha, cheia de joaninhas... Ainda tem muito, muito por arrumar nela. Mas já tem muita história nossa ali. Depois conto mais. Agora vou ter que acordar o Hunter, que está dormindo aqui no chão, mas acho que está tendo um pesadelo, coitado, resmungando e mexendo as patinhas. E a May, coitada, dormiu sentada, ta “pescando”, parecendo com a dona dela na época da escola, nas aulas de Bioquímica... Vou por esses dois pobres pra dormir na caminha deles. Até a próxima!