segunda-feira, 16 de julho de 2012

Álbum de fotos




O calanguinho que mora na minha horta


Nesse fim de semana, o amigo Lincoln e sua maravilhosa câmera fotográfica nos visitaram na casinha verde. Ele tirou fotos tão boas de alguns habitantes de lá que não resisti a fazer um post só de fotos, mesmo arriscando a ficar meio com cara de coisa de facebook. Alguns desses bichinhos são frequentadores assíduos do quintal, mas outros a gente não vê todo dia por lá. Aparecem só de vez em quando. Parece que adivinharam que ia ter sessão fotográfica nesse dia. Alguns até fizeram pose...

A misteriosa alma-de-gato



O orgulhoso canário

Camarás do meu jardim

O curioso pica-pau



  
O inimigo do espelho




Briguento, eu?



Saíra esfomeada



O marido da saíra esfomeada

Será que vai sobrar algum mamão pra mim?


Trinca-ferro



Ainda bem que ele não gosta de alface...

Tico-tico



O tímido mutum



A enxerida seriema
 
 E a barulhenta curicaca



 
Petit


Baixinho, o yogue, fazenndo a saudação ao sol



Canarinho-da-terra no pé de limão

Família de canarinhos
E pra terminar, a minha querida Morena. Olha só como ela está barriguda. Daqui a pouco tem filhotinho no pedaço!
  















segunda-feira, 2 de julho de 2012

Le Petit

_ Que nome vamos dar ao carneirinho? _ perguntei, sentada de pernas cruzadas no chão de cimento. O frágil bichinho, deitado no gramado mais adiante, fechou os olhos e levantou a cabeça, muito satisfeito com o calorzinho do sol da manhã.
_Qual é mesmo aquele livro em que o cara tinha que desenhar um carneiro?_ Marisa franziu a testa, pensando. Na mão, balançava displicente a mamadeira que o carneirinho acabara de esvaziar.
Senti um arrepio de indignação por ela tratar com tamanha falta de respeito um livro tão precioso.
_É “O pequeno príncipe”, sua tonta. Não lembra? “Desenha-me um carneiro?” _ e de repente o nome estava ali _ Petit. O nome dele é Petit. Le Petit Prince.
Petit nasceu há uma semana, embaixo da mangueira grande, no fundo do quintal. Cheguei com a Morena de um passeio e fui procurar uma sombra pra ela descansar. Passando por trás da horta avistei a ovelha ali paradinha, embaixo da árvore. Placenta e membranas ainda pendiam dela. No chão, um filhote pretinho como carvão se equilibrava com dificuldade sobre patas trêmulas. Tentei chegar mais perto, devagarinho, pra não assustá-los, mas a mãezinha logo deu um aviso, balindo, pra eu não me aproximar. Demorei um pouco pra ver a manchinha branca se mexendo mais adiante. Petit. “Gêmeos!” pensei encantada.
Sempre nutri uma relação de amor e ódio com as ovelhas do Luís Henrique. A destruição que elas operam nas minhas mudas de laranja e limão e a total incapacidade de detê-las com qualquer cerca feita por mãos humanas me fazem pensar em costela de carneiro ao molho de hortelã. Mas apesar disso, quando um vizinho veio comprar uma pra fins culinários, me esbaldei vendo o pobre homem correr como um louco atrás delas e desistir, arquejante de cansaço e coberto de lama, depois de vários tropeções e tombos. As ovelhas baliram triunfantes, ao longe, e eu ri por dentro, satisfeita e aliviada com a incomum vitória dos mais fracos e inocentes. Mas os bebês gêmeos, carvão e neve, me fizeram esquecer essa ambigüidade de sentimentos. Fiquei completamente apaixonada por eles.
Três dias depois do nascimento dos bebês, quando o Luís Henrique foi buscar a nova família no nosso quintal e levar pra casa dele, percebeu que o carneirinho preto, uma fêmea, pulava e brincava satisfeito, enquanto o branquinho, menor e muito mais magro, mal conseguia manter-se em pé. Surpreso, viu a ovelha mãe repelir o pequenino com uma cabeçada nada gentil quando ele tentou mamar. O que poderíamos interpretar como crueldade, na verdade é uma estratégia de preservação. A mãe ovelha, percebendo que um dos filhotes era mais fraquinho, deu preferência para o mais forte, com mais chances de sobrevivência. E resolveu não desperdiçar leite com o menor. A Natureza é linda, mas não é muito piedosa.
Luís Henrique não viu outro remédio senão separar Petit da mãe e da irmãzinha e passar a dar-lhe mamadeiras de leite de vaca diluído com água. O problema é que o pobrezinho mama pequenas quantidades, a intervalos menores ainda. Assim, virou rotina pra ele acordar às duas da manhã com a Laila chamando: “Pai, o carneirinho está berrando...” e ir, tonto de sono, preparar uma mamadeira.
No domingo, Luís Henrique, Luciene e Laila foram trabalhar na feira de Santa Rosa. Petit então ficou sob minha responsabilidade. Busquei-o cedinho na casa deles e vim andando com ele aninhado nos braços. No caminho, encontrei o Neto, que vinha buscar um cavalo, e riu ao me ver ninando o carneirinho. Contei pra ele a breve história dos filhotes e ele resumiu os fatos assim: “Então a mãe preferiu o preto e rejeitou o branco?” “Foi isso...” confirmei. Ele deu um soco no ar: “Yeeeesss!” num surto menos de orgulho racial do que de excesso de espírito competitivo.
Levei Petit para a casinha verde, onde ele passou o dia esgotando o estoque de leite e andando atrás das pessoas pra lá e pra cá, com seus pequenos passinhos inseguros. Petit não gosta de ficar sozinho. Como os adultos não lhe deram muita atenção, adotou Isabelle, enteada do Fabiano, como sua mãezinha honorária. A pequena, que tem sete anos, ficou maravilhada com aquele serzinho delicado e macio, que a seguia por todo lado, berrando por sua presença se a perdia de vista um instante. Logo, porém, percebeu que a maternidade limita um pouco a liberdade. Acostumada a correr e saltitar, ela precisava andar devagarinho para Petit conseguir acompanhá-la e não ficar chorando. Por fim, perdendo a paciência, a menina voltou-se, sacudindo os cachinhos louros, ergueu o carneirinho e saiu pisando duro e suspirando: “Ái, esse carneiro... Dá tanto trabalho...” com ele debaixo do braço.
Luís Henrique também andou perdendo a paciência com o bichinho algumas vezes. Ao entrar no galinheiro para apanhar ovos, tropeçou no carneiro, que tentava subir o degrau pra entrar também. “Ah, não Laila! Tira esse bicho daqui! Mata isso!”, ele gritou. Laila veio, rindo, e pegou o filhote no colo. Mas dali a pouco lá estava o Luís Henrique sorridente, preparando outra mamadeira. Ele tem esse bordão do: “Mata isso!” ou então: “Põe fogo nisso!”, que solta à menor contrariedade. Outro dia íamos atravessar o rio Uberaba a cavalo, num de nossos passeios, e a montaria dele refugou diante do barranco lamacento, recusando-se a prosseguir. Furioso, ele esporeou o cavalo: “Ah, mas eu tenho de matar isso! Tenho de vender pra corte! Bicho sem-vergonha!” Convencido, seja pelas ameaças ou pela ponta da espora, o cavalo resolveu atravessar.
Numa outra vez, ele foi me ajudar a selar a Morena. Ela é meio sistemática, um pouco desconfiada, digamos. Quando ele foi colocar o freio, ela sacudiu a cabeça, recusando. “Ah, égua! Dá trabalho pr’ocê ver o que te acontece! Vou te vender pra corte!” Ouvindo isso, envolvi o pescoço da Morena num abraço e falei em seu ouvido: “É brincadeirinha dele, viu? Ninguém vai te vender não...” Luís Henrique soltou uma gargalhada. “Ah, não! Essa menina conversando com a égua! Só me faltava essa...”
Quem ouve essas explosões do Luís Henrique, não pode imaginar algumas outras coisas que ele é capaz de fazer. Uma vez ele estava ajudando um vizinho a apartar umas vacas pra vender. Um dos cachorros que ajudava na apartação, no afã do trabalho, mordeu uma bezerrinha recém-nascida, fraturando sua mandíbula. Vendo que a bezerra não ia mais conseguir mamar, o vendedor e o comprador decidiram deixá-la ali mesmo, pra morrer. Luís Henrique perguntou então se eles não se importariam se ele a levasse pra casa. Foram várias semanas tratando o bichinho com mamadeira, até o ferimento cicatrizar e ela aprender a pastar. Em outra ocasião ele comprou um cavalo velhinho, velhinho... e doente. Comprou porque o dono não estava alimentando o bicho: já sabia que ele ia morrer. Levou o cavalo pra casa, deu comida, água, remédios... e um fim de vida mais digno.
No fim da tarde de domingo, Isabelle insistia, aos prantos, em levar Petit pra casa, na cidade. Expliquei que não era possível, que ela teria que ir pra escola, e quem ia cuidar dele? Ela disse que não tinha problema: a mãe dela ia cuidar. Falei que carneiro não vive em casa de cidade, tem que ter grama pra comer. Ela prometeu levar graminhas frescas pra ele. Todos os meus argumentos foram derrubados e eu já estava desesperada quando Luís Henrique chegou e conversou com ela: “Minha fia, não se preocupa não, que eu vou zelar do carneirinho direitinho. Semana que vem ocê volta e brinca com ele de novo.” “Então ta bom...” Isabelle foi embora sossegada. Luís Henrique ficou acenando pra ela, com seu sorriso largo. Petit, confortavelmente acomodado em suas mãos calosas, fechou os olhinhos e pareceu sorrir, confiante, pensando no bom futuro que o aguarda: muitos mimos e nada de molho de hortelã.