sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Um pouco sobre Frida Kahlo, El Zorrero, a incrível poddle e o Raio-que-o-parta

Logo que começou a mexer com cavalos e construiu as baias, o Fabiano comprou o Raio, um castrado branco, grande e imponente, mas ruim de sela como poucos. Uma vez o seu João pegou o Raio emprestado e quando apeou, veio manquitolando e puxando o bicho pelo cabresto: “O trote deste ‘animali’ chega adoecer a gente...” Raio é manso e amigável como um cachorro labrador, e tem a energia de um labrador também. Não sabe andar devagar, no passo. Gosta de corridas e galopes, e é preciso ter uma mão firme nas rédeas pra conseguir mudar a opinião dele quanto ao trajeto a ser seguido.  
Nas primeiras vezes em que o Franco e a Regina foram visitar as baias, ela já se apaixonou pelo Raio. Nascida na roça e acostumada com cavalos de variadas índoles, ela não teve dificuldade de montá-lo. Na verdade, acho que o Raio é que não teve dificuldade, porque Regina não faz questão nenhuma de comandar a montaria. O que o Raio queria fazer, ela deixava, e achava graça: “Olha, gente, ele fica andando em círculos! Que cavalo doido!” “Regina, pára com isso e vem pra cá que a cavalgada já vai sair!” “Mas não sou eu, é o Raio que não quer ir...” E no meio da cavalgada, se de repente se ouvisse um tropel, podia saber que era o Raio que resolveu sair desembestado no meio do povo. O Leandro tentou explicar pra ela que, quando se está junto com muitos cavaleiros, é preciso ter mais prudência. Ela concordou. Um instante depois, ouve-se de novo o tropel e o Raio passa disparado, se desviando por um triz de uma égua velha, tirando fino de um pônei, e a Regina em cima rindo e gritando: “Prudência, Raio! Prudência!”  
Pouco tempo e muitas catiras depois, Regina ganhou o Raio de presente do Franco. Acho que esse cavalo nunca teve vida tão boa. Toma banho toda semana, com direito a xampu e condicionador. Ganhou uma sela nova, ligas de trabalho e até um upgrade no nome: agora é Raio de Luz. Aqui a gente o chamava de Raio-que-o-parta, mesmo, coitado, por causa do trote duro e da mania de derrubar o cavaleiro de vez em quando.  
Quando Regina e Franco vêm nos visitar, Franco às vezes vem montando a linda Kiara, uma dócil mangalarga marchador; às vezes a enérgica quarto de milha Predileta; e outras vezes um outro cavalo que esteja amansando. Mas Regina não abre mão do seu querido Raio. Defeito nele ela não vê nenhum. Eu não posso falar nada, porque sou do mesmo jeito com a Morena. Não ligo de ela ser esquentada e nervosinha. Perdôo as mordidas e as espanadas com o rabo (quando perde a paciência comigo ela tenta me espantar como se eu fosse um mosquito!) e não reclamo nem da crina espetada, que condicionador nenhum dá jeito.  
Mas tem outro companheiro da Regina que eu sempre admirei. A Belinha. O pessoal da roça geralmente tem cães de trabalho: os caçadores natos foxhounds, ou blue heelers e border collies que ajudam na lida com o gado e são companheiros nas cavalgadas. Mas quis o destino que a Regina encontrasse na rua uma mestiça de poodle abandonada. Belinha é um bichinho alegre e brincalhão, mas muito obediente. Sua paixão e gratidão à nova dona são tão fortes que devem ter alterado seu código genético. Nunca ouvi falar de um poodle que corre por mais de três horas seguidas ao lado de um cavalo e atravessa rios a nado pra acompanhar o dono. Começamos a chamar a Belinha de border poodle ou brown heeler: a pobrezinha um dia já foi branca, ou champagne, como prefere a Regina, mas hoje vive marrom de terra e lama e sempre coberta de carrapichos. Mas como limpeza não é sinônimo de felicidade, Belinha é uma cachorra realizada. Foi observando a lealdade e a alegria desse bichinho que me veio a vontade e a decisão de ter um cachorro na roça.
A idéia inicial foi do Leandro. Eu fiquei meio com o pé atrás, no começo, porque já temos o Hunter e a May, e arrumar mais um cachorro... Mas a May teve esse problema do câncer de pele e está proibida de se expor ao sol. E o Hunter quando anda três quarteirões começa com uma falta de ar de dar medo... ronca como se fosse um porcão gordo. O Leandro insistiu, pesquisou as características das raças, e resolveu que queria um border collie. Quando, recentemente, o Franco comprou um filhote de border de pelagem totalmente atípica, todo branco, só com as orelhas pretas e uma máscara preta em volta dos olhos, e o batizou, obviamente, de El Zorrero, minha resistência foi ao chão e concordei em irmos atrás de um filhote pra nós. Fiquei tão decepcionada quando soube que todos os irmãozinhos da ninhada do Zorrero já estavam vendidos, que arquivei a idéia do cachorro e decidi esperar mais uns meses pra pensar nisso de novo. Aí uma semana depois o Leandro me liga enquanto eu estou trabalhando no ambulatório: “Amor, tem uma ninhada de borders à venda.” “Meu bem, vamos deixar isso pra depois? Agora a gente ta tentando economizar, não ta?” “É, mas os pais desses cachorrinhos são de muito boa linhagem, depois talvez a gente não ache uma ninhada assim.” “Mas, amor... eu preferia esperar. Não queria gastar dinheiro com cachorro agora...  a gente conversa quando eu chegar em casa, pode ser?” Aí ele usou o golpe fatal: “Tá bom, não precisa decidir agora, então. Mas vamos lá comigo só pra você ver os filhotes?” “Só pra ver?” “Só pra ver.” E eu caí como uma pata: “Então tá.”
Descemos as escadas que levavam ao quintal gramado e de repente me vi cercada por oito bolotas de pura energia coberta de pêlo fofo e lustroso, que pulavam, lambiam e mordiam a barra da minha calça sem parar. Olhei pro Leandro desamparada, e ele, com aquele irritante olharzinho brilhante de triunfo, cruzou os braços e perguntou: “E então, qual você vai escolher?”
Mas até escolher o malvado já tinha escolhido. E sabia antecipadamente que eu ia escolher o mesmo, por motivos diferentes dos dele. Ele queria uma fêmea preta e branca ou tricolor, com pelagem bem típica e pêlo longo. Eu vi a menorzinha da ninhada, a última a nascer, cheia de energia, mas um pouco mais tímida que os irmãos, e com os olhos mais doces do mundo. Peguei a bebezinha no colo e ela aninhou a cabeça no meu pescoço. “Ái, meu Deus... Será que estamos fazendo a coisa certa? Será que ela vai se adaptar com a gente, com os nossos cachorros?” A dona dos cãezinhos, uma loira alta, de jeans e botas de montaria, sorriu, segura: “Claro que sim. Vocês vão ser muito felizes com ela. Só precisam pensar num nome...” “Frida.” Falei, enquanto ganhava uma lambida no nariz, pensando na mexicana tão frágil e tão forte, que pintava uma realidade trágica e colorida, parecida com sonho. “Frida Kahlo. Sempre achei esse nome tão sonoro...”  
Frida me conquistou no momento em que pus os olhos nela, mas parece que a cada dia me apaixono mais por essa coisinha fofa. Não sei se ela vai fazer juz à fama da inteligência da raça. Tenho sérias dúvidas quando vejo ela brigar com o próprio reflexo no espelho, dar cabeçadas no boxe de vidro do banheiro e chorar tentando passar pela cerca de tela, quando só teria que dar a volta pra achar o portão aberto. Algumas coisas ela já aprendeu. Quando o Leandro acorda cedinho pra ir tirar leite, ela o segue satisfeita até o curral. Mas é só se sentir ameaçada por alguma vaca mais brava que volta pra me chamar e me acorda pulando na cama com as patinhas sujas de barro. Não há mais possibilidade de eu dormir até mais tarde! Frida também já aprendeu a nos seguir nos passeios a cavalo e sabe que se ficar cansada é só chegar do lado da Morena e dar uns ganidinhos, pra ganhar meu colo e descansar um pouco na cabeça do arreio. Já sabe que não pode entrar na horta sob nenhum argumento e me espera sentadinha no portão, enquanto eu cuido dos canteiros. 

Meu pai conta de um amigo dele que sonhava em ter um caminhão pra viajar pelas estradas, e poder parar nas beiras dos rios e nadar. Então ele comprou um calção de banho porque aí ficava fácil: só faltava comprar o caminhão. Eu estou mais ou menos assim. A cachorra de apartação eu já tenho. Só falta comprar o gado pra ela apartar! Mas isso é apenas um pequeno detalhe! Por enquanto ela pode ir treinando com o meu vasto rebanho de seis bezerros e a vaca Matuta. Êita nóis!


terça-feira, 28 de agosto de 2012

It's not about the money

John Steinbeck, chamado o mais americano de todos os escritores, criou um sábio e apaixonante personagem chinês chamado Lee, que acho que foi meio que inspirado em Jesus Cristo. Dessa releitura da história de Caim e Abel, que é o romance A leste do Éden, pesquei esse fragmento (ou fui pescada por ele!) que é um pensamento de Lee, e que ficou martelando na minha cabeça essa semana:

"Pensou em Sam Hamilton. Havia batido em tantas portas. Possuía tantos projetos e planos e nenhum lhe dera qualquer dinheiro. Mas, naturalmente, ele possuía tanto, era tão rico. Não era possível dar a ele mais do que já tinha. Riquezas parecem favorecer os pobres de espírito, os pobres de interesse e alegria. Na verdade, os ricos são um pobre bando de filhos-da-mãe. Ficou pensando se isso seria verdade. Eles agiam como se o fossem certas vezes."

Às vezes sou assaltada por uma terrível falta de paciência para esperar a realização dos meus sonhos e projetos. E fico pensando que se pelo menos tivéssemos mais dinheiro... tudo seria bem mais fácil. Nossos sonhos, meus e do Leandro, não são nem tão caros nem tão complicados assim, mas de todo jeito têm um custo. Junta-se a essa falta de paciência uma revolta com o fato de que eu e ele trabalhamos muito, em atividades de alta responsabilidade, estressantes, e com remuneração que considero injusta. E pra completar, ainda vejo gente burra e incompetente e, pior de tudo, gente ruim, maldosa mesmo, recebendo ótimas oportunidades e se dando bem profissionalmente.

Mas aí penso no quanto a gente já é feliz. Se nessa fase de planejamento e incertezas já temos tantas alegrias, imagine nos tempos que virão. E, riqueza por riqueza, prefiro a riqueza da nossa união, da nossa cumplicidade, de ter um marido inteligente, que sabe entender meus olhares e decifrar meus mistérios, que é divertido, palhaço quando preciso rir, sério quando preciso de um ombro pra chorar, generoso de verdade, que ama trabalhar, que ama se divertir, que sonha, que paga o preço e assume a responsabilidade dos seus projetos, que tem uma honestidade férrea, que honra suas amizades, que honra nosso casamento. É verdade... somos tão ricos... de espírito, de interesse e alegria. E com as dificuldades temos crescido e aprendido. Os planos são mais cuidadosos, mais meticulosos, quando não se tem muito dinheiro. E a alegria da conquista será maior.

E quanto aos ricos de dinheiro apenas, esse pobre, pobre bando de filhos-da-mãe, que se consolem com o seu dinheiro e o aproveitem bem. We don't need your money!
 


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Destino

Meu vício em leitura às vezes me leva a atitudes extremas. É só demorar um pouco pra ir à casa da Raquel, que é minha fornecedora oficial de livros emprestados, pra começar a devorar tudo o que estiver à mão. E assim acabo lendo coisas totalmente nada a ver, como “O Gene da Matemática”, que a Marisa usou no ensino médio e estava dando sopa na estante dela, ou “Aspectos da Psicanálise”, da época que minha mãe fazia faculdade. Se não achar nada, mas nada mesmo, posso chegar ao cúmulo de pegar um livro didático de História ou Geografia, da minha época de colegial. Isso porque prometi pra mim mesma parar de gastar horrores nas sessões de livros do Submarino e das Americanas. (Que saudade daqueles pacotões de livros, com cheirinho de novos, chegando pelo correio! Bons tempos...) Mas esses extremos de leituras esquisitas são exceções. (Lembrei de um paciente lá do Hospital Escola. O acadêmico estava fazendo a história clínica dele e perguntou: “O senhor bebe álcool?” E ele: “Só quando acaba a pinga.”) A Quênia uma vez fez a sábia observação de que a vida é muito curta pra gente conseguir ler tudo o que existe de bom, então pra quê perder tempo lendo o que é ruim ou mais ou menos?  Então normalmente eu faço uma lista de livros que realmente tenho vontade de ler, e vou garimpando atrás deles na biblioteca municipal, na casa da Raquel ou da Rô, ou em sebos.
Uma fonte de bons livros que ainda não consegui esgotar é a biblioteca que o tio Ademar deixou. A coleção ocupava um cômodo de uns 20 metros quadrados, se espalhando por infindáveis estantes que iam do chão ao teto. Nessas estantes, ao lado de numerosos volumes sobre lingüística, sintaxe e gramáticas as mais variadas (o tio era professor de Português), podia-se achar a obra completa de Érico Veríssimo, Jorge Amado, Machado de Assis e Drummond. Foi nessas estantes que encontrei, aos oito anos, o encanto do Sítio do Pica-Pau Amarelo, nos vinte e quatro volumes do Monteiro Lobato, que tanto li e reli que acabei ganhando de presente depois. E foi lá também que, na adolescência, fui apresentada a Raquel de Queiroz, Jorge Amado, Cecília Meireles e tantos outros. Sempre que íamos visitar os tios eu dava um jeito de me esgueirar pra esse cômodo mágico da casa. Entrava lá caminhando na ponta dos pés, com a sensação de estar invadindo um lugar sagrado, e era envolvida pelo odor de couro das poltronas e um leve cheiro de tabaco, dos cinzeiros que a tia Iêda mantinha impecavelmente limpos. Nas paredes, uma cópia do Dom Quixote de Picasso e um imenso tabuleiro de xadrez de madeira (foi nele que o tio Ademar me ensinou o jogar). Imponentes no alto de suas estantes, as centenas e centenas de livros me observavam com olhos invisíveis. Eu percorria delicadamente com o dedo as lombadas, com medo de despertar algum gênio adormecido que guardasse aquele tesouro. Enciclopédias, dicionários, uma gramática da língua tupi, e de repente “bam”: Capitães da Areia, ou Memorial de Maria Moura. Na hora de ir pra casa, minha mãe me procurava e me encontrava deitada no chão, mergulhada na Salvador dos anos 30 ou no sertão nordestino do século XIX.

Quando o tio faleceu, a tia Iêda se mudou da casa grande de bairro pra um pequeno apartamento no centro da cidade, que não comportava a extensa coleção de preciosidades que ele juntou durante toda a vida. Os filhos levaram pra suas casas as obras que mais gostavam, mas ainda sobrou uma infinidade de livros que ia acabar vendida pra sebos ou doada pra reciclagem. Na semana em que a tia Iêda ia se mudar, fui convidada pra ir à casa dela com meus pais e minhas irmãs, pra ver se tinha algum livro que quiséssemos levar pra nós. Chegando lá, eu imediatamente corri pra abraçar a coleção do Érico Veríssimo. “Graças a Deus... O tempo e o vento, os sete volumes, ainda estão aqui!” Pensei, apertando os livros contra o peito e tentando equilibrá-los no colo. Meu pai, bibliófilo e escritor, olhava pras pilhas de livros no chão, e pros já encaixotados, com tristeza. Balançava a cabeça, inconformado com aquele massacre iminente. Parecia estar vendo uma fileira de inocentes condenados à morte ou ao exílio. Não se conformou com essa injustiça e adotou a biblioteca. Desalojou a sala de estar da casa dele, deu um fim num jogo de sofá, numa TV e num rack, passou uma semana instalando prateleiras e de repente a biblioteca estava lá, respirando aliviada, salva. Tia Iêda também respirou aliviada. Porque acho que o convite pra nós irmos lá, os livros no chão... era tudo parte de um plano.
Com a biblioteca na casa dos meus pais, eu tive mais tempo pra procurar e encontrar livros bons de verdade. E foi lá que descobri, um tempo atrás, uns volumes muito antigos de Victor Hugo. Li “Os trabalhadores do mar” e fiquei deprimida um tempão, pensando se o mundo é realmente tão cruel como ele pinta. E mês passado, esperando a Rô terminar de ler o quinto volume das “Crônicas de Gelo e Fogo”, dei por mim enveredando por uma Paris medieval, com “O Corcunda de Notre Dame”. Fiquei tão revoltada com o final que sonhei com a história. Ou melhor, com a minha própria versão moderna da história. No sonho eu era a cigana Esmeralda e tinha mudado de nome e de país pra fugir da forca, e tinha uns agentes da CIA atrás de mim. Ah, e no sonho a cabra Djali, do livro, era a minha cachorrinha Frida Kahlo! Só eu mesmo... Bom, mas bobagens à parte, o livro me fez pensar muito sobre o tal do destino. Porque a história é assim: um monte de coincidências, de fatos que por um triz poderiam não ter acontecido, encontros e desencontros que acabam levando ao triste desenlace. A gente fica pensando: “Se ela não tivesse gritado nessa hora...” e “se ele não tivesse tido essa ideia logo agora...” Mas, como um dos personagens diz, é a história da aranha e da mosca que cai em sua teia. É o destino. A fatalidade. Factum. E não se pode escapar dele. Como a mosca na teia: quanto mais ela se debate pra se livrar, mais emaranhada fica. Será que é assim mesmo?
Fiquei pensando nisso por causa da tragédia dessa semana. Perdemos nossa querida Florencinha. A nossa doce e meiga eguinha felpuda. Não consigo parar de pensar nas várias possibilidades que houve de evitar o acontecido. Se o Fabiano não tivesse resolvido dar banho nela naquela hora... Se ele não tivesse deixado ela amarrada bem naquele lugar da cerca... Se já tivéssemos separado a Morena em outro piquete, agora que já está tão próxima do fim da gestação... Se eu tivesse levado a Morena pra passear ou levado as cenouras dela um pouco antes... Um monte de “se”, que não pára de me atormentar. Mas o fato, a fatalidade é que ela se foi.
A Lu, cunhada do meu tio, estava grávida de três meses e teve um aborto espontâneo essa semana. Tentando conter as lágrimas, ela foi explicar pro seu filhinho de cinco anos que o irmãozinho que ele esperava não ia mais chegar. E o Pedro a abraçou e saiu com essa: “Fica triste não, mamãe, é que Deus tem muita coisa pra fazer. Pensa o tanto de gente que ele tem pra olhar. Vai ver que ele tava ocupado, não deu pra ele cuidar do irmãozinho.” Fiquei “de mal” com Deus por um tempo, por causa da Florença. “O que custava o Senhor evitar isso?” falei pra Ele. “Ela estava tão saudável, tão bem cuidada... E aí um coice, uma perna quebrada, e tudo termina assim, desse jeito horrível? E não me venha com a desculpa de que estava ocupado, não, que comigo não vai colar.” Fiquei com uma raiva imensa da Morena . Essa semana não teve cenoura e nem passeio. E de um jeito estranho também consegui me sentir meio culpada, por ser dona da Morena...
Com muita paciência, Deus foi me explicando que tem tristezas que fazem parte da vida, mesmo. Que não adianta eu espernear e reclamar: tem coisas que não posso controlar. Muitas vezes fazemos tudo certo e o resultado é todo errado (ou pelo menos errado aos nossos olhos limitados). Que depois de tanto tempo nessa profissão que lida com nascimento e morte, com o ciclo da vida, já era pra eu ter aprendido a não sofrer tanto diante de finais tristes. Mas a morte é um negócio que a gente não acredita de verdade que existe, até ela nos dar um safanão. A gente passa um tempo atordoado, assustado... aí o tempo passa e a gente esquece de novo que ela existe. Acabei fazendo as pazes com Deus.
Destino ou não, essa foi a nossa primeira perda aqui na roça e ficou um gostinho amargo. Mas ao mesmo tempo tem muita coisa boa acontecendo. Uma delas é o novo membro da família: a Frida, uma fofura de Border Collie que, estamos desconfiados, pode ser que seja o exemplar mais burro da raça mais inteligente que existe. No próximo post conto um pouquinho sobre essa e outras alegrias. Ah, e nunca, mas nunca mais mesmo eu leio nada do Victor Hugo, nem que eu tenha que ler a lista telefônica ou dicionário de grego... ô francesinho de mal com a vida! Credo!

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Ventos de mudança

Na primeira vez em que eu e o Leandro fomos, a cavalo, até o sítio do Luís Henrique, não sabíamos direito o caminho. Fomos andando por estradinhas de terra, passando por pontezinhas precárias de madeira, atravessando pastos. Enquanto procurávamos o caminho certo, ele foi me contando sobre o pessoal lá do sitio. Contou que a esposa do Luís Henrique, a Luciene, era gente boníssima, e trabalhava como agente de saúde em Santa Rosa. Eles moravam no sítio desde que se casaram, e tinham uma filha única, de uns vinte anos, a Laila. Na ausência de um filho homem, Laila assumiu as funções de ajudante do Luís Henrique na lida com o gado, ordenha, apartação, enfim... todo o serviço do sítio. Estudava em Santa Rosa, mas nunca morou na cidade. “Ah, eu preciso te avisar...” o Leandro me falou “Toma cuidado com a Laila...” “Tomar cuidado? Mas por quê?” “Ela é um pouco brava. É boazinha, mas quando não gosta de alguém...” “Como assim? O que pode acontecer se ela não gostar de mim?” Leandro coçou a cabeça, por baixo do chapéu de palha: “Então, quando a gente era criança... e ela ficava irritada comigo ou com meus irmãos... ela batia na gente.” “Meu Deus! Mas agora ela é adulta, né? Não deve bater mais nas pessoas!” Leandro fez uma cara de “não sei, não”, e pôs o cavalo a trote. Eu fiquei pra trás, pensando em dar meia volta e ir embora. Já não bastava o risco de ficar perdida no meio desses matos, agora ainda posso apanhar da prima cowgirl nervosa? Já imaginei uma figura fortona, com cara de poucos amigos, mascando fumo e cuspindo no chão. Mas, apesar dos riscos, prossegui. Estava mesmo difícil achar o caminho, então resolvemos parar em alguma chácara e pedir informações. Avistamos uma casinha azul em cima de uma colina, de pintura meio desbotada pelo sol, com varanda na frente e roupas balançando ao vento, num varal. (Preste atenção nessa casinha, ela será importante em histórias futuras.) Como a janela da frente estava aberta, achamos que tinha gente em casa e chamamos “Ô de casa!”, batemos palmas, até cansar, mas ninguém respondeu. Só o vento assoviando pela janela. Toca pra frente então. Paramos na próxima chácara e, enquanto um vira-lata malhado latia furiosamente pra nós, o morador nos explicou como chegar até a casa do “Riquinho”.
Algumas porteiras e mata-burros depois, avistamos a casa grande, avarandada, cercada por árvores-da-fortuna, abacateiros e pés de laranja. Apeei e estava amarrando o cabo do cabresto no mourão da cerca, quando corre pra mim uma moça alta e esguia, de cabelos castanhos ondulados e enormes olhos verdes, com o sorriso mais cândido e luminoso do mundo. Já foi me dando um beijo no rosto e falando: “Que lindo o seu cavalinho! Como é o nome dele? Deixa que eu amarro pra você!” Olhei pro Leandro, levantando as sobrancelhas, com cara de “não acredito! Essa é a menina que te batia?” mas ele franziu a testa e fez cara de “Cuidado! Pode parecer uma fadinha, mas tem um direto de esquerda...”
Luciene nos esperava na varanda, com bolo de fubá e café quentinho, e com o mesmo sorriso largo da filha. Eu tinha uma ideia errada e meio preconceituosa de que toda mulher que mora na roça era pra ser desarrumada, desleixada com a aparência. Imaginava que a Luciene seria uma senhora despenteada, descalça, talvez com um dente faltando! Então fiquei surpresa de ver aquela mulher bonita, de cabelo bem escovado, vestida com jeans justo e camisete e calçada com elegantes botinhas de cano curto.  Logo chegou também o Luís Henrique. Pequeno e magro, com aquele andar meio gingado de peão, um chapeuzinho mole de couro na cabeça, a barba grisalha. Seus olhos verdes, um pouco mais claros que os da Laila, têm um brilho de esperteza. Olhos sorridentes. Conversamos a tarde toda, naquela varanda. Nem vimos o tempo passar. Comemos o bolo e um queijo maravilhoso que a Luciene faz e escutamos os causos do Luís Henrique. De repente a Laila dá um pulo: “Esqueci de apartar as vacas!” E sai correndo, descalça. O cavalo dela, um palomino chamado Silver, estava amarrado na cerca. Ela jogou uma manta no lombo do bicho, desamarrou o cabresto e, enquanto o cavalo já saia a trote, saltou pra cima dele com agilidade circense. Luciene gritou pra ela: “Não vai pôr o arreio nele?” Laila, que já se afastava no galope, olhou pra trás e perguntou: “Pra quê?” com um trejeito espantado, como se a mãe tivesse sugerido a instalação de um air-bag ou de um pára-quedas.
Ficamos por ali ainda um tempo, ouvindo a Luciene contar sobre o trabalho dela como agente de saúde. Ela visita as famílias, reúne informações, ensina, orienta. Às vezes com alguma dificuldade, porque o pessoal mistura muito as crendices com as orientações médicas. “Está melhorando”, ela falou, “hoje em dia o povo daqui tem mais acesso a informação, é mais orientado. Mas de vez em quando a gente tem que rir. Dia desses uma senhorinha veio toda feliz me contar que não bebia mais água da cisterna, porque já tinha ‘poço anestesiano’!”.
Quando resolvemos ir embora, já estava escurecendo. Escurecendo e esfriando. Nesses lugares perto de rio, pode ter feito um calor danado durante o dia, que é só ir entardecendo pra temperatura baixar de repente. Luís Henrique salvou o dia me emprestando uma blusa de frio e nos guiando até uma parte do caminho que conhecíamos melhor. Foi trotando devagarinho, no seu cavalinho baio “duro de sela, mas bão demais de toada”, nas palavras dele. Quando o Leandro ameaçava andar mais depressa, Luís Henrique zangava: “Vamo devagar, Leandro. Quando tem mulher junto tem que ir devagar, pra ela não cansar. Se bem que tem mulher que é mais dura que os home. A Laila é uma... Já vim muito lá de Uberaba até aqui, com ela, no galope, e ela nem cansa. Ê Laila véia... é forte, a danada. Eu andava com ela nesses pasto, atrás de gado, ela pequenininha... às vezes reclamava que tava com frio e eu falava: Minha fia, não fica falando que tá com frio. Pensa que tá fazendo calor, pensa no calor que ocê se esquenta. Tadinha...” Seu semblante era sério, pensativo, decerto se perguntava  se não seria melhor ter dado uma vida de mais conforto pra menina. Mas à luz do luar, vi que seus olhos claros, quase cinzentos, brilhavam de orgulho da filha.
Depois que o Luís Henrique se despediu, eu e o Leandro seguimos lado a lado, às vezes de mãos dadas, pelo restante do trajeto até as baias. A lua estava tão clara que fazia sombras, como se fosse de dia. “Já pensou, amor” ele falou, “Já pensou se a gente viesse morar por aqui, na roça? Quando fizesse uma noite clara assim, a gente ia sair pra andar a cavalo, juntos, e ia ficar olhando o céu, passeando e namorando...” Não, eu não tinha pensado. Mas comecei a pensar. E continuei pensando pelo caminho, ouvindo o ploc-ploc dos cascos na estrada de cascalho, os pios das corujas e os “amanhã-eu-vou” dos curiangos. Pensei, pensei e não encontrei nenhum bom argumento contrário. Até esse momento, as baias, os cavalos, os passeios, eram pra mim uma grande diversão. Não passava disso. Eu não tinha pensado na possibilidade de mudar de meu estilo de vida, de morar num lugar meio ermo, longe das facilidades da cidade. Com o Leandro trabalhando com os cavalos, morar na roça parecia uma alternativa interessante pra ele. Mas e pra mim? O que isso ia significar? “E se a gente viesse morar aqui?” O que ia mudar? Do que eu teria que abrir mão? O que a família, os amigos, o que todo mundo ia pensar?  Mas as dificuldades, as opiniões alheias, as dúvidas foram se dissipando sob o efeito daquele misterioso luar, e voaram para longe, levadas por aquele mesmo vento que balançava as roupas no varal da casinha azul. No lugar delas, uma vontade, uma certeza começou a se enraizar no meu coração. Um plano de vida começou a se delinear, ainda nebuloso, e aparentemente cheio de obstáculos. Mas aprendi nas cavalgadas noturnas que a maioria dos obstáculos não passa de ilusão; são sombras que o nosso medo e insegurança transformam em perigos. Resolvi então seguir as recomendações que o Luís Henrique fez quando saímos da casa dele: firmeza nas rédeas; olhar atento na estrada; nada de pressa, pra evitar tropeços... e enveredei - ploc-ploc-ploc - por essa nova estrada. 

A linda Laila