quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Orgulho, preconceito e couve-manteiga

_ Mas por que, Gi? Você é ótima profissional, tão competente... Por que você não quer abrir consultório?
Quem pergunta, indignada, é minha querida amiga Pri, que fui visitar em sua casa nova em Igarapava. Pri e eu fizemos faculdade juntas, passamos juntas pelo inferno do internato, fizemos residência de GO juntas (só um pouquinho pior que o inferno do internato), rindo uma da outra, ajudando, apoiando e defendendo uma à outra. Éramos inseparáveis. Mas depois de terminada a residência, nossos caminhos foram ficando distintos.
Pri foi pra uma cidade menor. Casou. Teve um filhinho lindo. Abriu um consultório que está sempre cheio. Além do consultório, trabalha em mais uns três empregos. Fez uma super reforma na casa nova que comprou, com direito a piscina, banheira de hidromassagem, área de lazer com churrasqueira e um closet que me deixou de queixo caído. É tão querida pelas pacientes que, quando parou de atender na Santa Casa, teve até manifestação, com faixa pendurada na fachada do prédio e tudo, pedindo pra ela voltar.
Eu até comecei um caminho parecido. Casei. Fui pra uma cidade pequena. Abri consultório e arrumei mais três empregos. Trabalhava de dez a quatorze horas por dia. Tinha agenda cheia no consultório. Era muito elogiada pelas pacientes. Tudo ia bem. Mas então por que eu não estava feliz e satisfeita? Por que vivia estressada e triste? Depois de um ano, surgiu uma proposta de trabalho na Universidade de Uberaba. O salário era pouco menos da metade do que eu ganhava. Pensei, conversei muito com o Leandro e decidi. Fechei o consultório, pedi demissão do emprego na prefeitura e voltei. Depois comecei a trabalhar também em unidades básicas de saúde, atendendo pelo SUS, mas não voltei a abrir consultório. Por quê? Porque amo minhas pacientes do SUS. Adorava as mulheres simples de Delta. Bóias-frias, faxineiras, garis, motoristas, donas de casa, que colocavam suas melhores roupas pra ir à consulta. Adorava ganhar pão de queijo e frango caipira como agradecimento, das pacientes de Sacramento. Também porque o consultório aqui em Uberaba seria um investimento a longo prazo. Os gastos seriam imensos pra montar, e só depois de alguns anos é que começa o retorno, que também não é muito. (Sabe quanto o plano de saúde paga ao médico por uma consulta? Se não, procure saber). Outro porém: quem tem consultório de obstetrícia tem que estar preparado pra atender telefonemas tarde da noite e correr pro hospital a qualquer momento, de madrugada ou nos fins de semana, mesmo que se tenha que largar o marido sozinho num restaurante, no meio de um jantar (como eu já fiz algumas vezes. Coitado do Leandro!). Ou seja: a vida pessoal fica em segundo plano. Tentei explicar isso pra Pri, e rebati a pergunta dela com outra:
_Por que ter consultório, Pri? Por que você acha isso importante?
_Ora, porque é muito gratificante! Pensa bem: a paciente vai lá e paga uma consulta porque ela quer consultar você. Ela poderia ter escolhido outro profissional, mas ela te escolhe, porque confia em você. Eu tenho muito orgulho de ver minha agenda cheia, mesmo com outros médicos bons na cidade.
 Sempre me ensinaram a ser humilde, a fugir da vaidade. Acho horroroso a pessoa se achar o máximo e menosprezar os outros. Mas ter orgulho de alguma coisa boa, do que a gente faz bem-feito, é muito saudável e até necessário. A Pri é uma profissional excelente mesmo, e tem mais é que se orgulhar disso. A agenda cheia é uma espécie de termômetro do quanto ela é querida e requisitada.
Fiquei pensando nesse negócio de orgulho... Acho que se a gente listar as coisas de que tem mais orgulho, dá pra ter uma ideia de quem a gente é de verdade. No meu caso, percebi que as coisas de que mais me orgulho não têm a ver com minha vida profissional. Olha só:
Tenho orgulho do meu trabalho maluco de pintora de paredes, em parceria com a maluca da Marizote. Por causa dessa maluquice, a Mel e o Miguelito têm os quartos de criança mais fofos que eu conheço.
Tenho orgulho de ter tido a pouca vergonha de voltar pras aulas de piano, depois de velha. Me sinto o máximo andando por aí com um monte de partituras debaixo do braço, e nem me importo de levar umas broncas do professor de vez em quando. É muito engraçado, porque o meu professor tem pouco mais que a metade da minha idade, e as espinhas e o aparelho nos dentes o fazem parecer ainda mais novo, mas é exigente como ele só: “Que andamento é esse, sua doida? Bethoven deve estar se revirando no túmulo!” E: “Esse mi é bemol! Pelo amor de Deus!” E slapt, um tapa na minha mão. E muito bravo: “Faça o favor de cortar essas unhas! Elas estão escorregando nas teclas. Você acha que tem jeito de andar de skate de salto alto?” Mas a que mais me assustou foi: “Presta atenção na cifra e pára de olhar nota por nota! Mas é uma filha da pauta, mesmo!”
Tenho orgulho de ter diminuído drasticamente a produção de lixo aqui de casa, levando tudo que é  lixo seco pra reciclagem, mesmo que meu carro às vezes fique entulhado de caixas e sacolas, e fazendo adubo orgânico com os restos da cozinha. Tenho mais orgulho ainda de ter contagiado um pouco de gente com o meu radicalismo ambiental: é muito legal ver a minha sogra separando o lixo direitinho e perguntando: “Isso aqui é descartável?” (Ela confunde descartável e reciclável!) Ou então ver alguém gritando no meio da cavalgada: “Você jogou latinha no chão? Espera aí que vou contar pra Giselle.” E o acusado se desculpar correndo: “Não! Pode deixar que eu já vou catar!” Ou, durante um churrasco na beira do rio, a Regina pedir: “Gente, não joga papel no chão, não! A Giselle é seletiva! Olha aqui a sacola de lixo e a de recicláveis que ela organizou!” O que será que é ser seletiva? Não importa! O importante é não emporcalhar a natureza.
Tenho orgulho de saber que Kandinsky não é nome de perfume, Caravaggio não é modelo de carro, Botticelli não é marca de sapato, Ticiano não é o estilista do momento, Vermeer não é um aplicativo de iphone , Donatello não é só uma tartaruga ninja e Degas não é nome de boteco. 

Tenho orgulho do meu mini-clube do livro: o pessoal do ambulatório, de tanto me ver com livro pra lá e pra cá, começou a me pedir livro emprestado. Adoro ouvir a Natália, da recepção, reclamando: "Doutora, estou sem livro essa semana! Lembra de trazer um pra mim amanhã?" E o Keli, vigilante, que nessa brincadeira já leu desde novela policial até o clássico O sol é para todos, perguntar qual vai ser o próximo, porque ele já está terminando as Crônicas de Nárnia.
Tenho orgulho do meu casamento feliz. Orgulho de estar superando um monte de medos e preconceitos pra embarcar numa mudança de vida.
Mas se tem uma coisa que tem me dado muito orgulho mesmo, essa coisa são as couves. As couves, os brócolis, as acelgas. E as rúculas. Não podemos esquecer as rúculas! Calma, vou explicar. Já contei que quando vim à casinha verde pela primeira vez, encontrei um cercado meio tosco de lascas de aroeira centenárias, encimado por uma tela de arame toda torta sob o peso de um selvagem e ressecado pé de chuchu. Dentro do cercado, uma selva. Um monte de mato simplesmente impenetrável. Sério, se eu encontrasse lá dentro uma onça pintada ou o elo perdido, eu não ia achar estranho. Esse cercado era a horta.
Medi o perímetro do cercado, pra poder comprar uma tela nova. O tio João era o arquiteto-engenheiro-mestre-de-obras de plantão. Falei pra ele: “Tio, são doze metros de comprimento e cinco de largura.” Ele coçou a cabeça e falou, com o cigarro equilibrado no canto da boca: “Então... você pode comprar uns cinquenta metros.” “Mas... olha só: são doze mais cinco. Dezessete. Vezes dois: trinta e quatro. Não é isso?” Tio João coçou o queixo. O cigarro apagado milagrosamente equilibrado na boca: “Não, fia. Olha, compra quarenta e cinco.” Não lembro se eu tava de TPM nesse dia, mas pode ser que sim. “Tio João, pensa comigo: doze metros, mais cinco, mais doze, mais cinco: trinta e quatro!” Ele franze a testa. Coça o nariz. Pega um graveto, fica de cócoras e começa a rabiscar uma continha no chão. Jogo as mãos e a trena pro alto, em sinal de derrota. Acabei concordando em comprar quarenta metros de tela.
Todo mundo ajudou. O Rubinho capinou. Ele e o Luis Henrique formaram os canteiros. O Leandro, eu, a Marisa, e até as pequenas Ana Júlia e Ana Luíza plantamos as mudas. Marquinho, Neto e Jean ajudaram a esticar a tela nova. Luciene e Laila ajudam a regar todos os dias. Temos alecrim, coentro, manjericão italiano, salsinha e cebolinha, pimentas variadas, mostarda, almeirão, cenouras, tomate cereja, jiló e uma moita gigante de hortelã que o Leandro quer porque quer podar e eu não deixo porque acho linda e cheirosa demais. Pra adubar, usamos só esterco e compostagem. Nada de venenos ou agrotóxicos. Há alguns dias apareceu uma praga de pulgões nas couves e as lindas folhas de repente ficaram roídas e enroladas. O Leandro quase sucumbiu à tentação de usar um “defensivo”. Era isso ou arrancar as couves antes que a praga se espalhasse. Saí louca pesquisando uma alternativa na internet. E eis que surge a salvação: uma mistura de álcool, cascas de alho e cebola, água e sabão. E muita paciência pra esfregar folha por folha. Valeu a pena. As couves sobreviveram e estão lindíssimas. É ou não é de estourar de tanto orgulho?
Pintando o quarto de fundo do mar do Miguel

A horta depois da primeira capinada

Essa tela embolada parecia impossível de tirar


Começando o plantio


O resultado

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A guinada

Assim que a casinha verde ficou em condições de uso, depois da reforma by Uncle John, que incluía um encanamento com tantas emendas que mais parecia uma colcha de retalhos e portões que faziam questão de não ter nenhum ângulo reto, começamos a mobiliá-la. Fomos levando um sofá velho que estava lá nas baias, uma geladeira velha que uma das tias doou, um fogãozinho industrial de duas bocas que era da minha mãe... O Leandro instalou umas prateleiras. Dei uma limpeza num velho carretel gigante, destes de cabos elétricos, e ele virou uma mesa. Como não tinha muito espaço, instalamos uns suportes pra guardar selas no nosso quarto mesmo. Ficou bem prático, porque podíamos passar as selas pela janela, pra selar os cavalos ali mesmo, mas o quarto ficou com um cheirinho de suor de cavalo que vou te contar!
A ideia era que fosse um lugar de lazer. Um lugar pra gente relaxar nos fins de semana. Mas foi mais ou menos nessa época que o Leandro parou de trabalhar com a loja e começou a fazer os cursos de doma. Ele tinha comprado uma égua Quarto de Milha alazã, muito linda, mas muito brava. Lá nas baias, por duas vezes ela arrebentou a cerca no peito e fugiu. Demos a ela o nome de Malagueta, sob os protestos do Luiz Henrique, que explicou ser muito errado a gente dar nome com conotação de ferocidade aos animais, porque aí “o caboclo quando vai montar, já vai meio ressabiado, e o bicho percebe e fica mais atentado ainda.” Mas o Leandro tinha gostado muito do nome e ficou Malagueta mesmo. Ele começou então a trabalhar com a doma da Malagueta, primeiro lá nas baias do Fabiano, e depois na casinha verde. Passava o dia todo lá, e além do que já sabia dos cursos, foi aprendendo mais com o Luiz Henrique, que é domador antigo, lá da região. Luiz Henrique sempre estava com um cavalo pra domar, pra acertar rédeas, e o Leandro ia ajudando. Assim, foi aprendendo a aliar a sabedoria antiga, os truques e manhas que os anos de experiência trazem, às técnicas e sutilezas da doma racional, ou doma gentil, como agora se fala. Acabou que também ensinou muita coisa pro Luiz Henrique.
O tempo foi passando e a Malagueta foi ficando tão mansinha, tão amiga, que parecia uma cachorrinha. De tão mansa, chegava a irritar. Vinha esfregando a cabeça nos braços, no rosto da gente, pedindo cafuné. Atendia pelo nome quando o Leandro ia chamá-la no pasto, e vinha trotando ao lado dele, sem precisar de cabresto. Foi ficando também muito boa de rédeas, “leve de boca”, como o pessoal de lá diz. Em pouco tempo apareceu uma proposta de compra e foi com muita tristeza que vi a doce Malagueta ir embora.
Mas o pessoal começou a comentar sobre o trabalho do Leandro e logo um amigo trouxe uma nova missão pra ele: o Terremoto (mais um nome pra entristecer o Luiz Henrique!). O Terremoto era um marchador lindo, que nosso amigo Alfredo comprou, mas que logo percebeu que ia dar trabalho. O bicho já tinha mandado uns peões pro chão e era tão nervoso que só de chegar perto ele começava a bufar e escarvar a terra, como se fosse um touro bravo (daí o nome!). Com muita paciência, o Leandro foi trabalhando com o Terremoto, ganhando a confiança dele... Hoje esse cavalo continua um bicho “esquentado”, que exige certa atenção, mas o Alfredo vai pra cavalgadas, todo orgulhoso, com ele. E apresenta o Leandro pros amigos dizendo: “Esse é que é o psicólogo dos cavalos, que eu te falei.”
Foi aí que o Leandro começou a pensar no trabalho com os cavalos como profissão.  Mas, pra trabalhar, precisava de uma estrutura melhor: redondel, pista, baias... E como fazer tudo isso em um lugar que não era nosso? E ainda por cima tão longe da nossa casa? Era um dilema que não conseguíamos resolver. Mas o pior de tudo é que tínhamos acabado de investir todas as economias e mais um monte de dinheiro emprestado na loja, que nesse momento ainda não dava retorno algum, e que, depois da saída do Leandro, virou a orquestra de um homem só nas mãos do Marquinho, que não quis desistir do negócio de jeito nenhum (nas palavras dele, o projeto da loja era um filho pra ele) e passou a ser gerente, vendedor, planejador, empacotador, entregador, tudo ao mesmo tempo.
De qualquer forma, a casinha verde já tinha se tornado o local de trabalho do Leandro e, como ele passava muito tempo lá, eu acabava indo também, sempre que podia.  Nos fins de semana sempre estávamos lá mesmo, mas comecei a ir também durante a semana e dormíamos lá muitas vezes. De manhã, eu acordava um pouco mais cedo e pegava a estrada pra vir trabalhar. Ir dormir ouvindo apenas os grilos, os sapos na represa e o vento nos eucaliptos, acordar com o canto dos galos, jantar arroz com ovo recém colhido do ninho, alface e rúcula fresquinhas da horta, de repente virou uma deliciosa rotina. Eu me pegava triste sempre que tinha que voltar pra cidade. Pegar a estrada pra ir pra roça começou a ter um sabor de voltar pra casa. Minha família já começava a ficar meio ressabiada com isso, porque eu falava muito, e com muito entusiasmo, das coisas da roça, do novo trabalho do Leandro, e fui ficando com fama de maluquinha. Meio que brincando, minhas primas pediam pra ver minha mão, pra ver se eu estava com calos de tanto capinar, se tinha terra embaixo das unhas. Minha mãe falava que eu ia acabar ficando igual a uma velha conhecida dela, que mudou pra roça e só andava suja, e era até uma mulher estudada, coitadinha...
Mais ou menos nessa época, o Franco, primo do Leandro, personal trainer e um carinha muito descolado, baladeiro e popular, mas que ao mesmo tempo desde menino sempre gostou do campo, namorava a Regina, que é nutricionista (estudada, como diz minha mãe), mas que viveu a infância na roça. Os dois conversaram, pensaram e tomaram uma decisão, aos olhos de muitos, insana: resolveram se mudar para o sítio do pai do Franco. E estavam muito felizes e satisfeitos. Tiveram um monte de dificuldades no início: esquece de comprar pão, pra ver! E até hoje eles passam uns apertos: ir trabalhar de moto, por estrada de terra, em dia de chuva é de matar. Mas tudo é compensado pelo sossego, pelas alegrias dessa vida diferente.  
Bom, aí eu e o Leandro começamos a pensar, a conversar, a pesar prós e contras, e decidimos. Resolvemos dar uma guinada na vida e ir morar na roça. Não foi uma “jogada de tudo pro alto” de alguém cansado demais, estressado ou que simplesmente não tem outra opção. Não foi uma “chutada de balde”, não. Até porque eu estava bem profissionalmente, com dois empregos bons. E o Leandro também não teria muita dificuldade pra trabalhar com outra coisa, se quisesse. Simplesmente pesamos tudo e vimos que seríamos mais felizes e mais realizados assim. Também não era uma loucura tipo: “largar tudo, sem olhar pra trás”. Traçamos todo um plano de ação, até porque precisávamos de dinheiro pra comprar um pedaço de terra, construir a estrutura de moradia e trabalho. Então a melhor solução seria mesmo vender nossa casa.
No dia em que contei pros meus pais essa decisão, esperava mesmo uma certa resistência, mas a reação do meu pai foi um pouco pior do que eu esperava. Ele ficou bravíssimo e falou que eu e o Leandro éramos dois “cabeças leves”, seja lá o que isso for. E que onde já se viu vender uma casa boa pra comprar terra? Que nunca na vida dele ele viu alguém ganhar dinheiro com trabalho rural. “Mas pai, não estamos pensando exatamente em ganhar dinheiro...” Aí é que ele ficou mais nervoso: “Ah, meu Deus! Então vocês estão pensando em quê?” Em ser feliz? Em aproveitar a vida? Como, meu Deus, como explicar isso pra ele sem ele pensar em me internar no Sanatório Espírita? Se isso fosse há alguns anos, eu teria me desmantelado toda e saído da casa dele aos prantos, me sentindo um nada. Mas tem um tempo que aprendi a parar de tentar agradá-lo a qualquer preço. Quando a Marisa prestou vestibular de Medicina e ficou em 41º lugar, sendo que havia 40 vagas, e nós fizemos a maior algazarra dando os parabéns pra ela, meu pai falou: “Não sei por que vocês estão dando os parabéns, se ela não passou.” E ela: “Mas pai, sou a primeira da lista de espera. É claro que eu vou ser chamada.” Ele respondeu: “É, pode ser. Mas você não passou.” Ou seja: não tem jeito. Assim, sorri meu melhor sorriso resignado, mas resisti ao velho impulso de pedir desculpas por ser quem sou e não quem se espera que eu seja. Fui embora um pouco triste, mas muito leve. No dia seguinte a placa de “vende-se” estava na porta da minha casa.  

Meu quarto na casinha verde: a vista da janela compensa o cheirinho das selas!


domingo, 9 de setembro de 2012

É só comédia

Eu tento. Eu juro que tento escrever coisas sérias nesse blog. Não tenho culpa se as palhaçadas teimam em continuar acontecendo. Visualizem a seguinte sequência e vejam se eu não era obrigada a relatar essa comédia:
Franco e Regina voltam pra casa depois de uma visita à casinha verde. Regina em seu inseparável Raio de Luz. Franco em um Quarto de Milha chamado Lorde, que ele está amansando. Belinha saltitando atrás. Param pra abrir um colchete, pouco antes de chegar ao vau do rio Uberaba. Franco apeia, porque o colchete está amarrado com arame e porque o cavalo ainda não sabe encostar. Aberto o colchete, Regina, Raio e Belinha passam e ficam esperando do outro lado. Franco tenta refazer a amarra, segurando o arame com uma mão e o cabresto do Lorde com a outra. Depois de alguns instantes, Regina ouve o trote do Lorde se aproximando e toca pra frente no Raio. Ao chegar à beira do rio, uns duzentos metros à frente, Raio para pra beber água. Lorde para do lado. Regina, distraída olhando a paisagem, começa a conversar sobre as tarefas que eles ainda têm que realizar no sítio: “Então, Franco, lembra que assim que a gente chegar tem que buscar silo pros cavalos, antes de escurecer. Você me ajuda a tratar dos gatos? Ah, e tem que ver se os filhotes da Pretinha estão bem... Franco? Você ta me ouvindo?” Na ausência de resposta, ela resolve olhar pro lado e se depara com o Lorde bem satisfeito, bebendo água, sem cavaleiro nenhum na sela. “FRANCO!!!! Franco, cadê vocêêê???” Assustado com os berros dela, o Raio atravessa o rio em disparada. Lorde e Belinha vão atrás, aos pulos, espirrando água pra todo lado. Chegando à outra margem, ela consegue a custo controlar o cavalo e olha pra trás bem a tempo de ver o Franco descendo o barranco, a pé, furioso e coberto de lama, por entre as moitas de bambu. “Maria Regina! O que você ta fazendo aí do outro lado?” Ele grita, sem dar tempo pra ela começar a rir ou se lembrar de descontar as vezes em que pediu pra ele ajudar a pegar o Raio e ele recusou dizendo que quem perde o cavalo é que tem que ir atrás. “Passa já pra cá com esses cavalos, Maria Regina!” Esclarecendo: enquanto Franco tentava amarrar o colchete e segurar o cabresto ao mesmo tempo, Lorde resolveu que não queria esperar mais e deu um tranco no cabresto. Franco foi então lançado ao chão lindamente coberto de lama e esterco molhado. Foi arrastado por alguns metros, até resolver largar o cabresto. Levantou-se meio tonto e viu Regina, Raio, Lorde, a turma toda, já longe, galopando pelo caminho. Gritou, chamou, xingou de santo e rapadura, e por fim resolveu seguir a pé, atrás. Ao ver aquele ser enlameado e enraivecido, Regina voltou pelo rio pra buscá-lo, levando junto o Lorde. Só não abriu mão das risadas, que duraram quase todo o caminho de volta.
Mas vocês acham que acabou a palhaçada? Não! Ainda tem o caso das abelhas assassinas. No dia sete de setembro aconteceu a famosa cavalgada de Santa Rosa, da qual não pude participar devido a um problema de costela quebrada do Leandro, sobre o qual ainda não consigo contar muita coisa, porque minha raiva ainda não passou totalmente. Enfim, cá estava eu, cuidando de minha linda horta, plantando mudinhas de alface e acelga, com a ajuda da Marizote, quando ouço gritos, tropel de cavalos e risadas e penso: “É o povo chegando da cavalgada.” Antes que eu tivesse tempo de tirar as luvas e o chapelão de palha, pra ir receber o pessoal, ouço o Leandro gritando, estourando de rir: “Amor! Amor, vem cá dar uma olhada no Neto!” Levanto e vejo, por cima da cerca da horta, o Neto. Quer dizer, o corpo, as roupas eram do Neto, mas a cara... O olho direito estava fechado e do tamanho de uma laranja, sem exagero, de tão inchado. A boca... parecia que ele tinha injetado meio litro de silicone no lábio inferior! Estava todo torto, todo inchado! Nunca vi nada parecido. “Meu Deus! O que foi isso?” perguntei. E ele, articulando com dificuldade as palavras: “Abeia...” Aí chega o Franco, morrendo de rir, apeia do cavalo e abraça o Neto: “Você também ta japanese, meu filho?” Olho e vejo que a cara do Franco também está parecendo um quadro de Botero.  O olho direito é só um risquinho . Mais uma vez esclarecendo: no meio da cavalgada, a turma passa pertinho de uma colméia de abelhas Europa, na margem do rio. As abelhas vêem passar um, dois, dez cavaleiros, e vão ficando alvoroçadas. Passam vinte, trinta, o barulho aumenta, alguém grita, um cavalo relincha e as abelhinhas cada vez mais estressadas com aquela perturbação de sua paz. Em certo momento, lá pelo centésimo cavaleiro, elas resolvem que já é muito desaforo e partem para o ataque, formando uma nuvem zumbidora que circula ao redor das cabeças dos cavalos e cavaleiros que ainda estão por ali. Teve gente que saiu correndo, gente que pulou direto de cima da sela pra dentro do rio, sem se importar com o fato de que a profundidade ali é de no máximo um metro de água, e ficou boiando de bunda pra cima. Teve gente, cujo nome não posso citar, que levou tanto susto com as picadas que saiu galopando e peidando sonora e incessantemente, o que colaborou para o pânico generalizado, apesar do argumento de que os gases expelidos eram para espantar as abelhas. Bom, Neto e Franco já estavam lá na frente, a salvo do ataque, quando viram que suas respectivas amadas Fabiana e Regina ainda não tinham atravessado o rio e vinham bem devagarzinho, montadas na quase patologicamente calma Flor-de-lis e na extremamente grávida Kiara (dessa vez o Raio ficou descansando). Imediatamente os dois heróicos cavaleiros voltaram à toda para salvar as donzelas indefesas e entraram na nuvem de abelhas. O engraçado (Neto e Franco não acharam muita graça, é verdade) é que as meninas não foram atacadas. Regina levou só uma picada e Fabiana, nenhuma! Já os dois heróis... O pior é que, no meio do mato, sem um antialérgico nem um analgésico pra tomar, o único remédio à mão pra aliviar a dor das picadas era uma garrafa de pinga “Lenda do Chapadão” que o Franco tinha levado. Resultado: a dor passou, da pinga restou só a lenda, e os dois chegaram aqui um tanto quanto alterados. Segue o que consegui transcrever do diálogo filosófico que os dois travaram, largados na varanda:
Neto: Cara, minha garganta ta esquisita...
Franco: Não se preocupa não... Se precisar pode deixar que eu abro sua traquéia. Se tem uma coisa que eu sei fazer é traqueostomia. (Aqui Franco tira da bainha de couro sua reluzente faca de trinta centímetros de lâmina.)
Neto: FABIANA! Vamos embora?
Franco: Essa faca ta suja. (Limpa a lâmina na calça.) Pronto. Agora ta no jeito pra cirurgia.
Neto: Fabiana... Me leva embora, pelo amor de Deus.
Franco: Véi! Eu to japanese!
Neto: Eu não to bem não. Tô com uma sede esquisita que não passa.
Franco: Mas isso é da pinga, meu fio, é a ressaca. Não tem nada a ver com as abelhas não. Eu tô japanese, moço! Metade pêto, metade japanese! Há, há, há!
Neto: Cara, quem vai dirigir pra levar a gente embora?
Franco: Eu, uai!
Neto: Nesse estado? E se pára numa blitz?
Franco: Se o guarda me parar, cara, eu falo pra ele, eu explico: Seu guarda, eu estudei oito anos da minha vida no Colégio Tiradentes! CT... CN... CTPM! Colégio Tiradentes da Polícia Militar, véi! Eu sei dos meus direitos, dos meus defeitos, dos meus deveres... Moço, tô japanese! Olha aqui meu olhinho, não abre não! Há, há, há!
Neto: Cara, eu preciso comer alguma coisa, nem que seja feno... Fabiana, arruma uma janta pra mim? Eu tô assim por sua causa. Eu fui te salvar... E você lá de boa, no meio das abelhas...
Franco: Neto! ‘Cê ta japanese, meu fio! Nós dois japanese! Mas o meu olho já ta desinchando. É que eu bebi mais pinga. ‘Cê tem que beber mais um pouco, pro álcool diluir o veneno.
Neto: ....... (Dormiu com a testa apoiada na mesa).
Detalhe: o diálogo era constantemente interrompido pelo Leandro: “Gente, pára de me fazer rir! Não agüento mais! Minha costela ta me matando!”
 Não se preocupem. No final das contas o Franco não foi embora dirigindo. Até porque ele estava a cavalo. Mas de qualquer forma ele e a Regina dormiram na casinha verde e foram embora de manhã. Fabiana levou o Neto pra casa. Eu não dormi direito, porque o Lorde e a Kiara ficaram passeando embaixo da minha janela e fazendo barulho a noite inteira. Às cinco da manhã, a Frida começou a ganir pra eu abrir a porta pra ela ir fazer xixi lá fora. E assim termina esse emocionante feriado. Cansada de tanta palhaçada, encerro aqui este post, com a certeza de que, se o riso for realmente terapêutico, estaremos todos saudáveis pelos próximos dez anos. Inté!