quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Só de passagem

Tanta coisa pra contar, mas pouco tempo pra escrever... Nesses últimos dias o Leandro e eu estamos com o coração na mão e com os nervos à flor da pele por causa do plantio do capim. É adubo que ainda não chegou, é chuva que tem que chover no dia certo, é cavalo que aprendeu a passar por cima do mata-burro... Será que vai dar tudo certo? Depois conto pra vocês. Hoje passei só pra deixar essas fotos, que achei lindas (modéstia de fotógrafa à parte, rsrsrs).

Uma é da colheita que fizemos domingo passado. Frutas e verduras fresquinhas e orgânicas, da horta e do quintal. Aproveito pra deixar um agradecimento ao Roger, que ajudou na capina da horta (com as chuvas, o mato anda crescendo na velocidade da luz). Tem que ser amigo de verdade pra enfrentar um sol de rachar e uma enxadinha sem corte daquelas!

A outra é de uma visitante exótica que apareceu por aqui, tão delicada que tive que vencer meu inexplicável, porém muito real, medo de borboletas e fotografá-la.

Abraços e até a próxima!


sábado, 10 de novembro de 2012

Expedição

Se você acha que a vida na roça é calminha e tranqüila... Se pensa que aqui os momentos de lazer são passados balançando na rede, tirando um cochilo embaixo de uma árvore ou mastigando um talo de capim... Sinto te decepcionar. Sossego é uma coisa que não me deixam ter por aqui. Quando penso que vou passar um fim de semana quietinha, descansando, surge um bando de malucos com uma ideia mais cabulosa que a outra. Mas como é o meu bando de malucos, todos muito queridos, e como normalmente as ideias cabulosas são realmente muito boas, acabo desistindo do descanso.  Faz um tempinho, a ideia cabulosa foi essa: “Bem que a gente podia ir passear na cachoeira...” Combinamos um sábado. De manhã cedinho, preparamos os cavalos. Nos alforjes, garrafinhas de água, um queijo fresquinho, farofa e pão com mortadela. E pegamos a estrada. A linda paisagem fez passarem rápido as duas horas e meia de cavalgada.
Tudo maravilhoso, até chegarmos perto do rio. Já ouviu a expressão “a vaca foi pro brejo”? Então, vaca até pode ir, mas no nosso caso os cavalos não quiseram ir para o brejo de jeito nenhum. Quando o terreno começou a ficar lamacento demais (lamacento que eu digo é afundando até os joelhos) nossos bichinhos resolveram que até ali já tava bom pra eles, e que não estavam com tanta vontade assim de ver cachoeira, nem nada. Então amarramos os cabrestos numas árvores e toca a caminhar mais uma hora, pelo lamaçal. A Anna Luiza, oito anos de pura coragem, que até aí não tinha reclamado de nada, suspirou infeliz . Cada passo era uma dificuldade. “Aí, filha, agora quando voltarem as aulas você pode fazer uma redação: ‘A Aventura das férias’!” A Mara falou. E a pequena, bufando pra tirar uma bota atolada da lama: “Aventura? Só se for ‘O Pesadelo das férias’!” Luís Henrique teve dó e levou a Anna de cavalinho, nas costas, até a beira do barranco.
Aí é que começou a aventura de verdade. Olhei pra baixo e vi aquele paredão íngreme, quase vertical. Uns doze metros abaixo corria o rio, mas não dava pra ver por causa da vegetação fechada. Ouvia-se o urro da cachoeira. Um barulhão ensurdecedor. E agora? Ninguém me avisou que o lugar era impenetrável desse jeito. Como é que faz pra descer? Luiz Henrique, Luciene e Laila, que conheciam melhor a área, se embrenharam na mata, rio abaixo, pra procurar um lugar mais fácil pra descer o barranco. Marco, Mara e Anna Júlia e Ana Vitória foram em outra direção, também procurando um caminho mais fácil. De repente, me vi sozinha com o Leandro e o Franco, e eles, muito calmos e prudentes, resolveram que não iam esperar coisa nenhuma e iam descer o barranco ali mesmo, de qualquer jeito. Leandro falou: “É fácil demais, gente! É só pegar o embalo e ir firme, correndo morro abaixo. Olha só.” E saiu trotando desengonçadamente por uns três metros, quando deu o inevitável escorregão e colidiu lindamente com um coqueiro, o que não o impediu de continuar deslizando pelo barranco, agora deitado no chão, e derrubar uns cinco arbustos, antes de parar, emaranhado num monte de cipós. Eu e o Franco rolávamos de rir quando escutamos um grito, abafado pelo barulho da cachoeira. “O que é isso? Tem alguém gritando!” “Será que aconteceu alguma coisa?” Ficamos quietinhos pra tentar ouvir. O grito veio de novo. Era uma voz desesperada: “Cadê o ...eejooooo?” Ficamos intrigados. “O que foi que ele gritou? Acho que está chamando por alguém. Será que uma das meninas se perdeu?” Ouvimos de novo, dessa vez uma voz feminina: “Pegooooou?? Pegou ....eeeejo?” E uma voz de homem respondeu: “Caiu na ááááágua!”. Pronto! Entrei em desespero: “Alguém caiu no rio!” O que a gente faz?” Com muita dificuldade, fomos andando pela mata, na direção das vozes, até que encontramos o Luís Henrique, muito compenetrado, amarrando  uma corda numa árvore. Não tinha achado nenhum lugar bom pra descer, então resolveu improvisar um rapel. “Riquinho, o que aconteceu? Quem caiu no rio?” E ele: “Rá! Quem caiu foi o queijo!”  Só mais essa! O Marco desceu o barranco, segurando de árvore em árvore. Luciene queria descer também, mas se atrapalhou com as sacolas que vinha carregando. Então jogou uma sacola pro Marco pegar, mas no meio do vôo a sacola se rasgou e o queijo branquinho saiu quicando morro abaixo: pluct, pluct, pluct, até que tchibum, no rio. Fiquei imaginando a cena: um bando de mineiros vendo o seu precioso queijo rolar para a perdição. Imaginei a Luciene, desesperada, levando as mãos à cabeça e gritando em câmera lenta: “Nããããõooo!” E o Luís Henrique saindo em disparada, ao som do tema de Indiana Jones, e se jogando no rio para salvar o tesouro. E ele salvou mesmo!
Bom, depois do queijo salvo, descemos, não sem dificuldade, no rapel improvisado e nos deparamos com a beleza selvagem da cachoeira. Linda, linda, linda. A gente vive tão preso à rotina, ao trabalho, aos problemas do dia a dia, que às vezes esquece que no mundo existem essas maravilhas da natureza.




O Leandro e o Franco se animaram a nadar um pouco, mas como a água estava gelada, o resto do pessoal se contentou em curtir a paisagem e comer a farofa e o queijo resgatado. Como o caminho de volta era longo, logo nos aprontamos pra ir embora. E pra subir o barranco? Descer foi até fácil. Todo santo ajudou. Mas pra subir aquele paredão lamacento foi dureza. Um de cada vez, os aventureiros agarravam a corda. A outra ponta estava lá em cima, amarrada na árvore. No meio do barranco, Luís Henrique se postou, aboletado em uma raiz, pra dar a mão a quem escorregasse. Usando a corda como apoio, pisando nas raízes e derrapando na lama, um por um, todos foram subindo. Mas aí chegou minha vez. Não sei se já comentei, mas agilidade, equilíbrio e coordenação motora não são meus pontos fortes. Respirei fundo, segurei a corda, finquei o pé no barranco, dei dois passos pra cima (olha só, nem é tão difícil assim!) e... escorreguei com tudo e fiquei pendurada, ainda segurando a corda e grudada na parede de lama. O pessoal gritava: “Vai, Giselle! Força! Sobe pela corda!” Não sei se comentei, mas força também não é meu ponto forte. Luís Henrique saltou pra baixo e tentou me dar “pezinho”, fazer um apoio com as mãos, pra eu subir, mas nessas alturas eu já estava desesperada, escorregando com pés e joelhos e espalhando barro pra todo lado. Aí o Marco gritou lá de cima: “É, compadre, não tem outro jeito! Empurra ela pela bunda!” E eu: “Nãããooo! Eu vou conseguir!” Mas aí me deu uma crise de riso, diante da bizarrice da situação, e comecei a escorregar pra baixo. Vendo que eu ia cair mesmo, e que o Luís Henrique hesitava em dar o empurrão glúteo, a Luciene tomou a frente: “Dá licença! Deixa comigo!” Empurrou o Luís Henrique pro lado e sem dó nem piedade, pregou as duas mãos na minha relutante bunda e impingiu-me um empurrão muito bem dado. Cheguei ao topo do barranco praticamente engatinhando, meio arrastada, morrendo de rir, mas cheguei.
Dias depois o pessoal ainda ria da minha escalada patética. A Luciene contou essa história pra todo mundo, ressaltando que no final ela é que teve que me empurrar pra cima, porque o Luís Henrique não quis. E ele, com os olhinhos apertados brilhando de divertimento: “Ainda se fosse uma morena cor de cuia... Mas uma dotôra... Eu nunca fiz um papér desses...”