segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Mais Médicos

          Uma amiga querida pediu minha opinião sobre o “Programa Mais Médicos”. Por dois dias pensei sobre o assunto e desenvolvi sérios sintomas de úlcera gástrica de tanta raiva que foi me dando. Hoje comecei com um tique nervoso de piscar o olho e pensei: “Deixa eu escrever logo, botar pra fora esse ódio, antes que minha saúde fique gravemente prejudicada.” Então lá vai:

          As questões principais que quero responder (ou pelo menos discutir) são as seguintes:
- Existem comunidades que não dispõem de profissionais médicos brasileiros? Por quê?
- Disponibilizar profissionais médicos para estas comunidades resolveria seus problemas de saúde?

          Vamos começar com uma historinha: Meu amigo João (nome trocado para preservar a identidade do profissional. - Nossa, me senti uma jornalista da Veja agora!) é um médico que se formou há uns cinco anos. Fez residência, cursos de especialização, é muito competente e atualizado. Além disso, é uma das pessoas mais alegres que conheço. Sempre simpático com seus pacientes. Duas vezes por semana ele fazia plantão no hospital de uma cidade pequena do interior de Minas. Diga-se de passagem que a família de João tem bastante dinheiro. Se ele quisesse, poderia trabalhar apenas no Hospital Universitário de uma cidade de referência, ou poderia até mesmo nem trabalhar. Mas não. O infeliz resolveu que tinha uma tal de “vocação”. Certo dia, João estava de plantão. Neste triste dia, um rapazinho de quatorze anos, sem nada pra fazer, resolveu praticar um assalto. Entrou escondido no quartel da cidade e, não me perguntem como, levou uma arma de grosso calibre. Com a arma em punho, o moleque invadiu uma casa onde morava uma senhora idosa e sua filha de mais ou menos cinqüenta anos. Encontrou primeiro a velhinha. Alvejada várias vezes, ela morreu na hora. A filha ouviu os estrondos e veio correndo. Levou um tiro na mão. Outro no rosto. E mais um logo abaixo da clavícula esquerda. Essa mulher foi levada ao hospital, mas não sem certa demora (imagine o processo: vizinho ouve tiros, vizinho sai à rua pra ver o que aconteceu, outro vizinho pergunta: o que será que foi, compadre?, outro pergunta: será que a gente chama a polícia?, polícia chega, polícia acha a mulher ensangüentada, chama ambulância, e por aí vai). O plantonista João recebe a paciente na sala de emergência. Percebe que ela perdeu uma quantidade imensa de sangue, tem uma cratera na face, por onde se vêem os ossos do crânio, uma mão destruída e um ferimento no tórax que parece ter atingido grandes vasos. A mulher já está em choque hemorrágico. No hospital onde está, João não tem bloco cirúrgico à disposição. Nem unidade de terapia intensiva. Não tem banco de sangue na cidade, e não é possível realizar transfusão. O que fazer? Eu te pergunto: o que você faria se fosse o João? Eu te respondo: se eu fosse o João, eu faria exatamente o que ele fez. Ele estancou os sangramentos o melhor que pode, com compressão, puncionou dois acessos venosos calibrosos e iniciou reposição de volume, colocou a paciente numa ambulância, entrou junto e falou pro motorista: “Toca pra Uberaba (que era a cidade mais próxima com um serviço de saúde decente) e toca rápido.” No caminho a paciente faleceu.

          O que concluímos? Essa pobre mulher já estava condenada no momento em que levou os tiros. Mesmo se tivesse sido atendida prontamente num grande centro, suas chances não eram muitas. Porém, foi atendida num lugar que, apesar de ter um bom médico à disposição, não tinha recursos que permitissem um melhor resultado. Muito triste com o falecimento de sua paciente, João se consolou com o fato de que tinha feito todo o possível. Então, na semana seguinte, ao chegar para seu próximo plantão, qual não foi sua surpresa ao ver dezenas de pessoas em manifestação à porta do hospital, com faixas e cartazes pedindo “justiça”. O que essas pessoas queriam? Queriam a punição do João. Isso mesmo! Segundo a sábia “voz do povo” o culpado da morte era o médico! Porque é lógico, todo mundo sabe que, quando alguém morre, se tiver um médico em um raio de um quilômetro, ele com certeza é o culpado. Que dirá quando esse médico teve a audácia de atender o moribundo. Ninguém nesta bela cidade do interior se manifestou na porta do quartel, para questionar a facilidade com que o delinqüente adquiriu a arma do crime. Ninguém se manifestou pedindo a redução da maioridade penal, e com certeza essa criança indefesa que matou duas mulheres não está na cadeia. Mas a cabeça do João foi solicitada.

          João me contou essa história num dia em que ambos estávamos de plantão aqui em Uberaba. E concluiu cabisbaixo, dizendo que gostava de trabalhar naquela pequena cidade. Gostava de atender aquele povo simples. Mas já pediu demissão de seu cargo lá. Agora aguarda o desenrolar do processo por erro médico que a família da paciente abriu.

          Você sabia???? Que se um médico for trabalhar num serviço de saúde que não tem estrutura adequada (por exemplo, se eu for dar um plantão lá em São José do Cospe Fora e chegar um paciente em parada cardíaca, e eu pedir o desfibrilador, e a enfermeira falar: “aqui não tem isso não, minha filha”) o médico é responsável pelos eventuais resultados negativos. (Se o meu paciente lá em São José do Cospe Fora morrer por falta do desfibrilador, eu vou ser processada, e quando eu falar pro juiz: “Mas seu meritíssimo, lá não tinha o aparelho” ele vai me falar: “Se você se submeteu a trabalhar num lugar que não te oferece as condições mínimas, você é responsável pelos problemas que ocorrerem. Dá aqui o seu CRM pra eu rasgar.”

          Mas perder o CRM não é o perigo maior quando se trabalha no interior. Meu amigo Adeir dava plantão numa cidadezinha do Tocantins quando lhe trouxeram o corpo já sem vida de um jovem que tinha se enforcado. Ele examinou o corpo, constatou que o óbito tinha ocorrido já há algumas horas, e que o que tinha que ser feito era encaminhá-lo ao IML. Foi quando a enfermeira avisou: “Doutor, os irmãos do moço, que acharam ele pendurado lá na árvore, estão aí fora e eles estão armados. Falaram que se o irmão deles morrer, eles vão matar o médico.” O Adeir ficou puto: “Como assim, se ele morrer? O coitado já morreu faz tempo!” “Então, doutor, acho melhor o senhor sumir daqui, porque eles já estão entrando, olha lá.” Meu amigo não teve outra opção a não ser sair pela porta dos fundos do pronto socorro e se esconder embaixo de uma pilha de roupa suja na lavanderia. E lá ficou por algumas horas, até os rapazes desistirem de procurar pelo médico incompetente que tinha deixado o irmão deles morrer.

          Outra historinha. Essa aconteceu comiguinha aqui. Eu trabalhei por uns quatro anos em uma currutela aqui perto de Uberaba. A maioria das minhas pacientes era de mulheres que vinham de Pernambuco, Piauí, Ceará e outros lugares do Nordeste, pra trabalhar na usina de cana-de-açúcar. Um povo que melhor não existe. Trabalhadoras, guerreiras, vaidosas, amorosas... umas lindas. Com sua simplicidade, sorriso fácil, garra e coragem elas me ensinaram a ser uma pessoa e uma médica melhor. Bom, mas estava eu lá num belo dia atendendo minhas gestantes (eu fazia ambulatório de pré-natal), quando o médico que estava no plantão me chama pra ajudar. Tinha chegado uma senhora em parada cardíaca. Fizemos os procedimentos padrão, mas ao pedir o material pra entubação, percebi que a cânula estava sem guia. Essa cânula é de um material flexível, e muitas vezes é necessário um fio guia metálico, que vai dentro dela, pra que se consiga levar o tubo até a traquéia. Pedi o guia e me falaram que não tinha. Tentamos sem o guia e não era possível entubar. Falei pro enfermeiro: “Mas como vocês fazem aqui sem o guia?” E ele na maior pachorra: “Uai, doutora, de vez em quando a gente usa aquele araminho do coador de café que tem lá na cozinha... É só desentortar ele...” Estupefata, pedi pra trazerem então o bendito arame, e com ele entubamos a paciente. Agora imagina se ocorre uma complicação, se essa paciente desenvolve uma infecção, como é que eu vou me justificar por ter usado um material contaminado desses, um pedaço de arame, pelo amor de Deus? É erro médico na certa. É processo.

          Então, vale a pena pra um médico se arriscar desse jeito? Ele estudou no mínimo por nove anos (isso depois que entrou na faculdade), ele abriu mão de diversão, de tempo com a família, de vida pessoal, pra ser o profissional que é. Vale a pena arriscar? Não é melhor trabalhar em lugares que te ofereçam segurança?

          Outro problema é a falta de acesso aos exames complementares. Adianta ter o médico, se não tem como realizar nenhum exame complementar? Lá nesta currutela mesmo, que eu estou contando, eu atendia as pacientes, mas elas não tinham como fazer os exames mais básicos que eu pedia, como ultra-som e mamografia, que dirá uma densitometria óssea. Você imagina um pré-natal sem um ultra-som de qualidade? Teve uma paciente minha de lá que fez o pré-natal todo, e com oito meses ela juntou dinheiro e conseguiu pagar um ultra-som, porque pelo SUS não conseguíamos fazer. Aí veio pra Uberaba, fez o exame e pra nossa infelicidade foi detectada uma malformação gravíssima, uma hérnia diafragmática, em sua nenenzinha. Com essa informação, consegui uma vaga pra ela no hospital de referência, mas a neném faleceu com poucos dias de nascida. Se o problema tivesse sido detectado antes, poderíamos ter encaminhado pra um serviço maior, e a neném teria sido operada antes de nascer, dentro do útero. Quem sabe não teria sobrevivido?

          A falta de disponibilidade de exames é um problema que já enfrentei em outros lugares. Uma vez, recém-formada, de plantão em uma cidadezinha do interior de São Paulo, me deparei com um senhor idoso que sofreu um derrame. Ele havia sido atendido no plantão anterior e foi simplesmente deixado numa maca, num cantinho, com um soro pingando uma gota muito de vez em quando numa veia bem fininha. Examinei o velhinho e vi que parecia ser um AVE grave. Como nesta cidade não tinha nem raio X, liguei para o diretor do hospital e perguntei como faríamos para conseguir uma tomografia. Assim que conclui a pergunta ele explodiu numa sonora gargalhada. Achei que ele não tinha entendido o que eu falei, então repeti que o caso era grave. O colega não parava de rir: “Tomografia! Quiá, quiá, quiá! Gente, ela quer fazer uma tomografia! A gente aqui não tem nem hemograma, filhinha!” Desliguei o telefone tremendo de raiva.

          Bom, mas exames são o de menos. Eu conheci unidades de saúde, na periferia aqui de Uberaba, que não tinham nem sabonete e nem papel higiênico no banheiro. Que não dispunham de lençol de papel, que só tinham um lençol de pano cobrindo a maca de exame, e uma (uma unidade!) de camisola para as pacientes. Imagina realizar exame ginecológico em quinze pacientes, uma depois da outra, todas se deitando sobre o mesmo lençol? Todas usando a mesma camisola?

          Se eu for contar todas as histórias de que me lembro, vou ficar aqui um ano. Tem umas de arrepiar os cabelos: eu já acompanhei trabalho de parto auscultando os batimentos fetais através de um rolo de esparadrapo, usado como se fosse estetoscópio (encostava o rolo na barriga da parturiente e colava o ouvido do outro lado) porque não tinha aparelho sonar no hospital. Já entrei em bloco cirúrgico com a roupa com que vim da rua, contaminada, pra fazer parto, porque o hospital não tinha roupa apropriada pra fornecer. Já tive que mandar abrir frasco de soro para eu lavar as mãos pra entrar em cirurgia, porque tinha acabado a água no hospital. Já fiz parto à luz de lanterna, porque tinha acabado a energia e o hospital não tinha gerador (ainda bem que a enfermeira tinha uma lanterna no carro dela, e foi buscar!).

          Mas a falta de condições de trabalho não é o único problema. Numa cidadezinha aqui perto, eu já estava acostumada com o meu salário vir um mês atrasado: Trabalhou em maio? Em julho você recebe. Mas uma vez atrasou um mês, atrasaram dois, no terceiro eu já não tinha como pagar minhas contas. Tinha prestação do carro vencida, estava pagando juros de cheque especial, uma tristeza. Reclamei, e ouvi um “aqui é assim mesmo, pagaremos quando for possível. Se não está satisfeita...” Que humilhação! Como se eu estivesse pedindo um favor ou uma esmola! Que trabalhador aceita isso? Isso porque lá eu não tinha nenhum direito trabalhista: não tinha carteira assinada, fundo de garantia, nem décimo terceiro. Férias? Nem sonhando. Fiquei uns três anos lá sem férias.

          Fora que os empregos nestes lugares geralmente são contratações sem concurso. Sem nenhuma segurança. Mudou o prefeito? Você desagradou o prefeito ou algum vereador? Deu na telha do prefeito? Rua! Com uma mão na frente e outra atrás, porque seguro desemprego não é coisa de médico.

          Bom, então vamos responder à primeira questão: Sim. Existem várias comunidades que não têm médico à disposição. Principalmente cidades pequenas do interior. Aqui no Sudeste nem tanto. Norte e Nordeste são as regiões mais carentes de médicos. Só repetindo uma informação que todo mundo já sabe: a quantidade de médicos por habitante no Brasil não é pequena. A distribuição é que não é adequada. Tem muito médico nos grandes centros e poucos no interior e nas periferias.

          Mas por quê? Vou tentar responder de uma forma bem pessoal. Por que eu mesma, que curto uma vida simples, que não faço questão alguma de lazer urbano, que prefiro ficar na roça do que ir a um show ou teatro ou cinema, que detesto trânsito e aglomerações, por que eu não vou pra uma cidadezinha do interior do Pará pra trabalhar, sendo que lá estão oferecendo um salário de dezenas de milhares de reais? Porque eu não sei se vou receber de verdade esse salário. Tem muito colega que foi. Recebeu um mês, dois, e depois nada. Porque não terei nenhuma estabilidade no emprego e nem direitos trabalhistas. Porque morarei num lugar longe de minha família, onde as condições de habitação muitas vezes são precárias, onde não tem escola adequada (se eu tiver filhos), onde não tem emprego para o meu marido, onde não vou ter condições de fazer cursos de aperfeiçoamento, de freqüentar congressos (ou seja, ficarei desatualizada profissionalmente).

           Mas então como fazer pra convencer o médico a ir aonde ele é necessário?
          Aí eu pergunto: Como é que se convence os juízes, delegados, promotores a irem aonde são necessários? Oferecendo a eles um plano de carreira. Oferecendo a segurança de um emprego público concursado, com todos os benefícios, e a certeza de que em alguns anos ele pode solicitar mudança para locais que considerar mais adequados.

          Minha irmã, que é juíza, perguntou: “Mas por que o médico então não trabalha alguns anos no interior, e depois vai para o grande centro?” Por que ninguém me garante que depois de um tempo no interior eu vou conseguir um emprego num grande centro. Aliás, quanto mais tempo você fica afastado do centro, mais difícil é conseguir se estabelecer lá. O juiz não. Ele tem a garantia de ficar um tempo no interior e depois ir “subindo” para cidades maiores, sem o perigo de ficar sem trabalho.

          Bom, então acho que respondi por que não tem médicos em alguns locais. Será que dava pra senhora Dilma resolver isso? Dava sim. Era só querer. O PT já está há muitos anos no poder. Podia ter organizado essa questão calmamente há muito tempo, pra não precisar de “medidas emergenciais” agora.

          E a segunda questão? Será que simplesmente levar o médico vai resolver os problemas de saúde das comunidades do interior? Essa eu me recuso a comentar. Vou deixar o araminho do coador de café responder.

          Agora, uma coisa que muita gente tem questionado é o motivo de tanta birra da classe médica brasileira contra os estrangeiros que estão vindo trabalhar nestas comunidades pra onde ninguém quer ir. A birra, pelo menos de minha parte, não é contra o médico estrangeiro. É contra o fato de eles receberem CRM e direito de clinicar no Brasil sem comprovar sua capacidade. Quem é que tem alguma ideia a respeito da qualidade da formação destes profissionais estrangeiros? O REVALIDA seria uma segurança para os pacientes. Mas a minha birra maior é contra o fato da Dilma e seus amiguinhos quererem se inocentar e culpar a classe médica dos problemas de saúde do Brasil. Existe muito médico ruim, ganancioso e incompetente no Brasil. Como existem pessoas ruins, gananciosas e incompetentes em todas as profissões. Mas é muita inocência acreditar que a raiz do problema é essa.

          Então, para quem me perguntar o que eu acho do programa mais médicos (assim mesmo, com minúsculas) peço sinceras desculpas: É que venho de uma família italiana meio desbocada, na qual aprendi que nada é melhor que um bom palavrão para melhorar dor de topada no dedão do pé e tirar raiva encalacrada do peito. O que eu acho do programa mais médicos é que é uma grande merda desse filhos da puta do PT. E tenho dito.


Essa lindinha fez pré-natal comigo, nessa cidadezinha que contei. Teve pré-eclâmpsia com várias complicações. Um sufoco pra conseguir exames pra ela, vaga no hospital e tudo. Mas o resultado tá aí: Arthur, feliz e saudável, que voltou pra tirar foto comigo! Então, agora que passou a raiva: Feliz dia do médico (atrasado), galera!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Coisa de criança



          Às vezes me pergunto o que é que faz delas criaturinhas tão encantadoras. Elas podem nem sempre ser doces. Podem ser teimosas, às vezes intratáveis e até um pouco malvadas de vez em quando. Mas são as coisinhas mais divertidas do mundo. Então no post de hoje vou fazer uma listinha: o que mais amo nas crianças.

          Elas são curiosas, e não se deixam enganar facilmente:

          Outro dia convidei o Dudu, meu sobrinho de cinco anos pra ir na roça conhecer o novo filhote da Morena, o Dante. Ele ficou todo empolgado: “Nossa... Um filhotinho! Que legal!” Mas logo fez uma cara intrigada: “Mas tia... Como é que eles botam ovos tão grandes?” Dei risada e tentei explicar: “Não, Du! Égua não bota ovo! Cavalos são mamíferos, lembra? O filhote nasce da barriga da mãe.” E ele: “Então por onde é que ele sai?” Olhei de relance pra Vanessa, mãe do pequeno, tentando uma comunicação rápida pra saber até que ponto eu podia dar os detalhes. Ela emendou: “A tia Giselle corta a barriga da mãe e tira o filhotinho!” Dudu cruzou os braços e disparou: “Mãe, ela é médica, e não veterinária!” “Então, Dudu, você vai querer suco de morango ou de laranja?” Ele não tem jeito!

Olha aí o Dudu! Calçou minha galocha por cima da botina dele e ficou com o pé preso! Quem pode com ele?

          Crianças não são escravas da culpa:

          Minha sobrinha Melissinha é o melhor exemplo. Dois aninhos de pura fofura. Estava ela brincando de empilhar as peças de um dominó. O Miguel, seu irmãozinho de 9 meses, queria pegar uma pecinha: “Dá, dá, dá!” e estendia as mãozinhas. “Dá uma pra ele brincar, Melissa. Você tem um montão” a vó Mariana pediu. Melissa não interrompeu a brincadeira e nem ergueu os olhos. Soltou, na maior naturalidade: “Não. Deixa ele ficá bem ‘tiste’.” A gente não sabe se fica brava ou se cai na gargalhada.

          Falando em “tisteza”, a Memel pegou agora uma mania de ficar perguntando o dia inteiro pra mãe dela: “Mamãe, você tá tiste?” Dia desses, a Rosana já tinha respondido umas quinze vezes que não tava triste não, e na décima sexta vez, respondeu trincando os dentes: “Não, não to triste ainda, mas vou acabar ficando, de tanto você perguntar!” Minutos depois: “Mamãe, você tá tiste?” Ro respirou fundo e respondeu: “Não. Eu to feliz porque tenho dois bebês lindos, a Melissa e o Miguel, que são os meus filhinhos.” A resposta: “Pois vai ficar sem filhinhos!” A Ro quase caiu das pernas: “O quê??? Ficou doida, menina? Por que é que eu vou ficar sem filhinhos?” Com a cara mais sapeca do mundo: “Por que Melissa e ‘Midel’ vai fugir pra rua!” É lógico que depois disso a porta da casa nunca mais ficou destrancada!


Tão talentosa!

          Elas sabem que, na dúvida, é melhor pedir perdão do que permissão:
    
          Dia desses, Rosana se arrumando, na maior correria, pra ir trabalhar, e a Memel chega na porta do banheiro, com uma canetinha na mão, e pergunta, com toda a doçura do mundo: “Mamãe, pode?” “Pode o quê?” “’Abiscá’ as pessoas?” A Ro quase engasgou com a pasta de dente, de susto: “Por que que você ta perguntando isso?” E a Mel, na maior inocência, dando de ombros: “’Abiscô o Midel!” Rosana largou tudo e correu pra sala, onde encontrou o Miguel, muito sorridente, com o rostinho tooooodo riscado de canetinha.


Essa Melissinha não tem jeito, não!

          Crianças fazem planos mirabolantes e não se preocupam com os obstáculos:

          A mãe do Neto, Maria, quando era pequenininha, todos os dias ia com sua irmãzinha levar a marmita pro pai delas, na roça. No caminho, um dia acharam um ninho de corujas. Pra quem não sabe, as corujas geralmente fazem seus ninhos em buracos no chão. As meninas ficaram encantadas com a possibilidade de pegar um filhotinho de coruja pra elas. No dia seguinte levaram um enxadão. Começaram a cavar. A mãe coruja se desesperou, vendo aquela agressão ao ninho, e começou a piar e voar em círculos. Assim que conseguiram cavar o suficiente pra ver os bebês corujas aninhadinhos lá no fundo, começou a briga. “Eu é que vou pegar o primeiro filhotinho!” “Não, eu é que vou escolher primeiro!” Maria era a mais velha e acabou conseguindo o direito de escolha. Enfiou a mão no túnel e... “Ai, ai, ai!” A corujinha trincou o bico no dedo dela e veio grudada. Em pânico, Maria corria e sacudia a mão, chorando de dor. E a corujinha não desgrudava. E como tudo que está ruim ainda pode piorar, a mãe coruja começou a dar rasantes e “tuc” bicava na cabeça da menina. Subia e voltava: “tuc” de novo na cabeça dela. Morro de rir só de imaginar a cena! Coitadinha!

          Quando elas são malvadas, aí é que são mais engraçadas:

          Mais uma da Melissa. Minha mãe com o Miguel no colo. Miguel chorando sem parar. Minha mãe andando de um lado pro outro, embalando o menino: “Não sei mais o que fazer com o Miguel...” E a Melissa, lá do seu cantinho de brinquedos, sugeriu: “Anca.” “O que, Melissa???” “’Anca’! ‘Anca’ o ‘pecoço’ dele!”


Miguelito! Que bagunça!
          Crianças sabem o que querem:

          Meu primo Douglas, quando criança, diante da clássica pergunta “o que você quer ser quando crescer” soltava invariavelmente um certeiro: “Ou polícia ou bandido.” Graças a Deus hoje ele é policial.

          Esse menino era particularmente terrível. Vou até me abster de contar um episódio em que ele colocou fogo no sofá com o irmão mais novo dele em cima (ninguém se feriu porque acudiram a tempo). Mas teve um dia em que ele quase fez uma tia cega ter um infarto. O menino pega um copo d’água na cozinha e vem bebendo. A tia escutou o barulhinho. “Meu filho, o que você tá bebendo?” E ele, certeiro: “Veneno.” A tia aprontou o maior berreiro: “Acode, gente! O Douglas aqui! Tá tomando veneno!” Naquela época não era politicamente incorreto dar umas palmadas em menino custoso, para tristeza dele.

          Mas aquilo que mais amo nas crianças, Jostein Gaarder (aquele, de O Mundo de Sofia e O Dia do Curinga) descreveu muitíssimo bem:

         “Ao que tudo indica, ao longo da nossa infância nós perdemos a capacidade de nos admirarmos com as coisas do mundo. Mas com isto perdemos uma coisa essencial – algo de que os filósofos querem nos lembrar. Pois em algum lugar dentro de nós, alguma coisa nos diz que a vida é um grande enigma. (...) Para as crianças, o mundo - e tudo o que há nele - é uma coisa nova; algo que desperta a admiração. Nem todos os adultos vêem a coisa dessa forma. A maioria deles vivencia o mundo como uma coisa absolutamente normal. E precisamente neste ponto os filósofos constituem uma louvável exceção. Um filósofo nunca é capaz de se habituar completamente com este mundo. Para ele ou para ela o mundo continua a ter algo de incompreensível, algo até enigmático, de secreto. Os filósofos e as crianças têm, portanto, uma importante característica comum. Podemos dizer que um filósofo permanece a vida toda tão receptivo e sensível às coisas quanto um bebê."

          Então, feliz Dia das Crianças! Para todos nós que vivemos infantilmente maravilhados com este mundo extraordinário.

Bibi, Dudu e meu maridão


Concurso de caretas!!!!


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mãos de trabalhador

Segurei o espelho com mãos levemente trêmulas. Comecei a aproximá-lo do rosto, mas desisti e o abaixei novamente. Por entre lágrimas, lancei um olhar desamparado para o meu marido. “É um corte muito pequeno, meu bem...” ele me encorajou. “Você se assustou porque sangrou muito, mas agora que está limpo dá pra ver que é bem pequenininho.” Suspirei desanimada. Uma cicatriz no rosto... Que pesadelo pra qualquer mulher com um mínimo de vaidade. “Isso é bom pra você aprender a não tentar morder os pés dos cavalos. Tá pensando que é um Border Collie?” disparou o Neto, que perde o amigo, o emprego, a classe, se for preciso, mas não perde a piada. Rindo um riso dolorido, criei coragem e ergui o espelho. Meu queixo parecia absurdamente inchado e uma equimose começava a se formar, mas o ferimento em si era mesmo pequeno: um corte com pouco mais de um centímetro, logo acima da borda inferior da mandíbula. “É melhor você me levar pro hospital.” Falei pro Leandro. “Acho que vou precisar de uns dois ou três pontos...” Passei a língua pelas bordas cortantes dos molares quebrados. “E na segunda-feira eu vou ao dentista.” Era um sábado.

No caminho pro hospital, com a caminhonete sacolejando pela estradinha de terra, enquanto pressionava uma compressa de gelo contra o queixo e enxugava o sangue que teimava em escorrer, os fatos daquela manhã esquisita foram se reprisando na minha mente. Uma manhã de sábado que começou como outra qualquer. O Leandro e eu acordamos cedo e arrumamos as coisas pra ir pra roça. Foi só abrir a porta da caminhonete pra colocar umas sacolas que a Frida já saltou pra dentro, assumindo seu lugar de costume, toda feliz. O Hunter ficou de longe, me olhando com aqueles olhões tristes. “E se a gente levasse o Hunter hoje, pra passear lá? Ele ia ficar tão satisfeito com todo aquele espaço...” Pronto. Primeira decisão equivocada do dia. Lá fomos nós com uma Border Collie dormindo no chão da cabine e um American Staff em estado de euforia aguda na carroceria. As atividades na roça são inúmeras e tivemos apenas alguns minutos pra rir da felicidade do Hunter, que corria de um lado pra outro, explorando aquele ambiente novo e sem limites. Logo que o Neto chegou, ele e o Leandro pegaram o carro e foram para a pista, verificar a cerca que estava começando a ser feita. Eu fiquei na casinha azul e fui tratar dos cavalos (segunda decisão equivocada). Normalmente eles comem ração duas vezes por dia, pra complementar a pastagem. Durante a seca, também recebem feno e silo de milho. Uma coisa que a gente gosta é ver os bichos comendo bem, com o pelo bonito, bem nutridos. Enchi um balde com ração e peguei um baldinho menor pra despejar as medidas de cada um. Os cavalos ficam distribuídos em piquetes, em grupos de três ou quatro, conforme a “afinidade” deles (entenda-se: os mais briguentos não podem ficar juntos). É engraçado como eles estabelecem uma hierarquia: tem sempre um chefe na turma, um que escolhe primeiro o cocho em que quer comer, e ai de quem quiser discutir... No piquete mais próximo, logo abaixo da casa, estavam o Lord, um Quarto de Milha castanho, lindo de doer, que pertence ao Neto; o Barão, um baio imenso, gigante mesmo, também Quarto de Milha, do Jean, e um Manga Larga Marchador tordilho: o Ídolo, que é do Fabiano. Passei pelo colchete, com meu balde de ração, e despejei o primeiro bocado no cocho mais próximo. O Ídolo veio todo imponente, cheirar a comida. Eu já ia me afastando, rumo ao próximo cocho, quando vi o Hunter, naquele jeito desajeitado dele, se aproximar do Ídolo. O tordilho provavelmente nunca tinha visto um cachorro tão estranho: um bicho todo fortinho, musculoso igual a um desses mocinhos “marombeiros” de academia, com orelhas pontudas apontadas pra cima e um focinho curto que, junto com o excesso de exercício do dia, resultou numa respiração que soava mais como um grunhido de porco. Vi que o Ídolo resfolegou meio assustado com a aproximação daquela esquisitice canina e tratei de sair de perto, pra evitar encrenca. Mas a encrenca foi mais rápida do que eu. Ouvi um zunido suave. Um movimento diferente do ar. Então o impacto. Uma dor aguda. E caí pro lado, deixando cair longe o balde com ração e tudo. Demorei uns segundos pra entender que tinha sido um coice. Levei a mão ao queixo, que latejava, e ela se encheu de sangue. Senti uns fragmentos estranhos na boca e cuspi: pedaços de dentes. Gritei pelo Leandro, mas ninguém respondeu. Lembrei que ele estava muito longe. Aí me permiti entrar em pânico e comecei a chorar. Mas só chorei um pouquinho porque vi que não ia adiantar nada. O jeito era ir andando até onde o Leandro e o Neto estavam. Então foi o que fiz. O Neto conta que de repente viu alguém se aproximando ao longe na estrada. Ainda não dava pra ver quem era. Aí ouviu um grito. Ou melhor, um miado, nas palavras dele. Viu que era eu e falou pro Leandro: “Corre lá. Corre que tem alguma coisa errada.”

Foram só dois pontinhos, mas fiquei um bom tempo neurótica, com medo da cicatriz que ia ficar. E ficou sim. Ficou uma cicatriz pequena, mais ou menos discreta. Eu já devia estar acostumada às marcas. Tenho um risco comprido no braço, resultado de um acidente envolvendo um cavalo chamado Titã, uma amazona inexperiente (eu) e um pé de limão. Minhas pernas estão sempre com marcas de arranhões provocados involuntariamente pela Frida ou pela May, marcas de picadas de marimbondo ou borrachudo e equimoses variadas. No rosto, as sardas de sol teimam em aparecer, apesar do protetor fator 40. E as mãos... Há um tempo eu tinha orgulho das minhas mãos finas e lisinhas, com unhas bonitas que eu gostava de pintar de vermelho forte, ou de rosa clarinho. Hoje elas estão tão queimadinhas de sol, a pele marcada e áspera em alguns lugares, de tanto mexer com as plantas e com a terra, as unhas sempre curtinhas.

Tem um livro muito lindo e muito louco. A mulher do viajante no tempo. Quando a personagem principal conhece o amor de sua vida, ele toca suas mãos e “vê que eram mãos de trabalhador”. Ela era escultora. Fazia esculturas de papel. Não dobraduras. Figuras imensas, de massa de papel que ela fazia e moldava. Vivia com as mãos dentro do tanque de água e papel. Mãos vermelhas. Ressecadas. Queimadas. Uma mulher linda, feminina e sensual, com mãos de trabalhador. Fico pensando que essas mãos de trabalhador normalmente têm muito mais a oferecer e têm muito mais histórias pra contar que as mãos de fada, macias e perfeitas de muitas mulheres perfeitas por aí. São mãos que fizeram, que construíram, acolheram, acarinharam e sofreram, e que carregam as marcas de vidas ricas.

Eu, de minha parte, não lamento nenhuma de minhas marcas. Ter sido obrigada a ouvir as piadinhas infames do Neto me comparando ao Anderson Silva ("Você até que lutou direitinho, mas quando pega na pontinha do queixo apaga mesmo, não tem jeito. Com o Aranha também foi assim.") isso eu lamento.

Ah, e como tive que ir ao dentista consertar o estrago, aproveitei e dei uma geral. Fiz até o clareamento que vinha querendo há um tempo. É assim: se a vida te der um limão, tenha sempre o sal e a tequila à mão! Arriba, abajo, al centro, adentro!


Minhas mãos de trabalhador

Uma marquinha de nada.

(Foi um livramento de Deus, porque só a pontinha da ferradura me atingiu. Nem quero pensar no que teria acontecido se ele tivesse me acertado o pé em cheio. O anjo da guarda de plantão no dia era dos bons.)