sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Álbum de fotos 2


Feriado. E por incrível que pareça estamos na cidade. Esta semana o Leandro fez a cirurgia para correção da miopia e o médico recomendou ficarmos uns dias aqui, por causa da poeira. Hoje, mais tarde, já estaremos pegando a estrada. Até lá, o jeito é matar a saudade com algumas fotos:


Essa é a vista da minha janela da cozinha.



Olha que chique o Nero com o cabresto personalizado Ouro Mineiro!


Quem viu o Nero chegar, há 10 meses, magro e abatido, não acredita que é ele. Lindo!


Essas foram as últimas fotos do Nero com a gente. Vendido há alguns dias para o amigo Kiko.

Lancelot, também vendido para o amigo Lincoln, que por sinal é o autor das fotos. As fotos boas aqui do blog geralmente são dele! As minhas, na minha maquininha humilde, são piorzinhas! Rsrsrs!


Olha o Lord aí!
Novo xodó do Leandro. A égua Sunshine.



Treino no redondel. As cachorrinhas acompanham do lado de fora.



Olha como a Frida está crescida e bonita!

Essa é a nova amiga da Frida. Chegou há uns dois meses. No próximo post vou contar a história dela. 

Visitante curioso.


Ah, como eu amo o pôr do sol na roça...


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Rejeitando ovos e resgatando beagles

          Nunca fui de desejar a morte de ninguém. Deus me livre. Mas o fato é que aquela infeliz já havia ultrapassado todos os limites. Então, quando o Rubinho veio contar que uma delas tinha morrido, não me contive e falei: “Tomara que seja a Clotilde.” Depois, é claro, quando descobri que a falecida era a dita cuja mesmo, me senti culpada. Mas não vou mentir: não sinto nem um pouquinho a falta dela. Clotilde tinha adquirido um hábito horrível de botar ovos dentro de casa. Não queria saber dos ninhos que construímos com tanto capricho, protegidos do sol e da chuva, e que as outras galinhas compartilhavam sem reclamar. Não. Para ela os ninhos não eram bons o suficiente. Também se recusava a botar no mato, como algumas de suas irmãs de hábitos mais naturalistas. Clotilde escolhia os locais mais exóticos possíveis. Eu já estava acostumada a encontrar ovos no tanque de lavar roupa, dentro do barril de ração dos cavalos e no sofá que fica na varanda. Nem me incomodava mais com isso. Mas bastava deixar a janela aberta por uns minutos e lá estava ela aninhada no meu quarto ou no banheiro. Não seria tão grave se fosse apenas um caso de colocação de ovos em local impróprio. O problema maior é que (detesto falar dos defeitos de alguém que já morreu, mas...) Clotilde era adepta do canibalismo. A criatura comia os próprios ovos. Juro. Botava, bicava o ovo, fazendo um buraquinho nele, e comia o conteúdo, não sem antes espalhar clara e gema pelo chão e pelos móveis. Não raro, saia carregando o ovo no bico, derrubando pingos gosmentos pelo caminho. A pobre era uma perturbada. Que descanse em paz.

          Criar galinhas tem desses percalços. E no início eu não fazia questão alguma de ter essas penosas na roça. Mas o Leandro insistiu, insistiu, trouxe primeiro cinco, depois mais oito, e quando vi já tínhamos um bando delas. Hoje, amo tê-las por aqui. O canto do galo de manhãzinha já é uma alegria. Os ovos sempre fresquinhos à disposição são outra, ainda maior. Ovos de gema amarelinha, alaranjada até... De origem pura, orgânicos, como é chique dizer hoje em dia. Pra mim eles são um luxo. Então fiquei meio sentida quando ofereci alguns de presente e eles foram prontamente recusados. Foi assim:

          Eu estava de plantão no Hospital Universitário e como estava bem tranqüilo lá pelo meio dia, fui almoçar sushi no Iaiá, que é logo ao lado. Voltei alegre e satisfeita. Se tem uma coisa que me faz feliz culinariamente é um bom sushi. Só não me faz mais feliz que o meu prato preferido, que é o arroz com feijão, farinha, carne moída e quiabo que minha mãe faz. Bom, mas voltei feliz e encontrei meu colega de plantão, o Dr. Tuffy, que tinha preferido almoçar no refeitório do hospital. Perguntei se ele não gostava de comida japonesa e ele respondeu: “Gosto dos pratos com legumes, mas não como peixe.” É mesmo! Lembrei. Ele é vegetariano.

          Tenho grande admiração pelos vegetarianos. Acho que é um pessoal mais evoluído. Um dia ainda vou conseguir ser também. Uma vez tentei e fiquei vegetariana uma semana, mas aí o Leandro comprou uns quibes fritos, o cheiro daquilo foi me deixando doida e foi tudo por água abaixo. Mas não gosto do vegetariano romântico, ingênuo: aquele que acha que está salvando o mundo por não comer carne. Aquele que usa sapato e cinto de couro, que usa cosméticos com componentes de origem animal, mas me olha como se eu fosse uma assassina quando eu falo que fui à churrascaria (e olha que eu em churrascaria levo prejuízo: como quase só salada e pãozinho). Também não gosto do vegetariano fanático: aquele que só fala na matança de animais que eu estou provocando por causa dessa empada de frango que comprei na lanchonete e que quer me convencer (praticamente me obrigar) a aderir ao seu estilo de vida AGORA. “Tá bom, eu concordo que é uma filosofia de vida muito legal” explico “e te garanto que cada vez mais eu faço escolhas alimentares conscientes, e venho até diminuindo meu consumo de carne. Podemos continuar amigos e mudar de assunto?” E ele: “Então cospe a empada, ou melhor, o cadáver.”

          Bom, mas o Dr.Tuffy é um vegetariano do bem. Não tenta convencer ninguém. Mas quando explica seus motivos, com toda a serenidade, faz a gente pensar. Perguntei se ele consumia leite e derivados, e ele contou que tem intolerância à lactose. Perguntei sobre ovos e ele falou que come de vez em quando. “Então vou trazer uns ovos lá da roça para o senhor!” disparei “São ovos de galinhas livres, com alimentação natural. Nada de rações, hormônios, nem antibióticos. E são deliciosos.” Ele pareceu satisfeito: “Ah, que bom! E não são ovos fecundados, né?” Hesitei. “Oooolha... São fecundados sim, porque lá tem o Maximus Decimus, que não brinca em serviço.” Ele riu: “Quem?” “Maximus Decimus Meridius. O nosso galo.”

          Expliquei que tirei o nome do filme “O Gladiador”. Tem aquela fala dele que é o mááááximo: “My name is Maximus Decimus Meridius, commander of the Armies of the North, General of the Felix Legions, loyal servant to the true emperor, Marcus Aurelius. Father to a murdered son, husband to a murdered wife. And I will have my vengeance, in this life or the next.” Tem um amigo meu que diz que se ouvisse o Russell Crowe falando isso ao vivo, casava com ele na hora.

          Bom, mas com ou sem casamento, o Dr Tuffy gentilmente recusou os ovos, explicando que não consome ovos fecundados. Tá bom. Respeito os princípios dele que incluem o zigoto do Maximus como um ser vivo que merece continuar vivo. Respeito mesmo. Mas veja bem o outro lado: para consumir ovos não fecundados, normalmente compram-se ovos de granjas. As granjas de galinhas são, para mim, um belo exemplo de tratamento cruel aos animais.Geralmente, nas granjas, as aves vivem apinhadas em um espaço diminuto. As luzes acesas durante a noite garantem que elas não durmam, passem mais tempo se alimentando, e assim ganhem peso mais rapidamente. Nenhum comportamento natural (busca de alimento, acasalamento, reprodução, cuidado com a ninhada) é permitido a essas pobres criaturas. Assim se produzem ovos não fecundados. Temos então as opções: (a) fazer de conta que o ovinho não fecundado nasceu lá na prateleira do supermercado e comê-lo sem culpa; (b) virar vegano; (c) comer ovos de galinhas felizes, da roça, mesmo que eles contenham vida, ou potencial de vida.

          Ontem fiquei olhando a Gertrudes cuidando de seus nove pintinhos. Ela circulava com os pequenos pelo pomar, toda importante, mostrando pra eles os bichinhos que encontrava ciscando no meio do capim. Na hora de dormir, ela abre as asas e os nove se arrumam contentes embaixo dela, protegidos e quentinhos. É raro sobreviverem todos os pintinhos de uma ninhada. Em nossa região temos bastante predadores. Gambás e gaviões são os mais comuns. Mas os nove que Gertrudes chocou lá vão crescendo felizes. Eu, se fosse gavião, também não sei se teria coragem de enfrentar a feroz índia gigante para pegar um de seus filhotes. Daqui a alguns meses, eles estarão crescidos (não em 28 dias, como os inexplicáveis frangos de granja) e se algum vier a ser destinado à panela, terá antes vivido uma boa vida de frango, livre e feliz. Na roça, a vida e a morte estão sempre presentes, se encadeiam e têm sentido. Mas a crueldade não. Essa não tem lugar aqui. Por isso, é sem culpa que cozinho os ovos fecundados. Mas evito ao máximo qualquer alimento que provenha da perversidade da criação comercial em massa.

          Para defender a vida dos animais, tem gente que toma atitudes muito mais drásticas do que não comer carne ou ovos. No último dia dezoito aconteceu aquele caso muito polêmico do Instituto Royal. Um pessoal que a mídia chama de ativistas (acho esse nome muito engraçado! Quem não foi lá é o quê? “Passivista”?) invadiu o laboratório e resgatou (ou roubou?) cento e setenta e oito cachorrinhos da raça beagle, que eram usados em testes de medicamentos. Não vou entrar no debate de quem estava certo ou errado neste caso. Acho que os dois lados têm bons argumentos. Testar remédios em animais é necessário? É crueldade manter cães confinados para fins científicos? É aceitável passar por cima da lei para fazer valer o que consideramos correto moralmente? São questões que não me atrevo a responder. Mas fiquei pensando em como as ações dramáticas de alguns defensores dos animais chamam nossa atenção e, por outro lado, em como nos esquecemos de que nossos atos mais simples podem influenciar o meio ambiente e ter sérias conseqüências sobre a vida dos bichinhos. Pra muita gente, pode ser mais fácil invadir um laboratório farmacêutico e arrancar de lá um coelho ou ratinho indefeso do que diminuir o consumo de água ou a produção de lixo. Ficamos com pena dos pobres beagles, mas quem se lembra dos milhares de aves e pequenos mamíferos exterminados todos os dias quando seus habitats são substituidos por hectares e mais hectares de cana-de-açúcar? O deserto verde da cana avança inexorável, devorando o nosso cerrado, com a desculpa de produzir biocombustível, que consumimos com a consciência tranquila, porque é mais ecológico. Isso sem falar nas lavouras de soja e outros alimentos, tratadas com agrotóxicos que matam insetos, matam as aves que comem os insetos, matam os mamíferos predadores que comem as aves, transformando a cadeia alimentar em corrente de morte.

          Entrei num blog sobre vegetarianismo dia desses. Um blog muito bom, por sinal, mas tinha uma espécie de contador no cantinho, mostrando quantas galinhas, perus, vacas e outros animais morrem por minuto, para fins alimentícios. Eu olhando o blog e a contagem só aumentando. Tinha uma frase embaixo: "Pare de comer, que eles param de matar." Foi me dando um desespero, porque a impressão é de que quanto mais tempo a gente fica no blog, mais bichos vão morrendo. Quase quebrei o dedo teclando pra sair logo de lá: "Socorro! Me tira daqui! Estão matando os porquinhos!" Sei que se a gente não comer, eles não matam. Mas temos que saber também que se consumirmos menos, eles desmatam menos, destroem menos, poluem menos.     

          Achei um negócio super legal na net esta semana: uma organização chamada Global Footprint Network . É um pessoal que está preocupado com a tal sustentabilidade, de que tanto se fala. No site deles você pode calcular a sua “pegada ecológica”, que é o quanto você impacta o meio ambiente, o quanto do planeta você consome durante a vida. Tem como fazer o teste em português: é só selecionar o Brasil no mapinha, e no final você descobre quantos planetas Terra seriam necessários para sustentar a humanidade, se todo mundo tivesse o mesmo estilo de vida que o seu. É claro que é um cálculo bem simplificado. Pergunta o quanto você recicla do seu lixo, mas não pergunta se você deixa a torneira aberta enquanto escova os dentes, ou quanto tempo dura seu banho. Não pergunta quantas árvores você já plantou, ou que tipo de combustível usa no carro. Não pergunta a freqüência com que você troca de celular, o quanto de alimento você desperdiça ou quantos objetos você compra sem necessidade real. Mas achei o teste ótimo pra fazer a gente refletir. Tem um monte de pequenas atitudes nossas que podem fazer diferença no mundo. Mas às vezes é muito difícil mudar. Difícil sair da nossa zona de conforto. Ir a pé ou de bicicleta, investir em energia solar para o chuveiro (e não compensar a economia gastando mais tempo no banho!), comprar menos supérfluos, não trocar de carro, não desejar uma casa maior, ter menos sapatos, separar os recicláveis... Quem topa? Eu, de minha parte, venho me esforçando, mas ainda tenho que melhorar muito. Ah, e assim que conseguir virar vegetariana, eu conto pra vocês, tá? Beijos!


Maximus Decimus e parte do seu harém.