quarta-feira, 28 de maio de 2014

De Nárnia a Bangladesh

"Digory já estava para agarrar o anel amarelo quando se lembrou de algo importante:
- Espere um pouco: e mamãe? Se ela perguntar onde eu estou?
- Quanto mais depressa for, mais depressa estará de volta - disse o tio André, tentando ser animador.
- Mas o senhor nem mesmo sabe se eu vou voltar.
Tio André sacudiu os ombros, deu uns passos, abriu a porta e disse:
- Pois muito bem. Como quiser. Desça para jantar. Deixe que as feras devorem a garota. Ou que ela se afogue. Ou que morra de fome. Ou que se perca no outro mundo. Se é o que prefere."
_ Mas a voz dele é assim mesmo? - Dudu me interrompeu. Meu sobrinho de seis anos já sabe ler muito bem. Mas gosta que eu leia pra ele justamente por causa da "interpretação" dos personagens.
_ Não, Dudu!_ é claro que o tio André, um mago muito malvado, tinha que ter uma voz à altura de sua crueldade. Prossegui então, bem esganiçada, com a fala do bruxo:

"...Pra mim dá no mesmo. Talvez fosse bom que, antes do chá, você avisasse à mãe dela que nunca mais verá a filha... Só porque você tem medo de colocar um anel no dedo.
- Ai, ai - gemeu Digory -, queria tanto ser grande para lhe dar um murro na cara!
Abotoou o casaco, respirou fundo e pegou o anel, pensando, como sempre pensou mais tarde, que não havia para ele outra maneira de proceder com dignidade
."

Assim termina o segundo capítulo de "O Sobrinho do Mago", a primeira das Crônicas de Nárnia. Li mais dois capítulos para o Dudu, antes da mãe dele chamar pra almoçar, mas fiquei com essas palavras gravadas na mente: "não havia outra maneira de proceder com dignidade".
C. S. Lewis é o cara. Só alguém doido como ele para ensinar crianças que, muitas vezes, arriscar a vida, agir sem nenhuma prudência, colocar de lado seus próprios interesses e sua própria segurança é a única coisa digna a se fazer. Quem, em sã consciência, nos nossos ricos, conectados e individualistas dias, seria capaz de ensinar coisas tão perigosas aos pequenos? Claro, Lewis era doido o suficiente para acreditar em coisas mais preciosas que a vida. Para o bem da ordem social e da estabilidade política, hoje em dia existem poucas pessoas assim tão malucas.

Porém, como em meu círculo social transitam muitos seres que não poderiam ser enquadrados no conceito moderno de normalidade, sempre calha de eu presenciar ou ouvir contar algum fato que me faz sorrir a alma, me mostrando que conceitos como justiça, coragem e caráter ainda sobrevivem.

Um desses fatos foi o seguinte: meu amigo me conta que está preocupado com o pai dele, o Sr. E. que estava com o pé fraturado e teve que tirar o gesso por causa de uma ferida na pele. Por causa do diabetes, a cicatrização é sempre complicada e feridas nos pés são muito preocupantes. Aí você já imaginou o Sr. E. todo doentinho, tristinho, macambúzio, com o pé machucado. Então agora vou contar como é que ele arranjou a ferida. Lá estava ele conversando com um amigo na porta de uma loja, com seu pé engessado e suas muletas, quando viu, do outro lado da rua, a seguinte cena: Um rapaz aplicava uma "gravata" em uma moça enquanto com a mão livre vasculhava sua bolsa. Era um lugar movimentado e muitas pessoas passavam por ali, mas ninguém parecia notar o ato violento. Sr. E. não hesitou. Atravessou a rua manquejando com suas muletas e, alcançando o rapaz, aplicou-lhe um bom safanão. Assustado, o ladrão saiu em disparada. A mocinha então falou, desconsolada: "Meu celular! Ele levou meu celular..." Sr. E. não teve dúvidas: "Vem comigo!" Correu até sua caminhonete, estacionada logo ali, e levando a moça, saiu atrás do meliante. O ladrão correu pela avenida, dobrou uma esquina, e o Sr. E. atrás. Na primeira oportunidade, Sr. E. subiu na calçada e interceptou o caminho do fugitivo. Pulou da caminhonete e já agarrou o dito cujo pelo colarinho. Deu-lhe uns bons sopapos, jogou-o ao chão, desferiu-lhe vários chutes com a bota de gesso (que se quebrou toda, machucando o pobre pé já fraturado e causando a ferida da qual falei) e arrancou-lhe o celular subtraído. Depois, com o gesso em frangalhos, foi acompanhar a vítima (a vítima do roubo, não a dos chutes!) até a delegacia mais próxima para fazer o boletim de ocorrência e confessar seu crime de agressão, pelo qual os policiais de plantão lhe deram os parabéns. Meu amigo, filho do Sr. E., ficou irado quando soube do acontecido. Afinal, que loucura foi essa de correr atrás de ladrão? Se arriscando a bater o carro, a levar uma facada, um tiro, sei lá... E por quê? Pra recuperar coisa roubada de quem você nem conhece?
Eu conheço pouco o Sr. E. Sei que ele é um violonista talentoso e tem uma linda voz com a qual gosta de encher as noites no rancho de canções sertanejas. Sei que ele tem uma alma generosa e que em todo Natal enche o caminhão da empresa de brinquedos para distribuir nos bairros carentes. Mas depois desse fato fiquei muito fã do Sr. E. Porque ele optou sem sofrimento pela única maneira de proceder com dignidade naquele momento.

Não. Não quero incentivar ninguém a sair correndo atrás de bandido. Não acho que tenhamos todos que vestir a capa do Batman e virar justiceiros. Mas que dá gosto saber que a injustiça ainda dói nos olhos e ferve o sangue de alguns, isso dá. E às vezes dá um ou outro motivo de risada também. Como no caso do meu amado marido, que há uns anos estava comprando pão quando ouviu gritos de "Ladrão! Pega ladrão!" na rua. Saiu da padaria e viu o dono da lojinha ao lado correndo atrás de um rapazinho que fugia de bicicleta. Largando o pacote de pão, Leandro entrou na caminhonete e saiu em perseguição ao ciclista gatuno. Subiu a rua pela contra-mão, entrou numa travessa, em outra, e o ladrão desesperado, pedalando com todas as forças, subindo na calçada, caindo, levantando, pedalando mais. Mas uma hora não teve jeito. Leandro deu-lhe uma fechada com a caminhonete e derrubou o danado. Pulou pra fora e agarrou o rapaz pela camisa. Sacudia o moço e gritava: "Devolve o dinheiro!" Meu marido é um homem grande. Com um metro e oitenta e quatro de altura e pesando cem quilos, gritando muito nervoso, ele deve ter assustado um pouco o franzino ladrão, que quase chorando, implorava: "Me larga, moço! Eu não tenho dinheiro!" Mas o Leandro insitia: "Me dá logo esse dinheiro, seu safado, senão eu vou te bater! Devolve o dinheiro que você roubou!" O rapazinho então tirou do bolso uma nota de cinco e uma de dois reais, todas emboladas. Leandro largou então o infeliz, que saiu em disparada a pé, deixando a bicicleta caída na calçada. Nisso chega correndo o dono da loja, que ao ver a cena (a bicicleta caída e meu marido parado com as notinhas amassadas na mão, meio confuso ao perceber quão pouco dinheiro era) agradece esbaforido: "Nossa, cara! Nem sei como te agradecer! Você recuperou minha bicicleta!" Aí que o Leandro entendeu; "Uai, foi a bicicleta que ele roubou? E quase que eu deixo ele ir embora nela! Ele não tinha roubado dinheiro?" "Não! Dinheiro ele não levou." "Ah, coitado! Então ele ficou foi no prejuízo, porque eu tomei esses sete reais dele... Fica pra você, então." Até hoje às vezes começo a rir sozinha, lembrando dessa história.

Tem algumas "questões filosóficas" que sempre discuto com o Leandro e sobre as quais sempre discordamos. Uma delas é a pergunta: "Existe bondade inata no ser humano? Ou só somos bons e generosos quando isso não nos traz nenhum prejuízo? Em situações extremas, de vida ou morte, o ser humano vai instintivamente fazer o que for preciso pra sobreviver, esquecendo coisas como amor e honra?" Leandro acha que somos lapidados pela cultura para agirmos bem,
mas que o ser inato do homem não é bom. Eu já penso que não somos só corpo e mente, mas também espírito, e por isso acredito que exista o conceito inato de bem. Acredito que lá na nossa essência espiritual sabemos o amor e queremos o que é certo. É claro que esse sentimento pode ser aperfeiçoado ou embotado pelo meio e pela cultura. Mas independente do conceito nascer com a gente ou de ser semeado e cultivado depois, é revigorante ver que nos lugares e ocasiões mais desfavoráveis, a prática do bem existe. Pensando nisso, não resisti a falar do menino que virou meu herói esse ano. Vocês com certeza já viram essas fotos, mas elas merecem ser lembradas. Lá de Bangladesh, esse moleque arejou minha fé na humanidade.

Durante uma enchente em Bangladesh, o fotógrafo Hasibul Wahab flagrou esse ato de coragem: o menino Belal atravessa as águas para salvar um filhote de cervo que estava ilhado



O resgate foi um sucesso. Mas esse maluco poderia ter se afogado. Fazer o quê? Era a única maneira de proceder com dignidade...

Belal, você é o cara! C. S. Lewis deve ter aplaudido lá do céu.

De novo, gente! Não é um incentivo para sair por aí se jogando em rios. Porém, continuo acreditando que o que é certo é certo e pronto. Escolhemos fazer ou não fazer, e teremos que conviver com as consequências de um ou de outro, e assim como Digory, pensaremos muitas vezes nisso mais tarde. Algumas vezes é perigoso, outras vezes doloroso, humilhante, fora de moda, ou simplesmente esquisito, e pode levar do simples desconforto social à criação de inimizades, mas continua sendo o certo. O que me leva a encerrar com uma frase de um outro autor, muito mais jovem que meu querido Lewis, Christopher Paolini: "Se você não fizer uns inimigos de vez em quando, é porque é um covarde ou coisa pior."  Outro doido, coitado... O bom de estar no time dos doidos é isso: não tem taaaanta gente assim, mas a galera é de alto nível.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ninho em construção

          Em meio ao caos da reforma da minha casinha tento achar um ponto de equilíbrio. Em meio à poeira de cimento que impregna tudo, ao barulho da maquita cortando as paredes para as instalações elétricas, ao amontoado de fios elétricos, luminárias e peças de hidráulica que se tornou meu quarto de dormir, tento não surtar e encontrar paz pensando no que já conseguimos até aqui. Olho a grama sendo estragada pelos montões de areia, brita e tijolos. Olho para os rombos na parede do banheiro que o Leandro e o Neto fizeram com marreta, para trocar a caixa d'água. Olho para as paredes inacabadas, para o vai e vem dos pedreiros, trazendo o barro vermelho do quintal pra dentro de casa e tento não me descabelar ao lembrar quantas vezes já lavei o chão antes de me conformar que ele não ficará limpo até essa fase passar. Penso nos prazos que estão correndo, nas contas a pagar e tento não sair do prumo. Aí me lembro de olhar para as baias. E lembro que há pouquíssimo tempo, naquele piquete em frente à casa, só se via o chão vermelho, machucado pelas máquinas que aplanaram o terreno. A construção tão simples, tão pequena que agora se ergue ali me enche de orgulho e esperança. A madeira rústica, as telhas antigas, reaproveitadas da demolição de uma antiga escola, a casinha de cerâmica para os passarinhos, que eu pendurei, são as coisas mais simples do mundo, mas juntas formam um sonho realizado. Bom, formam um primeiro pedacinho de um sonho que é um pouco maior. Mas vendo esse primeiro pedacinho pronto, sei lá... de repente vislumbro o todo que ainda vai tomar forma. E acredito que daqui a pouco tempo, se Deus quiser, teremos nosso ninho pronto. Pequeno, simples, aconchegante e cheio de carinho como o dos moradores da casinha de cerâmica.

Duas baias: mais um passo rumo ao nosso sonho

Lord Ken foi o primeiro a se instalar na nova casa

Esse casalzinho apaixonado também logo achou seu cantinho lá nas baias

O pai orgulhoso, sempre defendendo o ninho

Olha a mãezinha aí. Os dois filhotes já estão grandinhos e logo devem estar ensaiando os primeiros voos.
Coloquei também um comedouro com sementes para eles.


Gostei dessa foto: no cantinho esquerdo do telhado, dá pra ver a casinha dos canários. Bem no topo do pé de jasmim manga, o pai canário está pousado. No cantinho inferior esquerdo da foto, a carinha da Meg. E por todo lado, muito amor e esperança.


quarta-feira, 5 de março de 2014

Álbum de fotos 3

Existe coisa melhor pra levantar a autoestima de uma mulher do que um dia de princesa, com direito a cabelereiro, maquiagem profissional e clicks de um fotógrafo top? Então, foi esse presentão que ganhei dos amigos Lincoln e Angélica. E o melhor de tudo é que foi aqui na minha rocinha, com a participação especial do maridão. Sempre achei que não sou nada fotogênica e tenho uma enorme resistência em postar fotos minhas, mas depois dessas fotos fiquei metida, rsrsrsr, e não resisti a fazer um post com elas.



Recomendo como terapia para baixa autoestima, ou só para se sentir mais poderosa, rsrsrrs, conferir o trabalho destes dois:


www.lincolncappaefotografia.webs.com

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Sobre como fomos adotados e depois abandonados pela Catilanga

Nossa, que saudade desse blog... Muito tempo afastada. Poderia inventar algumas desculpas (a eterna correria do dia a dia, muitas ocupações na cidade e na roça...) mas a verdade é que fiquei várias semanas paralisada pelo abraço de um monstro já há muito conhecido: a depressão. Depois de perder um tempo precioso com uma relutância irracional (não preciso de médico, não preciso de remédios, posso ficar bem sozinha, e outras bobagens)retomei o tratamento e aos poucos emergi do lodo de tristeza, desânimo, pensamentos de desesperança e morte, e voltei a respirar alegria e a ser eu mesma. E hoje senti o alívio de perceber que já está tudo bem de novo: a vontade de escrever no blog voltou! Ufa!
Mas antes de voltar aos assuntos felizes, vou contar uma história que acredito ter sido um dos responsáveis por essa recaída de depressão. Não que eu queira ficar remoendo infelicidades. Pelo contrário. Acho que contar aqui é uma forma de tratar e superar isso. Então lá vai:

Assim que compramos a chácara, a casinha azul era uma construção inacabada, habitada por morcegos, pássaros, abelhas (uma caixa enorme no que hoje é meu quarto) e marimbondos (outra caixa, no tanque de lavar roupa). Nas nossas primeiras visitas, percebemos que sempre havia marcas de patas de cachorro na varanda e logo descobrimos um outro habitante do lugar: uma enorme cachorra mestiça de foxhound americano, magra como um caniço, que dormia embaixo do tanque. Começamos a reformar a casa e a passar tempo lá e a cachorrona sempre por perto, nos passando raiva: revirava as latas de lixo, sujava o que limpávamos. Um dia ganhei da Luciene um queijo lindo e apetitoso que ela fez. Coloquei em cima da mesa da varanda, ainda embrulhado em plástico. Entrei na cozinha por um minuto e quando voltei, cadê o queijo? Perto da cerca, ainda vi a cachorra engolindo o último pedaço dele. O Leandro tentava mandar ela embora, mas a danada sempre voltava, com seu jeitão tranquilo e preguiçoso. Ela estava sempre com fome. Nessa época o Déo estava morando lá e dava comida pra ela. Foi ele quem começou a chamá-la de Tila, que era o nome de uma cachorrinha que ele teve em Goiás. Eu a chamava de Tilanga, ou Catilanga. Para o Neto, ela era a Cintilante.

Depois de um tempo, descobrimos que a Tila na verdade pertencia a um vizinho, que chamarei de Senhor J. Esse senhor tinha fama de não tratar muito bem os bichos, o que pudemos comprovar pela magreza inicial da Tila (com pouco tempo de trato ela já estava rolicinha) e pelo fato de ela ter se mudado pra nossa chácara. Tila era um espírito livre e às vezes ficava uns dias sumida, passeando. Um dia apareceu com um pedaço de pano amarrado apertado no pescoço. Fiquei bravíssima de alguém ter feito essa maldade com ela. Tentei desamarrar o pano, mas não saia. Então cortei com o canivete. Ela ficou toda feliz de ficar livre daquilo e agradeceu com seus pulos desajeitados, quase me derrubando. Mais tarde nesse mesmo dia, apareceu por lá a esposa do Sr. J. Ela nunca tinha nos visitado, então estranhei. Depois de me cumprimentar, ela já foi logo falando: "Olha, vocês estão dando comida pra minha cachorra, e agora ela não pára lá em casa. Nós precisamos da cachorra lá. Então queria te pedir pra não dar comida pra ela. Ontem eu amarrei ela pra ver se ficava quieta, mas ela deu jeito de escapar." Nisso, a Tila deitada tranquila aos meus pés, e eu torcendo pra vizinha não ver o pano cortado que ainda estava jogado ali perto... Fui educada e falei que não ia mais dar comida pra Tila (que na verdade, descobri, se chamava Pirata), mas fiquei revoltada com esses donos que além de não alimentar o bichinho, ainda amarraram a coitada daquele jeito. É claro que continuamos alimentando a cachorra. Depois que o Déo foi embora, o Rubinho é que ia tratar dos cavalos todos os dias, e deixamos um saco de ração pra ele tratar da Tila também. Ela nos acompanhava em todas as cavalgadas (mesmo sem ser chamada!). Passava cada vez mais tempo na chácara e não ficava mais dias sumida. Sempre que chegávamos, ela vinha nos recepcionar na estrada, fazendo a maior festa e correndo atrás da caminhonete. Pulava em mim, quase me derrubando, alegre com nossa chegada. Mesmo sabendo que a cachorra quase não aparecia mais na casa do Sr J, fiquei um pouco assustada quando me contaram que ele havia se mudado de lá. Foi embora e deixou a Tila pra trás. Não sei se ele pensou que ela estava melhor com a gente... Ou se nem pensou nela.

Uma noite, estávamos eu, o Leandro e o Neto preparando o jantar, depois de um passeio a cavalo. O Leandro estava na cozinha e o Neto e eu na varanda, conversando. De repente, o Neto fala: "Nossa, Pedrinho, não faz isso não!" Olhei pra trás e vi num relance o morador da chácara ao lado. Pedrinho fazia uns serviços de capina lá pra gente, e sempre que estava passando por perto, parava pra tomar uma cerveja. Nessa noite, ele parou a moto lá perto da cerca, e entrou no maior silêncio. Levamos um susto com ele aparecendo de repente na varanda, mas o susto maior foi a atitude da Tila, que numa fração de segundo saltou de seu lugar embaixo da minha cadeira e, latindo furiosamente, pulava e mordia o ar a centímetros do rosto do Pedrinho. Ele foi quem se assustou mais, coitado! "Tilanga, calma menina! Pára com isso!" Gritei, segurando a cachorra. Duas latinhas de cerveja depois, Pedrinho se recuperou do susto e admitiu que fez mal em não ter nos chamado antes de entrar. E eu percebi que estávamos oficialmente adotados pela Catilanga. E ela estava disposta a nos defender com unhas e dentes, de um jeito muito literal!

Quando a Tila entrou no cio, fiquei preocupada com a possibilidade de uma ninhada de filhotes. Nessa época (novembro de 2013) tinham chegado as novas filhotinhas, as duas Malinois, completando o nosso bando de sete cães: Hunter e May (os American Staff de 7 e 8 anos), Frida e Meg (as border collies, com 3 anos e 1 ano e meio), Tila (idade desconhecida!) e agora Thatcher e Golda. Não havia a menor possibilidade de aumentar mais a família, então logo pensei em castrar a Tilanga. O Dr Marcelo, veterinário que costuma atender os meus bichinhos tem uns preços meio altos, e como estávamos com as finanças apertadas, resolvi levá-la numa veterinária que eu não conhecia, mas que já tinha castrado os gatos da minha irmã. Ela foi muito gentil, nos atendeu muito bem e nem ficou brava quando a Tila (que nunca na vida havia visto uma coleira, muito menos ficado presa em uma gaiola) destruiu a jaulinha, fez xixi por todo lado, quebrou a porta da sala de observação e tentou fugir. Quando eu trouxe Tila pra casa, depois da cirurgia, ela vomitou muito e não tomava os remédios. Liguei para a veterinária, que receitou uns injetáveis. Sete dias depois, Tila ainda estava meio fraquinha, mas tão estressada de ficar presa na nossa casa da cidade, que resolvemos levá-la de volta pra roça. Ela fez a maior festa ao chegar...

Mas logo começamos a perceber que a Tila não estava muito bem. Ela não nos acompanhava mais nos passeios a cavalo. Ficava muito quieta e começou a emagrecer. Às vezes passava dias sumida. Um dia apareceu, depois de um longo sumiço, e não quis comer a ração. Muito esquisito, porque ela era sempre uma gulosa. Dei uma salsicha e ela comeu. Fiquei preocupada, porque ela estava muito magra, descorada e abatida, e resolvemos então trazê-la de volta pra cidade. Fiquei com medo de trazê-la pra casa, porque pensei que podia estar com alguma doença infecciosa e as filhotinhas pequenas estavam aqui. Então levamos para a casa do Lincoln, que generosamente a hospedou. Como não consegui marcar consulta com a veterinária que fez a castração, levei no Dr Marcelo. Ele examinou, fez um ultrassom e indicou cirurgia imediata. A suspeita era de obstrução intestinal. Tila ficou internada e eu sai da clínica aos prantos. No dia seguinte, como eu estava trabalhando, o Leandro foi conversar com o Dr Marcelo. Ele contou que a cirurgia foi muito difícil. O que aconteceu com a Tila foi uma obstrução do intestino, provocada por um erro cirúrgico durante a castração... Apesar da gravidade, ela saiu bem da cirurgia e, quando o Leandro foi vê-la, abanou o rabinho quando ele falou com ela. No dia seguinte fomos de novo à clínica. Tila estava deitada e respirava de um jeito pausado e lento. Não reagiu ao nos ver. Perguntei para a veterinária de plantão por que a respiração da Tila estava daquele jeito e ela disse que podia ser o calor, que ela estava bem. Mas eu sabia que não era o calor. Quando o telefone tocou na manhã seguinte e eu vi que era da clínica, já comecei a chorar antes de ouvir a notícia.

Dr Marcelo me pediu pra ir lá conversar com ele. Ele disse que se quiséssemos processar a veterinária, ele testemunharia pra nós e tinha as fotos da cirurgia como prova. Mas depois disso fui entrando numa espiral de tristeza e não consegui nem ir lá falar com ele. O mal já estava feito. Nenhum processo ia me devolver minha cachorrinha. Fui sufocada por um sentimento de culpa muito grande: por ter tido a ideia da castração, por ter procurado aquela médica ao invés do que já conhecíamos, por não ter percebido antes que havia um problema grave... Era só uma cachorra, muita gente pensaria, mas nós que amamos os bichos também sofremos por eles.

Essa semana a Sônia e o Rubinho perderam a cachorrinha Mila. Uma linda que eu também adorava. Corajosa caçadora de ratos e defensora da casa e dos donos. Tão corajosa, a pobrezinha, que não teve medo e não se afastou da cascavel... Sônia ficou arrasada e disse que nunca mais quer ter cachorro na vida. Mas sabemos que logo a dor será menor, e já estamos providenciando uma surpresa: um lindo filhotinho de blue heeler. Quanto a mim, ficaram seis bichinhos ra me consolar.

Thatcher e Golda, as filhotes estabanadas, apaixonadas por água... As cachorras mais felizes do mundo, porque têm um pasto imenso pra correr, um rio pra nadar (quando dá preguiça de descer pro rio, elas mergulham nos cochos de água dos cavalos!) e a rede pra deitar junto comigo à noite.




Hunter e May. Meus dois "porquinhos" preguiçosos e dorminhocos.


Frida. Meu xodó. Minha companheira que me procuraria até o fim do mundo se se perdesse de mim.



Meg. Minha raposinha tímida. Viveu seus primeiros três anos na cidade, num canil pequeno. Nos foi presenteada por seu dono, um policial que treina os pastores alemães e malinois do canil da PM, e que sofria por não poder dar a Meg toda a liberdade e o movimento que o excesso de energia dessa border collie exigem. Até hoje acho que ela não acredita direito que tem esse espaço todo pra brincar.



O Leandro fala que é bom ter muitos cães, porque aí não sofremos tanto se acontecer alguma coisa com um deles. Mas eu discordo. Amamos cada um e sofremos por cada um. Mas, se existe a dor da perda, é porque existiram muitos momentos de felicidade. A fidelidade, o amor incondicional, a alegria fácil desses bichinhos nos ensinam a cada dia. Eles com certeza valem a pena...