quarta-feira, 28 de maio de 2014

De Nárnia a Bangladesh

"Digory já estava para agarrar o anel amarelo quando se lembrou de algo importante:
- Espere um pouco: e mamãe? Se ela perguntar onde eu estou?
- Quanto mais depressa for, mais depressa estará de volta - disse o tio André, tentando ser animador.
- Mas o senhor nem mesmo sabe se eu vou voltar.
Tio André sacudiu os ombros, deu uns passos, abriu a porta e disse:
- Pois muito bem. Como quiser. Desça para jantar. Deixe que as feras devorem a garota. Ou que ela se afogue. Ou que morra de fome. Ou que se perca no outro mundo. Se é o que prefere."
_ Mas a voz dele é assim mesmo? - Dudu me interrompeu. Meu sobrinho de seis anos já sabe ler muito bem. Mas gosta que eu leia pra ele justamente por causa da "interpretação" dos personagens.
_ Não, Dudu!_ é claro que o tio André, um mago muito malvado, tinha que ter uma voz à altura de sua crueldade. Prossegui então, bem esganiçada, com a fala do bruxo:

"...Pra mim dá no mesmo. Talvez fosse bom que, antes do chá, você avisasse à mãe dela que nunca mais verá a filha... Só porque você tem medo de colocar um anel no dedo.
- Ai, ai - gemeu Digory -, queria tanto ser grande para lhe dar um murro na cara!
Abotoou o casaco, respirou fundo e pegou o anel, pensando, como sempre pensou mais tarde, que não havia para ele outra maneira de proceder com dignidade
."

Assim termina o segundo capítulo de "O Sobrinho do Mago", a primeira das Crônicas de Nárnia. Li mais dois capítulos para o Dudu, antes da mãe dele chamar pra almoçar, mas fiquei com essas palavras gravadas na mente: "não havia outra maneira de proceder com dignidade".
C. S. Lewis é o cara. Só alguém doido como ele para ensinar crianças que, muitas vezes, arriscar a vida, agir sem nenhuma prudência, colocar de lado seus próprios interesses e sua própria segurança é a única coisa digna a se fazer. Quem, em sã consciência, nos nossos ricos, conectados e individualistas dias, seria capaz de ensinar coisas tão perigosas aos pequenos? Claro, Lewis era doido o suficiente para acreditar em coisas mais preciosas que a vida. Para o bem da ordem social e da estabilidade política, hoje em dia existem poucas pessoas assim tão malucas.

Porém, como em meu círculo social transitam muitos seres que não poderiam ser enquadrados no conceito moderno de normalidade, sempre calha de eu presenciar ou ouvir contar algum fato que me faz sorrir a alma, me mostrando que conceitos como justiça, coragem e caráter ainda sobrevivem.

Um desses fatos foi o seguinte: meu amigo me conta que está preocupado com o pai dele, o Sr. E. que estava com o pé fraturado e teve que tirar o gesso por causa de uma ferida na pele. Por causa do diabetes, a cicatrização é sempre complicada e feridas nos pés são muito preocupantes. Aí você já imaginou o Sr. E. todo doentinho, tristinho, macambúzio, com o pé machucado. Então agora vou contar como é que ele arranjou a ferida. Lá estava ele conversando com um amigo na porta de uma loja, com seu pé engessado e suas muletas, quando viu, do outro lado da rua, a seguinte cena: Um rapaz aplicava uma "gravata" em uma moça enquanto com a mão livre vasculhava sua bolsa. Era um lugar movimentado e muitas pessoas passavam por ali, mas ninguém parecia notar o ato violento. Sr. E. não hesitou. Atravessou a rua manquejando com suas muletas e, alcançando o rapaz, aplicou-lhe um bom safanão. Assustado, o ladrão saiu em disparada. A mocinha então falou, desconsolada: "Meu celular! Ele levou meu celular..." Sr. E. não teve dúvidas: "Vem comigo!" Correu até sua caminhonete, estacionada logo ali, e levando a moça, saiu atrás do meliante. O ladrão correu pela avenida, dobrou uma esquina, e o Sr. E. atrás. Na primeira oportunidade, Sr. E. subiu na calçada e interceptou o caminho do fugitivo. Pulou da caminhonete e já agarrou o dito cujo pelo colarinho. Deu-lhe uns bons sopapos, jogou-o ao chão, desferiu-lhe vários chutes com a bota de gesso (que se quebrou toda, machucando o pobre pé já fraturado e causando a ferida da qual falei) e arrancou-lhe o celular subtraído. Depois, com o gesso em frangalhos, foi acompanhar a vítima (a vítima do roubo, não a dos chutes!) até a delegacia mais próxima para fazer o boletim de ocorrência e confessar seu crime de agressão, pelo qual os policiais de plantão lhe deram os parabéns. Meu amigo, filho do Sr. E., ficou irado quando soube do acontecido. Afinal, que loucura foi essa de correr atrás de ladrão? Se arriscando a bater o carro, a levar uma facada, um tiro, sei lá... E por quê? Pra recuperar coisa roubada de quem você nem conhece?
Eu conheço pouco o Sr. E. Sei que ele é um violonista talentoso e tem uma linda voz com a qual gosta de encher as noites no rancho de canções sertanejas. Sei que ele tem uma alma generosa e que em todo Natal enche o caminhão da empresa de brinquedos para distribuir nos bairros carentes. Mas depois desse fato fiquei muito fã do Sr. E. Porque ele optou sem sofrimento pela única maneira de proceder com dignidade naquele momento.

Não. Não quero incentivar ninguém a sair correndo atrás de bandido. Não acho que tenhamos todos que vestir a capa do Batman e virar justiceiros. Mas que dá gosto saber que a injustiça ainda dói nos olhos e ferve o sangue de alguns, isso dá. E às vezes dá um ou outro motivo de risada também. Como no caso do meu amado marido, que há uns anos estava comprando pão quando ouviu gritos de "Ladrão! Pega ladrão!" na rua. Saiu da padaria e viu o dono da lojinha ao lado correndo atrás de um rapazinho que fugia de bicicleta. Largando o pacote de pão, Leandro entrou na caminhonete e saiu em perseguição ao ciclista gatuno. Subiu a rua pela contra-mão, entrou numa travessa, em outra, e o ladrão desesperado, pedalando com todas as forças, subindo na calçada, caindo, levantando, pedalando mais. Mas uma hora não teve jeito. Leandro deu-lhe uma fechada com a caminhonete e derrubou o danado. Pulou pra fora e agarrou o rapaz pela camisa. Sacudia o moço e gritava: "Devolve o dinheiro!" Meu marido é um homem grande. Com um metro e oitenta e quatro de altura e pesando cem quilos, gritando muito nervoso, ele deve ter assustado um pouco o franzino ladrão, que quase chorando, implorava: "Me larga, moço! Eu não tenho dinheiro!" Mas o Leandro insitia: "Me dá logo esse dinheiro, seu safado, senão eu vou te bater! Devolve o dinheiro que você roubou!" O rapazinho então tirou do bolso uma nota de cinco e uma de dois reais, todas emboladas. Leandro largou então o infeliz, que saiu em disparada a pé, deixando a bicicleta caída na calçada. Nisso chega correndo o dono da loja, que ao ver a cena (a bicicleta caída e meu marido parado com as notinhas amassadas na mão, meio confuso ao perceber quão pouco dinheiro era) agradece esbaforido: "Nossa, cara! Nem sei como te agradecer! Você recuperou minha bicicleta!" Aí que o Leandro entendeu; "Uai, foi a bicicleta que ele roubou? E quase que eu deixo ele ir embora nela! Ele não tinha roubado dinheiro?" "Não! Dinheiro ele não levou." "Ah, coitado! Então ele ficou foi no prejuízo, porque eu tomei esses sete reais dele... Fica pra você, então." Até hoje às vezes começo a rir sozinha, lembrando dessa história.

Tem algumas "questões filosóficas" que sempre discuto com o Leandro e sobre as quais sempre discordamos. Uma delas é a pergunta: "Existe bondade inata no ser humano? Ou só somos bons e generosos quando isso não nos traz nenhum prejuízo? Em situações extremas, de vida ou morte, o ser humano vai instintivamente fazer o que for preciso pra sobreviver, esquecendo coisas como amor e honra?" Leandro acha que somos lapidados pela cultura para agirmos bem,
mas que o ser inato do homem não é bom. Eu já penso que não somos só corpo e mente, mas também espírito, e por isso acredito que exista o conceito inato de bem. Acredito que lá na nossa essência espiritual sabemos o amor e queremos o que é certo. É claro que esse sentimento pode ser aperfeiçoado ou embotado pelo meio e pela cultura. Mas independente do conceito nascer com a gente ou de ser semeado e cultivado depois, é revigorante ver que nos lugares e ocasiões mais desfavoráveis, a prática do bem existe. Pensando nisso, não resisti a falar do menino que virou meu herói esse ano. Vocês com certeza já viram essas fotos, mas elas merecem ser lembradas. Lá de Bangladesh, esse moleque arejou minha fé na humanidade.

Durante uma enchente em Bangladesh, o fotógrafo Hasibul Wahab flagrou esse ato de coragem: o menino Belal atravessa as águas para salvar um filhote de cervo que estava ilhado



O resgate foi um sucesso. Mas esse maluco poderia ter se afogado. Fazer o quê? Era a única maneira de proceder com dignidade...

Belal, você é o cara! C. S. Lewis deve ter aplaudido lá do céu.

De novo, gente! Não é um incentivo para sair por aí se jogando em rios. Porém, continuo acreditando que o que é certo é certo e pronto. Escolhemos fazer ou não fazer, e teremos que conviver com as consequências de um ou de outro, e assim como Digory, pensaremos muitas vezes nisso mais tarde. Algumas vezes é perigoso, outras vezes doloroso, humilhante, fora de moda, ou simplesmente esquisito, e pode levar do simples desconforto social à criação de inimizades, mas continua sendo o certo. O que me leva a encerrar com uma frase de um outro autor, muito mais jovem que meu querido Lewis, Christopher Paolini: "Se você não fizer uns inimigos de vez em quando, é porque é um covarde ou coisa pior."  Outro doido, coitado... O bom de estar no time dos doidos é isso: não tem taaaanta gente assim, mas a galera é de alto nível.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ninho em construção

          Em meio ao caos da reforma da minha casinha tento achar um ponto de equilíbrio. Em meio à poeira de cimento que impregna tudo, ao barulho da maquita cortando as paredes para as instalações elétricas, ao amontoado de fios elétricos, luminárias e peças de hidráulica que se tornou meu quarto de dormir, tento não surtar e encontrar paz pensando no que já conseguimos até aqui. Olho a grama sendo estragada pelos montões de areia, brita e tijolos. Olho para os rombos na parede do banheiro que o Leandro e o Neto fizeram com marreta, para trocar a caixa d'água. Olho para as paredes inacabadas, para o vai e vem dos pedreiros, trazendo o barro vermelho do quintal pra dentro de casa e tento não me descabelar ao lembrar quantas vezes já lavei o chão antes de me conformar que ele não ficará limpo até essa fase passar. Penso nos prazos que estão correndo, nas contas a pagar e tento não sair do prumo. Aí me lembro de olhar para as baias. E lembro que há pouquíssimo tempo, naquele piquete em frente à casa, só se via o chão vermelho, machucado pelas máquinas que aplanaram o terreno. A construção tão simples, tão pequena que agora se ergue ali me enche de orgulho e esperança. A madeira rústica, as telhas antigas, reaproveitadas da demolição de uma antiga escola, a casinha de cerâmica para os passarinhos, que eu pendurei, são as coisas mais simples do mundo, mas juntas formam um sonho realizado. Bom, formam um primeiro pedacinho de um sonho que é um pouco maior. Mas vendo esse primeiro pedacinho pronto, sei lá... de repente vislumbro o todo que ainda vai tomar forma. E acredito que daqui a pouco tempo, se Deus quiser, teremos nosso ninho pronto. Pequeno, simples, aconchegante e cheio de carinho como o dos moradores da casinha de cerâmica.

Duas baias: mais um passo rumo ao nosso sonho

Lord Ken foi o primeiro a se instalar na nova casa

Esse casalzinho apaixonado também logo achou seu cantinho lá nas baias

O pai orgulhoso, sempre defendendo o ninho

Olha a mãezinha aí. Os dois filhotes já estão grandinhos e logo devem estar ensaiando os primeiros voos.
Coloquei também um comedouro com sementes para eles.


Gostei dessa foto: no cantinho esquerdo do telhado, dá pra ver a casinha dos canários. Bem no topo do pé de jasmim manga, o pai canário está pousado. No cantinho inferior esquerdo da foto, a carinha da Meg. E por todo lado, muito amor e esperança.